Representatividade importa: como o audiovisual retrata a deficiência?

Educadores celebram maior visibilidade de personagens com deficiência em séries e filmes e indicam obras, mas avaliam que, em vez de valorizar a diversidade, algumas ainda reforçam estereótipos

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Uma zapeada pelas plataformas de streaming deixa evidente como o número de filmes e séries que trazem pessoas com deficiência, transtorno do espectro do autismo (TEA) ou altas habilidades e superdotação como personagens protagonistas ou não vem aumentando nos últimos anos. “É um fenômeno mundial. Temas como capacitismo, questões de gênero e racismo têm sido colocados em pauta pelo audiovisual, o que é muito importante. Até pouco tempo atrás, as pessoas com deficiência não eram vistas na mídia. Hoje, estão em novelas, filmes e séries de plataformas de grande alcance”, comenta a formadora de professores Maria da Paz Castro. 

Além dos enredos que versam sobre essas pessoas, outro fato a se comemorar é o espaço que atores com deficiência vêm ganhando com essas representações. O filme brasileiro “Colegas, dirigido e roteirizado por Marcelo Galvão, por exemplo, narra a história de três amigos que resolvem deixar para trás a instituição onde vivem para embarcar em uma viagem de carro. O trio protagonista é interpretado pelos atores Ariel Goldenberg, Rita Pook e Breno Viola todos com Síndrome de Down. Aclamada pela crítica, a produção levou o prêmio de Melhor Filme Brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2012. 

Outro exemplo é a série Special, na qual Ryan O’Connell vive o protagonista de seu livro autobiográfico Sou Especial: E Outras Mentiras que Contamos a Nós Mesmos, que trata do cotidiano de um jovem gay com paralisia cerebral que vai em busca da vida que sempre quis e vive os altos e baixos de ser quem é. “Normalmente, quando você tinha um personagem gay, era como o melhor amigo de alguém. Quando você acrescenta a isso a paralisia cerebral, vira algo gigante. É realmente importante que Hollywood avance para mostrar mais a realidade, disse o ator em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. 

Para Augusto Galery, gerente de gestão educacional do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), a ocupação desses espaços tem feito a diferença. “O cinema, assim como a literatura, permite conhecer e experienciar lugares e situações que não nos são familiares. Um dos maiores motes do movimento pelas pessoas com deficiência é que ‘nada é sobre nós, sem nós’. Se eu não conheço aquela realidade, a chance de eu estereotipá-la é muito grande”, explica.  

Para a pedagoga Valéria dos Reis Souza, supervisora de educação especial na Secretaria de Educação de Mogi Guaçu (SP), se por um lado a crescente visibilidade é positiva, a qualidade da maioria das representações ainda deixa a desejar. “As pessoas com deficiência precisam estar representadas em todos os segmentos da sociedade para saírem desse lugar de invisibilidade e serem lembradas e conhecidas como parte da sociedade, que é diversa”, diz. “Mas, na minha percepção, ainda prevalece um olhar capacitista: ou somos tratados como super-heróis ou somos colocados em posição de fragilidade”, critica. 

A professora Malu Sobreira, que integra a equipe técnica da Gerência de Atendimento Educacional Especializado (GAEE) na Secretaria de Educação de Itapevi (SP), concorda: “Sempre vejo filmes e séries que mostram pessoas com deficiência como alguém com superpoderes e detesto isso. Nenhuma pessoa com deficiência é super-herói. Somos pessoas como as outras, que precisam ter suas necessidades respeitadas”.  

Segundo Valéria, quando pessoas sem deficiência são convocadas para interpretar personagens com deficiência, o que se endossa é o capacitismo, a ideia de que atores com deficiência não são capazes de desempenhar aquele papel. “A proposta pode até ser bem-intencionada, mas o tiro sai pela culatra, pois o resultado não traz um olhar verdadeiro. Em geral, apresenta uma idealização da realidade”, diz. 

Sucesso mundial, a série sul-coreana “Uma Advogada Extraordinária” escorrega nessa armadilha. A produção trata de uma advogada com transtorno do espectro do autismo (TEA), que desvenda casos de forma brilhante e se manteve em primeiro lugar no top 10 mundial de séries da Netflix por duas semanas consecutivas, garantindo uma segunda temporada. Premissa parecida embasa a série “The Good Doctor: O Bom Doutor”, com a transmutação do personagem “genial” para o ambiente médico.   

“É capacitista. Apesar de mostrar algumas das dificuldades de um autista, em muitos momentos a série coloca o personagem como vítima por conta disso. E, outras vezes, ele é herói, por ter uma inteligência acima da média”, comenta Malu. 

“Essa é uma das séries consideradas problemáticas porque o ator não é autista e a produção é extremamente estereotipada”, completa Augusto, estendendo a mesma crítica à série “House”, que acompanha um médico deficiente mal-humorado, que é um verdadeiro gênio no tratamento de doenças misteriosas. “Nesse caso, a série justifica diversas características questionáveis do personagem pelo fato de ele possuir uma deficiência, assim como a série Monk: Um Detetive Diferente, cujo protagonista tem TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] e que frisa toda hora que ele é diferente porque tem uma deficiência”, critica Augusto.  

Para o especialista, olhares como esses, em vez de contribuírem para a inclusão, acabam reforçando estereótipos e o capacitismo. “Se pegarmos até o final do século passado, a pessoa com deficiência era retratada com foco na sua própria deficiência: ou ela era uma grande vencedora, que superava desafios apesar de toda a dificuldade, ou havia o foco na deficiência como se fosse uma doença”, diz.  

Maria da Paz concorda com a crítica. Para ela, o audiovisual não pode romantizar a vida das pessoas com deficiência ao enveredar por um caminho de que tudo é muito difícil. “Elas quase sempre aparecem como um problema e não como pessoas como todas as outras. Isso porque a maioria das produções coloca o foco na limitação do indivíduo, e não nas barreiras da sociedade. Nunca são cidadãos comuns, vivendo vidas cotidianas nos mais diferentes papéis sociais, profissionais, afetivos e culturais”, diz.  

Um bom exemplo de representação, aponta Augusto, é o personagem Professor Xavier, dos quadrinhos da série X-Men, criada por Stan Lee e Jack Kirby, que já ganhou diversas versões cinematográficas. “Ele é cadeirante, mas a história dele não se centra nisso. Ele é um dos super-heróis e não porque é cadeirante ou apesar disso”, explica. 

Malu cita “Os Intocáveis”, filme de 2011, dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, baseado em uma história real sobre a amizade entre um milionário que utiliza uma cadeira de rodas e o homem que o ajuda com tarefas cotidianas. “Amo esse filme porque ele retrata aspectos interessantes da realidade. Ele mostra as mudanças na vida de uma pessoa com deficiência, que começa se vendo como alguém incapaz, em um reflexo de muitas crenças sociais, e depois consegue se enxergar como uma pessoa para além da deficiência. E vai mostrando o papel das outras pessoas nessa mudança.” 

O caminho para evitar o estereótipo, segundo os entrevistados, é simples: trazer cada vez mais pessoas com deficiência para participar de todos os processos envolvidos nas produções audiovisuais, desde o roteiro até a atuação. Ou, nas palavras de Valéria: “Colocá-las como protagonistas e deixá-las falarem por si. Se a gente não convive e não vê, não se inspira também”.  

Para Malu, também é importante levar esses filmes e séries para a sala de aula e debatê-los com os estudantes. “Precisamos mostrar que as pessoas com deficiência são pessoas comuns, com qualidades e defeitos, boas ou más. E que todos, não apenas as pessoas com deficiência, podem enfrentar e superar dificuldades.”

Nesse sentido, Maria da Paz aconselha que os educadores foquem nos debates que as obras possam suscitar. “As séries e filmes podem ser importantes se fomentarem uma discussão”, diz a formadora de professores. Mas alerta que esse debate não deve ser atravessado pelo adulto o tempo todo, levando as crianças a falarem o que ele quer ouvir. “Lógico que a mediação do professor é fundamental, mas não dá para trazer um filme e esperar uma catarse pronta da turma.” 

 Além disso, a especialista destaca que os filmes e séries não devem substituir o trabalho cotidiano dos educadores e gestores para que a inclusão seja um princípio do projeto político-pedagógico da instituição. “Isto é, não adianta falar que tem de respeitar e incluir as pessoas com deficiências, se a gente coloca o laboratório de ciências no quarto andar quando a escola não tem elevador”, exemplifica. 

 

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