Professora usa receitas e comida para alfabetizar turma de aluna com deficiência física

Sou professora da Escola Estadual Professor João Caetano da Rocha, no distrito de Itápolis (SP). Ao iniciar o ano letivo com minha turma do 2º ano, deparei-me com a seguinte situação: apenas uma estudante no nível alfabético e a maioria na hipótese de escrita pré-silábica, filhos de pais com baixa escolaridade e com pouco acesso a materiais escritos. Procurei aperfeiçoar minha formação para aprender modos eficientes de alfabetizar a todos. Lia histórias diariamente, procurando provocar emoções e fazendo com que apreciassem a beleza das narrativas. Os alunos passaram a levar para casa uma maleta com diversos tipos de textos, dando aos pais a oportunidade de participar do aprendizado de seus filhos. Em sala, trabalhávamos com listas, parlendas, cantigas, bilhetes, convites etc. No segundo bimestre, eles haviam evoluído, mas percebia que faltava algo que fizesse com que eles tomassem gosto pela leitura.

Foi quando fiquei sabendo que receberia uma garota com deficiência física, com a coordenação motora comprometida, que não falava, mas entendia e respondia por meio de movimentos no rosto e com sorrisos. O choque foi grande. Tinha medo de não saber lidar com ela e achava que essa situação atrapalharia meu trabalho de alfabetizar aquelas crianças. Mas logo percebi que não podemos ter medo do que não conhecemos.

Junho se aproximava e, então, decidi usar as atividades de preparação da festa junina para avaliar o conhecimento dos estudantes. Como as comidas típicas eram os elementos juninos mais conhecidos das crianças, resolvemos trabalhar com textos de receitas, ótimas ferramentas de comunicação que poderiam levá-las a participar de forma eficiente de atividades da vida social que envolvem leitura e escrita.

Veja como foram desenvolvidas parte das atividades de alfabetização desenvolvidas na Escola Estadual Professor João Caetano da Rocha:

 

Receitas para alfabetizar

Procurei oferecer uma diversidade de textos para que eles identificassem quais poderiam ser caracterizados como receitas. Pedia para que justificassem suas escolhas, colocando em jogo comportamentos de leitor. Eles tiveram a oportunidade de conhecer a estrutura do texto, o que é um sumário e como é possível localizar uma receita em um livro. Com o alfabeto móvel, fazíamos listas de nomes de comidas, bebidas, doces e salgados. Procurei trabalhar em duplas ou pequenos grupos para que um complementasse a ideia do outro e para que pudessem colocar em jogo o que sabiam, confrontando os colegas.

Em todas as atividades, fazia adequações para atender minha aluna com deficiência. Colocava-a em dupla com a estudante alfabetizada, que a auxiliava nas atividades, e procurava sempre fazer as intervenções necessárias. Não deixava de registrar diariamente nosso trabalho para avaliar o quanto estavam avançando e como deveria proceder. Não perdia nenhum detalhe, cada mudança era preciosa para mim. Por meio das anotações, acompanhava o desenvolvimento e necessidades de cada um.

 

Na cozinha

Ao final do projeto, produzimos um livro de receitas. Além disso, fomos para a cozinha colocar a mão na massa. Em todas as atividades, junto com a professora especialista, fazia adequações para atender minha aluna com deficiência: mostrávamos o desenho dos ingredientes e ela apontava o nome correspondente. Ela, inclusive, ajudou no preparo da comida. Seus movimentos eram lentos e feitos com muita dificuldade, mas não foram empecilhos para que deixasse de realizar as atividades. No dia da festa junina, preparei meus alunos para uma apresentação da quadrilha e coloquei na dança a estudante com deficiência. Com isso, a aceitação dos pais e da comunidade e o respeito com ela mudaram bastante.

Durante o trabalho de alfabetizar aquela classe, aprendi a reconhecer suas reações, seus gestos, seu olhar e, principalmente, o quanto ela era capaz de aprender. Essa aluna ficou comigo por dois anos e, mesmo sem recursos e experiência, procurávamos fazer com que ela sentisse vontade de voltar todos dias para a escola. Sempre tivemos apoio da equipe gestora e da diretoria de ensino e, quando revejo os filmes e fotos da época, fico emocionada e me sinto gratificada por ter recebido essa oportunidade tão rica para meu crescimento profissional. Hoje estou fazendo uma especialização em atendimento educacional especializado (AEE).

Projeto vencedor do Prêmio Educador Nota 10 de 2009.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: