O caso da Escola de Graduação em Educação de Harvard – Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos

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Introdução

Eileen Berger, que era Diretora Assistente de Assuntos Estudantis e Gestora de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência, estava sentada em seu escritório, analisando informações sobre um dos seus alunos preferidos e que precisara enfrentar muitos desafios: Martin1,  estudante brilhante, atencioso e com tetraplegia, da Faculdade de Harvard. Ela pensou no quão longe ele já tinha chegado desde que fora admitido na Escola de Graduação em Educação de Harvard (HGSE2).  A formatura de Martin seria em maio, e o diploma não seria entregue pela Faculdade de Harvard, mas pela Escola de Educação, pois ela tinha se tornado o seu verdadeiro lar acadêmico. Eileen adorava voltar ao passado analisando a documentação do período em que ele passou na HGSE, incluindo seu brilhante histórico acadêmico, sua liderança no grupo Educação Superior Internacional e Deficiência, seu trabalho como professor-assistente etc. 

Eileen estava se lembrando do quanto Martin havia prosperado na comunidade da HGSE quando ouviu alguém batendo à porta. Ela consultou sua agenda e viu que, apesar de estar ocupada durante toda a tarde em reuniões com gestores, professores, alunos e fornecedores externos, tivera meia hora livre. “Entre!”, disse, e então uma estudante que ela nunca havia visto antes entrou na sala.

A Escola de Graduação em Educação de Harvard

A Escola de Graduação em Educação de Harvard (HGSE) é uma das dez escolas profissionais e de graduação de Harvard. Em 2014, a HGSE ofertava treze programas de mestrado (Ed.M. 3), três programas de doutorado (Ed.D., Ed.L.D. e Ph.D. 4 ) e diversos cursos de curta duração voltados ao desenvolvimento profissional na área de educação. Fundada em 1920, é uma das melhores faculdades de educação dos Estados Unidos e exige não apenas um histórico acadêmico e/ou desempenho profissional excelente dos seus estudantes, mas também a capacidade de evoluir em um ambiente acadêmico rigoroso e sob alta pressão. Naquele ano, os mais de 900 alunos (sem considerar aqueles em programas de desenvolvimento profissional) incluíam cerca de 15% de estrangeiros, 75% do sexo feminino e 10–15% com deficiência. Tomando como base o ano citado, nos últimos 12 anos, dentre mais de 1.200 estudantes com deficiência, menos de cinco não haviam conseguido concluir a graduação na HGSE5.  A maioria dos educandos estudava em período integral e 60% deles estavam cursando um programa de mestrado de um ano de duração abordando temas como Gestão e Política Educacional, do curso de Artes em Educação6.

O campus da Escola de Graduação em Educação de Harvard está localizado no coração de Cambridge, na Harvard Square, em Massachusetts, e fica próximo à histórica Faculdade de Harvard, campus de graduação conhecido internacionalmente. A HGSE é formada por vários prédios, sendo que três deles são usados para aulas pelos alunos e professores. São prédios de vários andares, com acesso por meio de rampas e elevadores, em conformidade com a Lei dos Americanos com Deficiência7.

Lei dos Americanos com Deficiência e Ensino Superior

A Lei dos Americanos com Deficiência (ADA8 ), aprovada em 1990, “proíbe a discriminação e garante que todas as pessoas com deficiência tenham as mesmas oportunidades de participar da sociedade americana que os demais, incluindo as mesmas oportunidades de emprego, de adquirir bens e serviços e de participar dos programas e benefícios do governo local e estadual”. De maneira semelhante à Lei dos Direitos Civis de 1964, que proibia a discriminação com base em raça, religião, sexo e outras características, e que efetivamente encerrou a política de segregação por raças nas escolas públicas americanas, a ADA proporciona proteção igual sob a lei para pessoas com deficiência física e/ou intelectual. As deficiências protegidas pela lei não são especificadas. Em vez disso, uma deficiência é definida, em geral, como:

  1. deficiência física ou intelectual que limita significativamente uma ou mais atividades importantes realizadas pelo indivíduo;
  2. um registro de tal deficiência ou
  3. ser considerado como pessoa com tal deficiência.

 

As Alterações da ADA (ADAAA), atualizações da lei feitas em 2008, ampliaram a definição de deficiência expandindo o escopo das condições que podem ser consideradas como “substancialmente limitantes às atividades do dia a dia”, incluindo doenças como câncer, diabetes, epilepsia, etc. A ampla definição jurídica permitiu que pessoas que não sofram de uma doença ou condição permanente, mas que possam ter uma “deficiência” temporariamente, se beneficiem dos requisitos e das disposições da ADAAA. Graças a essas atualizações, os Estados Unidos passaram a ter uma definição jurídica mais ampla sobre deficiência do que muitos outros países.

Instituições privadas de ensino superior, como a Universidade de Harvard, devem cumprir a lei descrita sob o Título III (para empresas e fornecedores de serviços sem fins lucrativos), bem como a Seção 504 do Ato de Reabilitação de 1973 (para instituições que recebem financiamento federal), precursoras da ADA. Os requisitos mais importantes da lei aplicáveis a instituições privadas de educação superior incluem:

  1. Acessibilidade ao ambiente físico, incluindo diretrizes sobre o tamanho de portas e corredores, assim como a disponibilidade de rampas, elevadores e banheiros que permitam o acesso de cadeiras de rodas, por exemplo.
  2. Serviços auxiliares e assistência, como aparelhos de acessibilidade para pessoas com deficiências visuais ou auditivas, para que eles possam participar por completo do dia a dia, a menos que isso signifique uma “sobrecarga”.
  3. Não discriminação, que requer que as instituições não discriminem pessoas com deficiência, em termos de participação ou vínculo empregatício9.

 

Apesar de muitas instituições de educação superior realizarem um ótimo trabalho ao garantir acesso e fornecer serviços auxiliares e assistência, além de terem boas intenções em relação à não discriminação, geralmente há algumas barreiras sutis para a admissão ou o processo acadêmico, que podem ser negligenciados.

Tornando a HGSE inclusiva

A cada aluno com deficiência matriculado na HGSE, Eileen Berger, então Diretora Assistente de Assuntos Estudantis e Gestora de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência, sempre esperou que seu primeiro contato fosse com o Escritório de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência (ADS)10:

“Tento me conectar aos estudantes o mais rápido possível, até mesmo durante as férias de verão, antes de eles se matricularem oficialmente. Se um aluno com deficiência se apresentar durante a recepção dos calouros, tento acompanhá-lo a partir daquele momento, não espero ele chegar ao campus. Isto é particularmente útil e necessário quando ele precisa de serviços alternativos, como textos eletrônicos e legendas e quando precisa do apoio dos serviços de saúde, porque podemos resolver tudo antes da correria do começo do semestre.” 

Lembrou Nick Hoekstra, que concluiu o mestrado em Educação em 2014:

“Entrei em contato com a Eileen assim que fui aceito, em abril de 2013. Tive más experiências em meu curso de graduação, pois não havia soluções implementadas em termos de materiais acadêmicos para estudantes com deficiência visual, como eu.” 

Hoekstra disse que só recebia versões digitais ou em braile dos livros várias semanas depois de o semestre ter começado, quando ele já estava muito atrasado em seus estudos. Apesar de as coisas estarem melhores do que quando ele se matriculou na HGSE, ainda havia espaço para melhorias. Os materiais das aulas eram enviados por e-mail para ele, mas geralmente não tinham identificação, então era difícil manter tudo organizado. “Sugeri a utilização de ferramentas como o Dropbox11  para tornar as coisas mais fáceis não apenas para mim, mas também para os professores”, disse Hoekstra. Ao contrário do que havia acontecido durante o seu curso de graduação, Hoekstra ficou impressionado quando a HGSE aceitou suas sugestões, e o escritório da ADS passou a utilizar esse sistema.

“Quase não fui aceita em Harvard”, disse Grant-Rose. Amanda Grant-Rose (mestrado em Educação, 2010), que tem dislexia e estava morando e trabalhando na Tanzânia quando decidiu retomar os estudos e fazer um mestrado. “O centro de avaliação na Tanzânia não me ofereceu condições adequadas quando fiz o GRE”12.  Ela decidiu falar com o escritório de admissões da HGSE sobre o seu problema e sobre o impacto dele em suas avaliações, mas tinha a impressão de que o escritório faria o que fosse legalmente necessário fazer, “e nada além disso”. Para sorte de Grant-Rose, o comitê de admissões da HGSE frequentemente ignorava pontuações baixas em testes ou históricos escolares não muito regulares caso existissem circunstâncias atenuantes, e se o restante do processo de admissão do estudante parecesse promissor.

“De vez em quando, o escritório de admissões me telefona pedindo para que eu assuma um processo de admissão ou entreviste um possível aluno”13,  relatou Tom Hehir, professor de Práticas em Diferenças de Aprendizado na Escola de Graduação em Educação de Harvard.

Às vezes, estudantes que poderiam ser fortes candidatos têm algumas notas baixas no histórico. Se o escritório de admissões achar que isso pode ter acontecido porque o educando não teve condições apropriadas para pessoas com deficiência, ou por outra razão, ele pedirá para que eu ou outro membro da faculdade faça uma segunda análise. Ao considerar alunos que, devido à sua deficiência, não possuem o perfil típico, a Escola de Graduação em Educação de Harvard garante que a instituição cumpre a lei, além de admitir os possíveis melhores educandos, com mais potencial de exercer um efeito positivo no campo da educação.”

Se a HGSE não usasse essas estratégias ao considerar os processos de admissão dos estudantes, a instituição poderia perder candidatos altamente qualificados. De acordo com Berger:

“As políticas de admissão e acadêmicas foram estratégicas ao recrutarem uma diversidade de alunos com os nossos valores comunitários. Os estudantes com deficiência estão incluídos neste conceito de diversidade e eles têm sido bem-sucedidos no trabalho acadêmico e profissional na HGSE. Eles enriquecem a sala de aula e, ao mesmo tempo em que comunidade lhes dá as boas-vindas, também espera deles os mais altos padrões, da mesma forma que dos outros educandos. Os professores e gestores enfatizam que todos os que são admitidos na HGSE conquistam o seu lugar, porque o comitê de admissões tem a certeza de que eles serão bem-sucedidos e têm qualificações para prosseguir em seus programas de estudo. ”

Eileen Berger e o Escritório de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência

O Escritório de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência (ADS), parte do Escritório de Assuntos Estudantis, sempre forneceu aos alunos diversos serviços e o suporte de que muitos deles precisavam durante seus estudos na HGSE. O escritório da ADS, localizado no primeiro andar da Biblioteca Gutman, também servia como centro informal aos estudantes, com cafeteria, cadeiras confortáveis, lareiras, áreas para estudo em grupo e exposições de arte. Há uma pequena quantidade de salas privadas, mas de fácil acesso, ideal para os alunos que preferem manter discrição sobre sua deficiência. “A princípio, hesitei em visitar o escritório da ADS, porque não queria ser rotulado publicamente de ‘deficiente’. Mas, em vez de rótulos, encontrei confidencialidade, colaboração, encorajamento e recursos”, disse um mestrando que se formou em 2012.

Eileen Berger era a principal conselheira e sempre orientou os estudantes a acessarem as ajudas e os serviços que a HGSE oferecia àqueles com uma deficiência diagnosticada. Em 2014, Berger já fazia parte da comunidade da HGSE há mais de doze anos e, com a ajuda de estagiários e participantes do programa “Trabalho-Estudo” procurou ser “testemunha, companheira e conselheira” dos que chegavam ao seu escritório, recebendo-os com um “espírito acolhedor”. “Atendemos 100 ou mais estudantes por ano, com deficiências físicas ou emocionais de diferentes tipos e severidade”, disse Berger. Os educandos, gestores e professores perceberam que os desafios enfrentados pelos alunos com deficiência física eram diferentes dos desafios daqueles com deficiência emocional ou psicológica. “As pessoas têm diversos tipos de problema que não podemos ver”, disse Eileen Berger, mas esses problemas poderiam ser reais e impactar o aprendizado. Segundo Berger:

“Algumas vezes, os estudantes encaminhados para a ADS estão assustados com o início de uma doença com sintomas complicados. Eles precisam de suporte, referências médicas e colaboração próxima e direta dos professores e gestores acadêmicos durante o aprendizado para cuidarem de sua saúde e gerenciarem os frequentemente complexos sistemas médicos.”

Depois de uma conversa aprofundada e uma entrevista com os alunos sobre as suas experiências, Berger trabalhava com eles para reunir a documentação médica, quando ela não era apresentada, e desenvolver uma estrutura de papéis e responsabilidades em conjunto com professores e funcionários para garantir uma acomodação apropriada (se necessário), de acordo com expectativas razoáveis dos professores, funcionários e estudantes. Ela relatou:

“A elegibilidade para adequações é um processo e não uma comodidade. Enfatizamos a comunicação, a colaboração e a criatividade em nossos esforços para fornecer apoio total ao aluno enquanto ele aprende a criar e manter o progresso acadêmico e a se ajustar às novas circunstâncias da vida.”

