Karina Drude Puga Rui

Justificativa

Os motivos pelos quais este projeto passou a existir foram vários. Um deles é o alastramento de escorpiões em nossa cidade e no estado de São Paulo, fazendo em 2011, 57 mil vítimas em nosso estado com 91 mortes, sendo 40 crianças.

No início do mês de março, fiz uma sondagem do conhecimento prévio dos alunos sobre este tema. Perguntei a eles quantos ali já tinham achado escorpiões em casa. Para a minha surpresa a maioria levantou as mãos e alguns haviam sido picados. No meio da conversa surgiram as cobras.

Alguns alunos moram na zona rural e encontram cobras e escorpiões regularmente. Os que moram na cidade encontram muitos escorpiões dentro e fora de casa, brincam nas redondezas da cidade em brejos e sítios, ocorrendo acidentes relevantes. A maioria deles não têm conhecimento nenhum sobre animais peçonhentos, não reconhecem sua importância para a saúde e o meio ambiente e desconhecem os cuidados preventivos.

Muitos dos acidentes com escorpiões ocorrem em casa devido a facilidade dos criadouros, como por exemplo: entulhos, pilhas de tijolos e telhas, paredes sem reboco, reciclagens estocadas incorretamente nos quintais de casas. 

Muitos moram perto de terrenos baldios, descuidados, contendo entulhos, lixos e sujeiras, surgindo nesse grupo casos de pessoas picadas por escorpiões. Acham escorpiões no tapete da sala, em sacos de roupas dentro de casa, na parede sem reboco do tanque de lavar roupas, nas telhas e tijolos armazenados nos quintais, em roupas penduradas no banheiro e outros. 

Quanto às cobras, conhecem ou possuem parentes que já foram picados, mas os que moram na zona rural encontram essas regularmente. Quando se deparam com esses animais, a primeira reação é matá-los. Sendo assim, desconhecem a maneira de prevenção contra acidentes com esse tipo de animal, muitas vezes invadindo o habitat deles, desconsiderando a importância deles para o meio ambiente e para a produção de soros e medicamentos.

Desconhecem como é feita a produção de soro para tratamento de acidentes com animais peçonhentos, a função do soro no organismo e a importância deles para a produção de alguns medicamentos e pesquisas. Alguns alunos pensam que o veneno é retirado da vítima com a agulha da seringa, ou seja, eles imaginam que a vítima, quando vai até o hospital, não está sendo colocado nada na pessoa e sim retirando o veneno.

Nunca ouviram falar sobre o médico pesquisador Dr. Vital Brazil, nem em suas pesquisas e muito menos no Instituto Butantan e Instituto Vital Brazil, desconhecendo assim a grande importância e contribuição deste médico e dessas instituições para a humanidade bem como a relação deles com os peçonhentos.

Durante a sondagem, citaram no meio de cobras e escorpiões, vários animais como sendo peçonhentos, como: leão, pererecas, tubarões, tigres, baratas, lagartixas, lesmas e outros, trazendo com eles conceitos errôneos e não conseguindo distinguir animais peçonhentos, não peçonhentos e venenosos.

Para eles, peçonhentos era todo animal perigoso, nojento, sujo, que transmite doenças e que provocam medo e pavor. 

Me chamou a atenção, histórias, mitos e lendas sobre cobras que alguns citaram como verdade.

Surgiu no meio das conversas a “cobra que mama na mulher que está amamentando e coloca o rabo na boca do nenê”, “cobras que andam em casal”, “escorpiões que se suicidam perto do fogo”, “cobras que piam como pintinhos”, “cobras que hipnotizam”, “cobras que engolem gente” e as frases do tipo “se não matar a cobra direito, ela volta no mesmo lugar para morder novamente a pessoa” e outras histórias que eles trazem dos avós e parentes mais velhos.

O mais preocupante é a falta de conhecimento sobre medidas preventivas contra acidentes com animais peçonhentos, principalmente cobras e escorpiões, vivendo nesses ambientes, com essas atitudes e o pior, achando tudo comum e normal, sem considerar os riscos.

Portanto, achei relevante e necessário explorar o tema, aproveitando e partindo do conhecimento prévio do aluno, elaborando uma sequência didática que contribua com o enriquecimento do seu pré-conhecimento e cultura científica, trabalhando as medidas preventivas contra acidentes com animais peçonhentos estimulando uma reflexão para mudança de comportamento em relação ao meio ambiente.

 

Objetivos

O meu objetivo com este projeto, foi em primeiro lugar conscientizar os alunos sobre as medidas preventivas contra acidentes com animais peçonhentos, em especial os escorpiões, trabalhando as principais características, funções e curiosidades desses animais e análise de ambientes propícios para a reprodução deles.

Desmistificar conceitos errôneos, mitos e lendas sobre eles, proporcionando ao aluno construir o seu conhecimento científico através da investigação e da pesquisa em várias fontes como análise de textos, revista científica, notícias, reportagens, documentários, mapas, tabelas, esquemas, dados e outros, desenvolvendo o gosto pela pesquisa. 