Qualquer estudante com deficiência física ou psicológica/emocional visível e que precise de adequações deve ter uma documentação médica dos sintomas ou limitações funcionais mais graves. Sem os documentos médicos apropriados, ele não tem direito a determinados serviços, como legendagem de uma palestra ou tempo extra em um exame. Além disso, os educandos têm direito a essas flexibilizações apenas quando precisam enfrentar os sintomas de sua deficiência. Alunos com condição crônica, mas não constante, como convulsões, esclerose múltipla ou depressão clínica, podem ter períodos livres de sintomas e, em seguida, ter uma recaída. Caso isso aconteça, eles devem informar à sua “equipe de apoio” se precisarem de adequações.

Berger lembrou-se da história de uma aluna que tinha convulsões:

“Ela teve uma grande convulsão durante uma prova que deveria ter feito em casa. Ela precisava de alguns dias não só para se recuperar fisicamente, mas também para restabelecer o seu foco cognitivo depois de uma experiência tão traumática. Neste caso, notificamos o corpo docente sobre a situação e negociamos uma nova data para a aluna para que ela não fosse penalizada injustamente por ter entregue a prova fora do prazo devido à doença”.

Dessa maneira, o escritório da ADS enfatizou a necessidade de comunicação, expectativas claras, empatia e flexibilidade de toda a equipe de suporte.

Quando a deficiência era oficialmente documentada e apresentada ao escritório da ADS, Berger usava tanto a sua formação como educadora, fonoaudióloga, redatora de propostas e gestora, como as diretrizes oficiais para determinar exatamente que tipo de acomodação o estudante poderia solicitar. “Exagerar na oferta de adequações descumpre a ADA tanto quanto não oferecê-la”, disse Berger. De acordo com ela, felizmente, é raro que os alunos solicitem mais do que aquilo a que têm direito. Ela contou:

“Os estudantes da HGSE resistem muito à oferta de suporte, mesmo quando o médico, o conselheiro e as diretrizes dizem ser necessário. Eles preferem fazer tudo por conta própria por serem muito competitivos e exigirem muito de si mesmos. O nosso campus está cheio de alunos motivados e perfeccionistas. Eles não teriam chegado tão longe se não tivessem essa atitude”. 

Entretanto, apesar de existirem diretrizes claras sobre o que pode ser oferecido a partir da documentação médica, nenhum estudante foi rejeitado pela ADS, mesmo que não apresentasse nenhuma deficiência diagnosticada ou não tivesse as características necessárias para receber um laudo, considerando-se as diretrizes clínicas vigentes. Os alunos podem enfrentar dificuldades por diversas razões não clínicas e precisar de aconselhamento e suporte para prosseguir com seus estudos. Berger disse:

“Queremos sempre que os alunos saiam do escritório com a sensação de terem recebido apoio para que possam prosseguir em seu caminho e se conectarem aos conselheiros e colegas.”

Os serviços oferecidos pela ADS incluem:

  • empréstimo de software ou hardware que auxilie no aprendizado, como software de conversão de texto em voz, amplificadores de tela, etc.;
  • conversão de material impresso em texto eletrônico;
  • ajustes da política e dos procedimentos acadêmicos, como autorização para cursar uma carga menor de disciplinas;
  • transporte no campus, incluindo assistência com cadeira de rodas e triciclo elétrico para pessoas com deficiência;
  • treinamento organizacional e em redação;
  • acomodação acessível;
  • planejamento de apoio médico e referências clínicas;
  • suporte personalizado.

 

Em termos de tecnologia, a ADS fornece:

  • conversão de textos eletrônicos para livros, materiais de leitura14  e links para pesquisas online;
  • conversão de arquivos em PowerPoint e outros materiais utilizados em salas de aula;
  • legendagem de vídeos e filmes dos cursos;
  • serviços de anotação;
  • serviços de transcrição (para aulas, reuniões de curso, etc.);
  • instalação e treinamento de software e hardware.

 

Conforme posto pela Seção 504 do Ato de Reabilitação de 1973, os estudantes são 100% responsáveis pelos custos de quaisquer ajudas (como próteses auditivas) e serviços pessoais (como cuidadores) de sua necessidade. No entanto, a HGSE oferece serviços auxiliares e assistência, incluindo legendagem, serviço de transporte e assistência a pessoas com mobilidade reduzida15.  Na prática, a escola pode emprestar gratuitamente qualquer hardware que um educando necessite, incluindo tablets equipados com serviços de transcrição em tempo real para estudantes com deficiência auditiva — que ficam livres para usar os seus computadores pessoais para fazer anotações, ver slides em PowerPoint, etc. De maneira semelhante, se alguém precisar de um software, como software de conversão de texto em voz, ele poderá pegá-lo emprestado enquanto estiver matriculado na HGSE. Para ajudar a cobrir outros custos que possam ser mais elevados para alunos com deficiência — como custos com mantimentos (para pessoas com restrições alimentares), medicamentos e suplementos —, o escritório da ADS, em conjunto com o Escritório de Ajuda Financeira, busca ajustar os valores dos empréstimos estudantis.

A ADS emprega dois estagiários e quatro estudantes do programa “Trabalho-Estudo”, que dedicam, em conjunto, entre 40 e 50 horas por semana na legendagem de aulas e conversão de materiais do curso de um formato para outro (como conversão de tabelas e gráficos para textos que podem ser “lidos” por um software de conversão de texto em voz), etc. Essa equipe é o principal ponto de contato no que se refere a garantir que os alunos recebam os materiais de que precisem no momento adequado. Como disse Hoekstra, “Quando alguém se matricula na HGSE para um programa de mestrado de um ano, não há tempo para estabelecer uma curva de aprendizado, nem para o estudante nem para a equipe da ADS”. Em outras instituições, esse trabalho é frequentemente terceirizado, mas, na HGSE, sempre que possível, são os estagiários da ADS e os integrantes do “Trabalho-Estudo” do laboratório de tecnologia local que convertem o conteúdo dos materiais de ensino para outro formato. A vantagem de ter as mesmas pessoas (os estagiários, que trabalham por períodos anuais) e também os próprios educandos da HGSE (participantes do “Trabalho-Estudo” cuja maioria cursa programas de mestrado) realizando esse trabalho, é que eles já possuem conhecimentos específicos de educação para fazer interpretações subjetivas significativas durante a conversão dos materiais do curso. Por exemplo, alguém não familiarizado com a área de educação e que esteja convertendo gráficos de uma aula de estatística em texto pode não notar que o gráfico resultante está em uma escala incorreta. Omissões sutis ou interpretações incorretas de dados importantes e específicos da área de educação podem colocar os alunos com deficiência em desvantagem em relação aos seus colegas de classe. Berger e sua equipe regularmente verificavam a precisão das imagens em PowerPoint, das fórmulas e dos gráficos convertidos com o corpo docente e com os professores-assistentes16,  além de adaptarem o formato dos dados convertidos às necessidades e preferências individuais.

Serviços e estratégias

Embora serviços, assistência e adequações sejam os itens que a maioria das pessoas e organizações tradicionalmente oferecem para proporcionar igualdade de acesso às oportunidades de aprendizado para os alunos com deficiência, na HGSE, eles sempre foram considerados vitais, mas secundários, em relação a ajudá-los a desenvolver estratégias para serem bem-sucedidos durante os estudos e no futuro. Disse Fernando Reimers, professor de Prática em Educação Internacional e então diretor do programa de mestrado em Política de Educação Internacional:

“Não queremos criar um ambiente artificial que incapacita as pessoas a sobreviverem no mundo real, que pode ser um lugar difícil.”

Além disso, de acordo com Nick Hoekstra, adquirir estratégias para ajudar a si mesmo foi mais valioso do que qualquer serviço oferecido:

“Você perde muito quando não sabe o que funciona para você.” 

O escritório da ADS sempre tentou ajudar os estudantes a entenderem o que funciona para eles para que possam defender a si próprios. Em vez de o escritório simplesmente se concentrar no fornecimento de recursos aos alunos, o constante objetivo de Berger era fazer com que eles aprendessem a ajudar a si mesmos, não apenas em termos acadêmicos, mas também em outras áreas da vida. Ela disse:

“Todos os educandos têm mais do que apenas um histórico escolar; precisamos estar atentos ao seu histórico emocional, social e de saúde, assim como ao seu histórico educacional/acadêmico. Isso é considerado um objetivo importante, especialmente porque a HGSE é uma escola profissional.”

Todos os alunos da Escola de Graduação em Educação estavam sendo treinados para trabalhar na área de educação. Alguns se tornariam professores (ou retomariam as atividades de ensino, se já o eram), outros trabalhariam para organizações sem fins lucrativos relacionadas ao tema, e alguns seriam pesquisadores e acadêmicos daquele setor. Eles precisavam não apenas de treinamento acadêmico rigoroso em áreas relacionadas à educação e de metodologias de pesquisa mas também de oportunidades para desenvolver habilidades profissionais, como networking, comunicação e habilidades interpessoais. A escola ajudou a promover o crescimento nessas áreas por meio de oportunidades de estágio, liderança em organizações estudantis, eventos para contatos profissionais, etc. Os educandos com deficiência precisavam desses recursos e, considerando-se que apenas aproximadamente 30% das pessoas com deficiência nos Estados Unidos estavam empregadas (dentre as pessoas sem deficiência, esse número subia para 70% 17), desenvolver capacidades e estratégias especiais era uma necessidade urgente. Disse Berger:

“Recebemos estudantes que estão se esforçando — eles podem estar tendo problemas para acompanhar os trabalhos ou dificuldades para assistir às aulas — e podem não saber como os outros os veem. Eles podem não entender completamente o que a cultura e as normas da comunidade esperam deles.”

De acordo com ela, ajudá-los a lidar com isso às vezes significa:

“Confrontar os alunos com conversas difíceis sobre as consequências de suas ações (ou, mais frequentemente, sua falta de ação) quando eles decepcionam os professores e/ou seus colegas de classe e, mais frequentemente, quando se decepcionam.”

Por exemplo, quando se falta a muitas aulas sem avisar, devido a uma doença crônica, o professor pode pensar que o estudante é preguiçoso ou não está levando seus estudos a sério. De maneira semelhante, se um aluno com problemas de mobilidade não consegue se encontrar com seus colegas em um final de semana para uma reunião de trabalho em grupo por causa de um problema com o ônibus e não os informa, poderão pensar que ele não é confiável.

Muitos estudantes nessa situação se sentem desconfortáveis ou constrangidos ao contar aos professores e colegas de classe sobre seus problemas pessoais. Os alunos com deficiência, especialmente aqueles cujas identidades pessoais estão vinculadas ao seu sucesso acadêmico (o que inclui a maioria na Escola de Graduação em Educação de Harvard), temem que seus colegas de classe e professores pensem que eles estão tentando “burlar” o sistema. Especialmente quando se tem uma deficiência não muito aparente, como depressão clínica, ansiedade ou dificuldade de aprendizagem (como dislexia), é possível haver cinismo e ceticismo de outros educandos, gestores e até mesmo de professores. Disse o professor Hehir:

“Os estudantes com deficiências não físicas frequentemente não querem falar sobre seu problema nem mesmo durante o processo de admissão. A discriminação contra pessoas com deficiência existe. Questiona-se até mesmo se é apropriado que uma pessoa com dislexia se torne professor.”

Além disso, muitos alunos com essas deficiências “invisíveis”, e também aqueles com desafios mais evidentes, foram capazes de lidar com a sua condição médica, ou compensá-la de forma adequada, até aquele momento. Os estudantes admitidos na HGSE têm históricos de graduação exemplares e muitos deles realizam trabalhos impressionantes desde a faculdade. Entretanto, sob a pressão rigorosa da HGSE, seus sintomas pioram e eles se veem rapidamente ficando para trás. Por sempre terem sido bem-sucedidos no passado, apesar da deficiência, eles podem não ter desenvolvido estratégias para revelar sua condição aos outros de uma forma profissional e produtiva. No entanto, não se comunicar abertamente com colegas e professores pode prejudicar a sua situação acadêmica e social, bem como estabelecer um mau precedente que pode causar danos a suas carreiras futuras.

A fim de evitar essa situação, Berger e o escritório da ADS orientaram os estudantes com deficiência a criarem uma equipe de apoio, que normalmente incluía um orientador de alunos, professores, a própria Berger e, em alguns casos, um gestor do escritório de Assuntos Acadêmicos, um bibliotecário e um membro da equipe do centro de redação. Ela afirmou:

“Nós, do escritório da ADS, nos certificamos de que o aluno é o centro da questão e, juntos, desenvolvemos estratégias para reparar relações que foram prejudicadas, além de procurarmos por um curso de ação positivo e estratégico.” 