Fazê-los construir um olhar crítico sobre essas ações que vivenciam e com aspectos da ciência em que eles estão ali em contato, estimulando as reflexões e mudanças de atitudes em relação ao meio ambiente próximo a eles.

Mostrar a importância dos animais peçonhentos na produção de medicamentos e soros, valorizando a trajetória científica de Vital Brazil e do Instituto Butantan e através desses, relacionar os fatos históricos sobre a época da migração e imigração para trabalhar nos cafezais do Brazil e as necessidades da sociedade da época de pesquisar medicamentos e soros para o número elevado de acidentes e mortes com peçonhentos e doenças.

Enfim, aprender um conteúdo e seus conceitos científicos que os levam a construir uma cultura científica, com competência científica voltada para a reflexão, observação e mudanças de atitudes, aprendendo a falar sobre o que reflete e observa.

 

Conteúdos curriculares

Histórias, lendas e mitos sobre cobras. 

Principais características das cobras.

Diferença entre os termos serpentes e cobras.

Tipos de acidentes com peçonhentos e primeiros socorros.

Três tipos mais importantes de toxinas encontradas no veneno de cobras e suas reações no organismo.

Tipos de dentições das cobras.

Diferença entre animal peçonhento, não peçonhento e venenoso.

Diferentes glândulas e aparelhos inoculadores de peçonha dos animais mais conhecidos por eles.

Artrópodes e a diferença entre insetos e aracnídeos.

Ambientes propícios para a reprodução dos escorpiões.

Notícias de jornais e telejornais sobre escorpiões.

Medidas preventivas contra acidentes com escorpiões.

Os tipos de reprodução nas principais espécies de escorpiões encontradas no Brazil.

Anatomia básica dos escorpiões.

Sintomas e uso de soros em casos de acidentes escorpiônicos.

Produção de soro antiofídico, antiescorpiônico pelo Instituto Butantan, Instituto Vital Brazil e a formação de antígeno e anticorpo pelo corpo através desse soro.

A história do nascimento do Instituto Butantan juntamente com as pesquisas do Dr. Vital Brazil.

A trajetória científica do Dr. Vital Brazil, sua relação com o Instituto Butantan e a importância dessa instituição e dessas pesquisas para a humanidade.

 

Adequação das propostas caso haja alunos com necessidades educacionais específicas.

No 7º ano A temos uma aluna com 16 anos, com muita dificuldade na coordenação motora e na compreensão das atividades devido a problemas na hora do nascimento que levou a uma falta de oxigênio no cérebro afetando parte deste. No seu trajeto escolar, passou pela APAE até os 10 anos com muitas dificuldades para andar, falar e na coordenação. Passou a frequentar a escola regular a partir dos dez anos, andando quase que 100% normal, desenvolvendo uma boa socialização.

Apesar de suas dificuldades, consegue copiar saindo um registro bem trêmulo. Participa muito bem socialmente das aulas mesmo com as dificuldades da fala e coordenação, mas não consegue ler o que copia.

Sua escrita é completamente sem sentido. Impossível de entender. Mesmo perguntando a ela o que escreveu, não é capaz de explicar. 

Raramente lembra o que foi explicado ficando apenas relances do assunto.

Porém, durante as aulas, não admite ficar sem fazer nenhuma atividade. Precisou se ausentar por alguns dias do projeto, necessitando fazer alguns exames devido a um desmaio. Nesses exames constatou diabete.

A adaptação para a participação neste projeto foi feita de acordo com as atividades.

Na maioria das vezes era colocada com outro aluno para auxiliá-la. Outras atividades ela me indicava oralmente o seu registro e eu ia anotando o que ela dizia. Sempre eu pedia um retorno oral para que pudesse ser avaliada dentro dos seus limites. Mas, considerei sempre a sua participação, pois os registros, apesar de caprichado, são precários e muitos deles sem sentido.

Apesar de tudo, é um exemplo de aluna, pois é muito responsável com os seus deveres.

Assistiu a todos os vídeos, interagindo e se expressando da sua maneira. 

Participou assiduamente do projeto, sempre que pôde, fazendo os seus registros dentro dos seus limites e com muita satisfação.

Uma das etapas do projeto, fizemos uma reflexão sobre o conceito de animal peçonhento, perguntei: “Você sabe definir o que é um animal peçonhento?”. “Por que eles são chamados de peçonhentos?”. Uns diziam que eram animais “sujos”, “nojentos”, outros diziam que eram animais “perigosos”, “ferozes” e que colocavam medo nas pessoas. Perguntei exemplos. Fomos juntos colocando na lousa uma lista de animais ditados por eles. Surgiram além de cobras e escorpiões, vários animais não peçonhentos como lesmas, perereca, lagartixas, leão, tubarão, tigre e outros. Em seguida, fizeram o registro do que eles relataram. Depois, pedi para desenhar esses animais. O conceito de “peçonhento” para eles estava ligado aos animais que independente de ter veneno ou não, os levavam a ter medo ou nojo.