Depois de o estudante identificar as pessoas de sua equipe de apoio, ele era responsável, com o suporte de Berger, por entrar em contato com todos e convidá-los para uma reunião a fim de discutir a aprendizagem e os desafios esperados. Além disso, esperava-se que ele definisse a agenda e conduzisse a conversa. Nesses encontros, o aluno revelava aquilo em que se sentia confortável em compartilhar, explicava como a deficiência podia afetar seu desempenho escolar e trabalhava em conjunto com a equipe visando desenvolver um processo para lidar com a situação. Para muitos, isso significava estabelecer linhas abertas de comunicação antes de ser prejudicado nos estudos, e não depois de o problema já existir. Dessa forma, o educando aprendia várias estratégias importantes que poderiam ser levadas para sua vida profissional, como falar sobre sua deficiência, formar uma equipe de apoio e defender a si próprio. Essa ênfase em desenvolvimento de estratégias não foi estimulada apenas pela administração, por meio da ADS, mas também pela faculdade.

Faculdade e ensino

Como mencionado anteriormente, Tom Hehir era professor de Práticas em Diferenças de Aprendizado na HGSE. Sua carreira profissional sempre teve como foco o desenvolvimento de melhores práticas de ensino para estudantes com deficiência, e seu trabalho se concentrou, em particular, nas dificuldades de aprendizagem. Além de trabalhar na faculdade da HGSE, ele tinha vasta experiência na defesa dessas pessoas em todo o país. Trabalhou por seis anos como diretor do Escritório de Programas Especiais Educacionais do Departamento de Educação dos Estados Unidos, onde foi fundamental na implementação do Ato Sobre a Educação de Indivíduos com Deficiência (Individuals with Disabilities Education Act, IDEA18).  Com base nessa experiência, o professor Hehir ministrou cursos sobre o papel do governo federal nas escolas, bem como um curso sobre implementação da educação inclusiva.

Como líder do corpo docente interessado em questões de inclusão e mentor da faculdade para o escritório da ADS e para Eileen Berger, o professor Hehir teve o preparo necessário para fornecer insights sobre estratégias para ajudar estudantes com desafios variados a ter um bom processo de aprendizado. Ele disse que, em suas aulas, sempre tentou ter em mente as diversas necessidades que eles pusessem ter e os desafios que eram capazes de enfrentar. Por exemplo, ele nunca pediu a um aluno para ler em voz alta em sala de aula, a menos que ele se oferecesse, pois seria possível que o escolhido fosse disléxico e, portanto, tivesse dificuldades para fazê-lo na frente de um grupo. No caso de um orientando que sofresse de ansiedade, o professor começava todas as reuniões perguntando sobre o seu nível de estresse. Dessa maneira, ele reconhecia ao mesmo tempo seu desafio emocional e o ajudava a se acostumar com o autorrelato.

Entre 20 e 30% dos educandos de seu curso sobre inclusão tinham algum tipo de deficiência19.  No entanto, Hehir argumentou que, apesar de apenas essa fração dos estudantes precisarem de algum tipo de serviço da escola para prosseguir em seus estudos com sucesso, todos poderiam se beneficiar do desenvolvimento de melhores estratégias de aprendizagem. Ele sugeriu, por exemplo, que tentassem acessar os materiais do curso de uma maneira diferente, como, por exemplo, utilizando os recursos de conversão de texto em voz incorporados à maioria dos leitores de PDF 20.  Mesmo que um aluno julgasse importante ler os textos da maneira tradicional, era possível que ele achasse mais eficiente ou mais eficaz ouvi-los. Outro membro do corpo docente, David Rose, professor de Educação do programa de Tecnologia, Inovação e Educação, afirmou: “muitos estudantes não estão aprendendo da melhor maneira, mesmo que não tenham dificuldades”. Muitos pós-graduandos tinham consciência da variabilidade entre os seus próprios futuros alunos — que seriam rotulados como disléxicos, que teriam transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, que estariam no espectro do autismo, que estariam aprendendo a língua inglesa, que teriam ansiedade ou depressão —, mas poderiam não estar totalmente conscientes de melhores opções e estratégias de aprendizagem para si. Ao testar formas diferentes, eles poderiam se tornar mais solidários com aqueles que aprendem de maneiras menos comuns e também encontrar uma nova maneira que funcionasse melhor para eles.

De maneira semelhante, o professor Rose promoveu o uso dos princípios do Desenho Universal para o Aprendizado 21  (DUA) em sala de aula, no tópico DUA: Conhecendo os desafios das diferenças individuais. Ele admitiu que, de muitas maneiras, ainda era “principalmente um conferencista que indica livros” e era “muito tradicional em seu trabalho”, apesar do dinamismo do tema. Rose reconheceu que podia “se safar” com aquilo, pois a HGSE era muito seletiva.

Apesar da maneira conservadora com que sempre ministrou seu curso, ele reconheceu ter feito algumas mudanças importantes ao longo dos últimos anos, que o tornaram mais acessível. O professor Rose foi um dos primeiros a gravar o seu curso em vídeo e legendá-lo para que os estudantes pudessem assistir às aulas novamente, se necessário. Ele também implantou um sistema em que cinco voluntários se candidatavam a fazer anotações em sala de aula, que eram disponibilizadas aos demais. Como as anotações da aula eram publicadas no site do curso todas as semanas, os outros alunos, assim como o professor e seus assistentes, podiam verificar se aqueles que as fizeram compreenderam os pontos mais importantes. Todos poderiam encontrar anotações sobre os pontos que perderam ou não compreenderam em aula, e a equipe de professores pôde avaliar o que aprenderam. Outro fato interessante foi que, como mais de uma pessoa publicou suas anotações, os educandos e os professores puderam observar como as informações ressoaram de maneiras diversas para pessoas diferentes. Disse Rose que ter cinco perspectivas “dissipa a ideia de que as aulas têm apenas um sentido.”

Além disso, as anotações das primeiras semanas de aula foram geralmente resumos por escrito, mas, a partir da metade do semestre, os estudantes já usaram desenhos e outros formatos. De acordo com os princípios do DUA, apresentar informações usando diferentes meios de comunicação é importante. No entanto, os alunos com deficiência podem enfrentar muitos outros desafios. Por exemplo, conforme o professor Rose utilizava mais conteúdo do tipo “rich media” em suas aulas (em vez de depender apenas de livros didáticos e outros materiais baseados em texto), aqueles com deficiência visual acabavam tendo mais dificuldades, pois animações, desenhos e outras apresentações visuais eram mais difíceis de ser convertidas para um formato acessível do que textos. Ainda assim, mesmo que a academia tendesse a valorizar apenas determinados tipos de trabalho, como relatórios e testes, o professor Rose se esforçou para mostrar todos os pontos fortes dos alunos. Conforme disse, fazer isso “dilui a noção de que somos iguais e que estamos percorrendo as mesmas trajetórias lineares”, disse. O trajeto dos estudantes com deficiência poderia parecer um pouco diferente do de um educando típico, mas os resultados do processo de aprendizagem, os objetivos e o padrão acadêmico elevado não mudaram.

Quando um estudante com deficiência comprovada enfrenta ou antecipa um desafio em seus estudos, compete a ele mesmo entrar em contato com sua equipe de apoio e explicar sua dificuldade. Em conjunto, a equipe discutirá os objetivos da avaliação final (por exemplo, demonstração do conhecimento do conteúdo do curso), a atividade final que avaliará se os objetivos foram cumpridos (por exemplo, apresentação final) e o cronograma para que os objetivos sejam atingidos (data da avaliação final). Embora o objetivo do aprendizado não possa ser comprometido, pode ser o caso — com a aprovação da faculdade e de acordo com as orientações recomendadas para pessoas com tal deficiência — de uma ou mais variáveis precisarem ser alteradas. Por exemplo, para determinados alunos, alterar o ritmo de estudos (como modificar um prazo) pode ser o suficiente para permitir que completem a tarefa corretamente e, portanto, cumpram a meta de aprendizagem. Para outros, fazer uma apresentação em sala de aula na frente de uma audiência pode não ser viável devido a distúrbios de fala ou transtornos de ansiedade, mas fazer uma apresentação em privado para os professores pode ser o suficiente para cumprir os objetivos. Em qualquer caso, mesmo que os meios para cumprir a meta de aprendizagem sejam alterados, os padrões acadêmicos não podem ser comprometidos e, como com todos os demais educandos, o trabalho do estudante com deficiência é avaliado pelos seus próprios méritos.

Essas decisões são tomadas caso a caso, e a abordagem global da administração da HGSE, em termos de apoio a estudantes com deficiência, é realizada por meio de decisões individuais e centradas no aluno. Não há treinamento para o corpo docente sobre como trabalhar com pessoas com deficiência. Em vez disso, o escritório da ADS “constrói relações” com os professores ao longo do tempo e considera que a orientação sobre os diferentes tipos de educando é um processo de desenvolvimento. No entanto, como Nick Hoekstra observou, nem todos os membros do corpo docente são tão hábeis em fazer mudanças para responder às necessidades dos estudantes:

“Meu professor de microeconomia realmente se destacou ao descrever tabelas e gráficos que eu não podia ver. Outros professores não foram tão bons nisso, mesmo tendo conversado com eles no início do semestre para que soubessem o que seria mais útil para mim.”

O professor Fernando Reimers admitiu que, em termos da compreensão do corpo docente da HGSE sobre as diferentes necessidades dos estudantes, “construir as competências dos professores ainda é necessário”. Ele também observou que é importante para a HGSE garantir ensino e flexibilizações adequadas aos alunos com deficiência, mas, como uma escola de educação, também tem o dever de defender e educar sobre a importância da inclusão. James Ryan, reitor da Escola de Graduação em Educação de Harvard e professor de Educação, afirmou:

“Os alunos são diferentes e não devemos pensar em categorias binárias (com ou sem deficiência) aqui na HGSE ou em qualquer outra escola. Devemos pensar em como podemos atingir a todos.”

Como então diretor de um programa de mestrado que atraía muitos estudantes com interesse e experiência em outros países, o professor Reimers reconheceu que:

“Há uma grande oportunidade, já que muito progresso foi feito nos Estados Unidos, mas ainda há muito trabalho a ser feito em muitos países para melhorar as condições de aprendizado e o acesso à educação para crianças com deficiência.”

A escola tem como objetivo atuar em prol dos estudantes com deficiência por meio de sua pesquisa, que gera novos conhecimentos sobre o que funciona para diferentes tipos de aluno, ensino, cursos e programas extracurriculares.

Atividades curriculares e extracurriculares

Além de cursos e institutos de desenvolvimento profissional, a Escola de Graduação em Educação de Harvard promove a educação inclusiva por meio do Fórum Askwith, um fórum público sobre temas de educação. Por exemplo, em março de 2014, Temple Grandin, aclamada ativista em autismo e especialista em ciência animal, deu uma palestra intitulada “Todos os tipos de mente ajudam o mundo”.

Além das aulas que fazem parte do currículo, há uma série de oportunidades adicionais para que os alunos se envolvam nas questões de inclusão, bem como oportunidades para que os estudantes com deficiência ocupem posições de liderança extracurriculares. Todos são convidados a participar de todas as associações e organizações lideradas por eles mesmos, incluindo o HIVE (grupo para assuntos relacionados à educação, empreendedorismo e inovação), a Iniciativa Educacional Africana, a Associação Projetos em Educação, o clube de dança Hip Hop, etc. No entanto, no dia a dia, algumas organizações estão mais conscientes sobre as questões de prática inclusiva do que outras. Uma organização estudantil, por exemplo, planejou um passeio por pubs (“pub crawl22 ), mas não escolheu locais acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida. Como disse um participante, situações como essa tendem a acontecer devido à falta de conhecimento e ao descuido, e não devido a um desejo de exclusão. No entanto, existem esforços para combater esse tipo de imprudência e falta de empatia não deliberada entre o corpo discente.

No início do ano letivo, Nick Hoekstra, aluno de mestrado da HGSE, organizou uma série de eventos chamada “Jantando no Escuro” (“Dining in the Dark”) para ajudar seus colegas e outros membros da comunidade a entender, pelo menos um pouco, os desafios de uma pessoa com deficiência visual. Os participantes do evento tiveram seus olhos vendados enquanto faziam sua refeição. Com isso, os participantes passaram pela experiência de não saber o que estavam comendo ou bebendo e pela dificuldade para usar talheres e utensílios sem vê-los, além de terem o prazer de saborear a comida sem as distrações causadas pela sua aparência. O “Jantando no Escuro” passou a ser um evento regular para que os estudantes de mestrado possam abrir os seus olhos para a experiência de ter deficiência visual.