Na próxima aula, fiz a leitura de um texto onde definia animal venenoso e peçonhento, peçonha e exemplos. Eles ficaram surpresos em saber que taturanas, vespas, formigas e abelhas eram peçonhentos e entenderam porquê são chamados de peçonhentos, pois peçonha é o veneno. Pedi que voltassem ao desenho e na lista de animais supostamente peçonhentos. Disse a eles: agora vocês vão circular no desenho e na lista somente os animais peçonhentos. Construíram então o conceito correto. Foram avaliados através da fala e do registro. Nesta atividade, nossa aluna com deficiência, fez o seu desenho e registrou o nome de cada um de acordo com a sua escrita trêmula e sem sentido. Após terminar sua atividade, pedi a ela que fosse me decifrando oralmente os nomes dos animais de seu desenho. Anotei cada animal e pedi que me mostrasse os peçonhentos. Ela me indicou a cobra. Apesar de suas grandes dificuldades, no momento da atividade ela assimilou o conceito. Foi avaliada oralmente.

 

Avaliação

Os alunos possuíam uma visão negativa e distorcida sobre cobras e escorpiões vindo de um senso comum fora da realidade, longe da prevenção de acidentes, com conceitos errôneos e muitos mitos.

Na aula que lemos as lendas sobre cobras, foi nítido o distorcer dos mitos, pois eles riam muito e refletiam. Os textos já faziam esses movimentos.

Na construção do conceito de animal peçonhento, ficou claro para eles o que é peçonhento e o que é venenoso.

Ao longo das etapas, observei através das falas a desconstrução desses mitos e a construção correta dos conceitos. Após as pesquisas e atividades, eles se apropriavam dos termos e conceitos corretos.

Organizaram dados através das pesquisas em várias fontes e foram registrando, construindo o hábito e o gosto de pesquisar. Analisei constantemente as atividades, suas colocações, observações e falas de cada um e os avanços.

Uns se saiam melhor na escrita, outros se expressavam melhor na fala, outros se expressavam melhor na observação. Se algum aluno não assimilava, eu retomava com o próprio aluno. Alguns momentos foram necessários para rediscutir o assunto com a sala reforçando os conceitos, até que vinha a certeza que eles realmente se apropriaram do conhecimento científico.

Durante a análise de lugares propícios para a reprodução de escorpiões, os alunos foram identificando ambientes parecidos em seus bairros ou até em suas casas. Perceberam de onde vinham tantos escorpiões.

No dia seguinte, alguns alunos comentaram que pediram aos pais para retirar as telhas e tijolos dos quintais e percebi que ficaram mais atentos quando andavam nas ruas, observando lugares propícios, pois eles comentavam na sala de aula.

Através da pesquisa, do texto e dos vídeos sobre Vital Brazil, perceberam como as descobertas estão relacionadas aos fatos históricos e necessidades de cada época e entenderam como acontece o “fazer científico”.

Reconheceram a grande importância das pesquisas de Vital Brazil, sua relação com o Instituto Butantan, com os peçonhentos e a importância desta Instituição para a humanidade.

 

Autoavaliação

Neste projeto, tive a oportunidade de pesquisar muito, principalmente junto aos alunos, mediando situações de construção de conhecimento, acompanhando, intervindo nas aprendizagens, colaborando para a cultura científica dos alunos.

Tracei a minha rota considerando o tempo, o tema, o conteúdo, a sua necessidade, o material, a sequência didática melhor possível dentro do que eu achei, adaptada à realidade dos alunos, partindo de seu conhecimento prévio, curiosidade e interesse, não deixando os conceitos e conteúdos de lado.

Dentro dessa rota precisei fazer alguns ajustes, retirando algumas coisas e acrescentando outras de acordo com o processo avaliativo e interesse deles.

No inicio, pensei somente nos escorpiões, porém surgiram as cobras e as suas histórias que eu não poderia deixar passar a oportunidade.

Trabalhei cobras e escorpiões em um único projeto, mesmo porquê tinha momentos que eles eram únicos e outros eles eram juntos.

Assim, o projeto funcionou como um meio para o aprendizado e não como um fim. 

Trabalhei o conteúdo não somente para cumprir um currículo e sim para uma formação de estudantes que construam cultura e competência científica voltada para a observação, reflexão e desenvolvendo o aprender falar sobre o que observa, entendendo o que está acontecendo ao seu redor, entendendo as notícias, construindo um olhar crítico sobre essas ações que eles vivenciam e com aspecto da ciência em que eles estão em contato. 

Analisando os objetivos, o percurso e a avaliação contínua, considero que este projeto contribuiu para as finalidades acima citadas. Para isso, precisei buscar muito conhecimento, o que não é nada ruim. 

Os alunos, foram peças fundamentais em minha própria formação, me mostrando o caminho e o rumo no qual teria que seguir, de acordo com as suas necessidades de aprendizagem.

Portanto, considero que houve aprendizado em ambas as partes (professor e alunos).

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