Essas refeições tiveram seu preparo pela equipe do restaurante que, em conjunto com a equipe de operações, foram além das suas responsabilidades para garantir a segurança e o conforto dos alunos com necessidades específicas. Entretanto, isso foi feito de uma maneira não notada pelos demais estudantes. Disse Berger:

“A equipe do restaurante e a equipe de operações realizaram um trabalho fantástico ao fazer as pessoas se sentirem bem-vindas, sem fazer disso um problema!”

Essa acomodação “nos bastidores” das necessidades físicas e nutricionais dos alunos torna as experiências não acadêmicas dos estudantes com deficiência muito mais agradáveis, sem fazer com que se sintam isolados ou como um fardo.

Essa ênfase no apoio aos estudantes com deficiência sempre foi a base da filosofia de Eileen Berger sobre a criação de um ambiente inclusivo:

“As pessoas geralmente pensam na deficiência como algo negativo, mas não é assim que tratamos esse assunto aqui. Mesmo quando há um sofrimento real, tentamos ser positivos e manter o entusiasmo.”

Uma iniciativa importante para colocar essa filosofia em prática é o grupo chamado Educação Superior Internacional e Deficiência (International Higher Education and Disabilities, IHED). A IHED está “na vanguarda da ampliação da sensibilização sobre a deficiência no campus da Harvard, exemplificando a importância das pessoas com deficiência na discussão crítica da diversidade do ensino superior”23.  Berger sempre procurou identificar candidatos para ocupar as posições de liderança da IHED o mais rápido possível, até mesmo entre os recém-admitidos. Além disso, “ao se unir à IHED, os alunos têm a oportunidade de exercer a liderança, contribuir para o diálogo sobre diversidade na HGSE, trabalhar em colaboração com a ADS e outras organizações e escritórios da Harvard e conhecer pessoas que lutam pela causa das pessoas com deficiência no mundo”24.  Todos os anos, por meio do seu modelo compartilhado de liderança colaborativa, os educandos e funcionários da IHED organizam uma conferência no campus sobre deficiência. Essa conferência enfatiza a narração de histórias — de uma maneira positiva, mas realista— como um meio de informação, além de proporcionar uma oportunidade para os estudantes com deficiência tomarem a iniciativa de falar sobre a sua própria condição.

Em vez de deixar a deficiência ou os desafios que enfrentam defini-los, os alunos, por meio da associação à IHED e dessa conferência, apoiam-se mutuamente na criação de uma narrativa própria que capacita, afirma e deixa-os orgulhosos. A IHED e o desenvolvimento dessas narrativas não apenas os preparam para falar sobre a sua deficiência de uma forma positiva em futuras situações acadêmicas e profissionais, mas também oferecem a eles uma chance de exercerem a liderança de uma forma autêntica e com apoio — algo que, de outra maneira, não teriam a oportunidade. Disse Berger que as oportunidades para cargos de liderança podem ser um pouco limitadas para os que têm deficiência. No entanto, a experiência e o currículo dos educandos são enriquecidos quando eles exercem papéis de líder, o que é muito útil na busca de um emprego no futuro. Com a IHED, uma organização para pessoas com deficiência e liderada por elas, abre-se um caminho claro para se adquirir experiência em liderança na HGSE.

Além de clubes e associações da HGSE, há também uma série de centros e institutos, parte ou não de Harvard, que fornecem suporte para os estudantes e que são particularmente úteis para aqueles com deficiência. No campus da HGSE localiza-se o Serviço de Redação Acadêmica (também conhecido como Centro de Redação), que oferece “apoio pessoal aos alunos em todos os níveis do processo de escrita”. Além de apoiá-los em questões relacionadas ao processo de escrita, o Escritório do Conselho Estudantil, que cobre toda a Harvard, oferece uma série de serviços e recursos para métodos de estudo, estratégias de leitura, gestão de tempo e desenvolvimento pessoal e profissional. Além disso, a ADS frequentemente encaminha os educandos — muitos deles novos na região de Cambridge, Massachusetts — para organizações externas, como o Centro Carroll para Pessoas com Deficiência Visual, ajudando-os assim a tirar o melhor proveito possível da comunidade e das organizações sem fins lucrativos que a região metropolitana de Boston tem para oferecer.

“Apoio otimista, porém realista”

A Escola de Graduação em Educação de Harvard tem feito grandes progressos na criação de um ambiente inclusivo para todos os tipos de estudantes. Ela faz isso não apenas porque é exigido por lei, mas também para ajudar a cumprir a missão da HGSE de “preparar os indivíduos inteligentes e apaixonados para se tornarem líderes transformadores na educação”25.  Há um forte sentimento de que “essa é a coisa certa a se fazer”, como afirmou James Ryan, então reitor da HGSE e professor de Educação, ele via “a inclusão como algo estreitamente ligado à diversidade, e um corpo discente diversificado aprimora as experiências de todos os alunos.” Como disse o professor Hehir, “Realmente vi a escola crescer.” Entretanto, Hehir reconheceu que “é necessário que haja maior consciência de que a deficiência é uma questão da diversidade.” No entanto, esse processo contínuo acontece aos poucos, passando pelos esforços de educandos, professores e funcionários ativistas, assim como pelo trabalho duro e dedicação do escritório da ADS. Seu lema: “Abrindo Portas. Abrindo Mentes. Mudando Atitudes”, exemplifica a abordagem da HGSE para criar um ambiente mais inclusivo para estudantes com deficiência.

*************

Àquela altura do ano, Eileen pensava que já tinha conhecido todos os alunos que precisavam da ajuda da ADS. Ela já devia saber: a cada ano, alguns estudantes que haviam escondido a deficiência dos professores, dos colegas de classe e, às vezes, até de si mesmos, vinham falar com ela no meio do período letivo ou durante as avaliações finais. Acostumados a compensar a deficiência usando trabalho árduo e perseverança, eles tinham conseguido lidar com a situação por anos sem pedir ajuda ou apoio extra. Mas, quando submetidos às exigências rigorosas e constantes dos professores da HGSE, suas estratégias falhavam e eles percebiam que ficavam para trás.

Eileen podia afirmar que aquela estudante estava passando por muitos problemas. A aluna explicou que tinha a certeza de que fracassaria na frente de toda a sala de aula e, por isso, passava oito horas por noite tentando manter-se atualizada com a leitura. No entanto, na aula, não conseguia se lembrar de nada do que tinha lido. Ela sofria de ansiedade e recebia tratamento médico por causa desse problema há muitos anos. Entretanto, não conseguiu encontrar um novo médico quando chegou a Cambridge para estudar na HGSE, e sua ansiedade estava saindo de controle. Eileen respirou fundo e pensou: “O que podemos fazer para ajudar essa aluna?”


Anexo A: Escola de Graduação em Educação de Harvard

Cursos oferecidos:

Mestrado em Educação (Ed.M.): O Mestrado em Educação (Ed.M.) é um programa intensivo, com duração de um ano, para aqueles que desejam estudar um campo particular na educação, adquirir uma formação teórica geral para a compreensão de experiências futuras e passadas ou desenvolver habilidades para uso no trabalho profissional em educação. A Escola de Graduação em Educação de Harvard oferece 13 programas, incluindo:

  • Artes em Educação
  • Gestão e Política Educacional
  • Educação Superior
  • Desenvolvimento Humano e Psicologia
  • Política de Educação Internacional
  • Linguagem e Alfabetização
  • Aprendizado e Ensino
  • Mente, Cérebro e Educação
  • Ciência da Prevenção e Prática
  • Liderança Escolar
  • Estudos Especiais
  • Formação de Professores
  • Tecnologia, Inovação e Educação

 

Doutorado em Educação (Ed.D.): O programa de Doutorado em Educação (Ed.D.) prepara líderes e acadêmicos da área de educação para o século XXI. O programa oferece uma formação rigorosa em pesquisa, proporcionando aos graduados conhecimentos e habilidades que terão amplo impacto nos mundos da política e prática. O programa Ed.D. consiste em cinco áreas de concentração:

  • Política Educacional, Liderança e Prática Institucional
  • Educação e Desenvolvimento Humano
  • Cultura, Comunidades e Educação
  • Análise de Política Quantitativa em Educação
  • Educação Superior

 

Doutorado em Liderança Educacional (Ed.L.D.): O Ed.L.D é um programa de estudos em período integral, com a duração de três anos, construído a partir de um modelo de aprendizagem em grupo. Cada grupo é composto por 25 estudantes de históricos profissionais diversos, incluindo empresários, diretores de empresas sem fins lucrativos, diretores de escolas, professores e pesquisadores de políticas, que progridem juntos durante o curso.

Doutorado Ph.D. em Educação (Ph.D.): O Doutorado Ph.D. em Educação é um programa de doutorado interdisciplinar oferecido conjuntamente pela Escola de Graduação em Educação de Harvard e pela Escola de Graduação em Artes e Ciências de Harvard. O programa Ph.D. consiste em três áreas de concentração:

  • Cultura, Instituições e Sociedade
  • Política Educacional e Avaliação de Programa
  • Desenvolvimento Humano, Aprendizado e Ensino

 

Estatísticas estudantis:

  • Número total de estudantes: 934
  • Estudantes do Doutorado em Educação: 229
  • Estudantes do Doutorado em Liderança Educacional: 79
  • Estudantes do Mestrado em Educação: 613
  • Estudantes do Doutorado Ph.D. em Educação: 13

 

Período de estudos:

  • Período integral: 92%
  • Meio período: 8%

 

Porcentagens de estudantes por gênero e etnia:

  • Sexo feminino: 656 (76%)
  • Sexo masculino: 278 (24%)
  • Negros: 292 (31%)
  • Estudantes estrangeiros: 126 (13%)

 

Estudantes com deficiência/estudantes que usaram o Escritório de Serviços para Acessibilidade e Apoio à Deficiência em 2014: 100-140 (10–15%)

Deficiências e condições dos estudantes:

  • Deficiência visual
  • Deficiência auditiva
  • Deficiência física, como paraplegia e tetraplegia
  • Distúrbios de ansiedade, como ataques do pânico e ansiedade social
  • Transtornos do humor, como depressão
  • Paralisia cerebral
  • Esclerose múltipla
  • Distúrbios do espectro do autismo
  • Deficiências de aprendizagem, como dislexia
  • Perturbações da atenção, como distúrbio de défice de atenção

Notas

Esse caso foi desenvolvido a partir de depoimentos dos envolvidos. Os casos do Projeto Diversa têm como finalidade ser utilizados por mediadores, em cursos de formação continuada, como base para discussões. Não servem, portanto, como endosso, fonte de dados primários ou de práticas pedagógicas efetivas ou inefetivas.

©Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão desta obra são livres, sob as seguintes condições: creditar a obra como de autoria de E. B. O’Donnel e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes; é vedado o uso para fins comerciais; é vedada a alteração, transformação ou criação em cima desta obra, a não ser com autorização expressa do licenciante.

1 Pseudônimo.

2 A sigla foi mantida no original em inglês [nota do tradutor].

3 Mestrado em Educação.

4 Doutorado em Educação, Doutorado em Liderança Educacional e Doutorado Ph.D. em Educação, respectivamente.

5  A proporção de alunos com deficiência que desistiam de frequentar a escola é maior. Um estudo da Associação Nacional de Educação dos Estados Unidos, por exemplo, observou que até 15% dos alunos com deficiência abandonavam os estudos antes de receber o diploma do ensino médio.

6 Consulte o Anexo A para obter mais informações sobre a Escola de Graduação em Educação de Harvard.

7 O Longfellow Hall, um dos três prédios do campus principal, foi reformado e ampliado durante o segundo semestre de 2014. Além da adição do quinto andar ao prédio histórico, foram feitas muitas melhorias, incluindo o alargamento de portas, a adição de rampas, etc., para torná-lo mais acessível aos estudantes e visitantes com mobilidade reduzida. Os estudantes foram informados sobre essas alterações por meio de e-mails enviados para todo o campus durante o processo.

8 A sigla foi mantida no original em inglês [nota do tradutor].

9  Como pessoas com deficiência não podem sofrer discriminação, isso tem implicações nos procedimentos de admissão, porque candidatos com determinados tipos de deficiência têm menos probabilidade de ser admitidos se o comitê não tiver conhecimento da sua deficiência.

10 A sigla foi mantida no original em inglês [nota do tradutor].

11 Dropbox é um serviço de compartilhamento online de arquivos (https://www.dropbox.com/.

12 O GRE (Graduate Record Examination) é um teste padrão usado para admissão em uma ampla variedade de programas de graduação (acadêmica e profissional) e programas de bolsas. Ele é aceito em instituições norte-americanas e em 88 outros países.

13 É importante observar que, nessas entrevistas, os alunos nunca serão solicitados a revelar uma deficiência. Essas discussões consistiam uma oportunidade para saber mais sobre um possível candidato à admissão.

14 Materiais de leitura são conjuntos de textos geralmente distribuídos eletronicamente em formato PDF no site de cada disciplina.

15 Esses tipos de serviço podem incluir orientação e treinamento em mobilidade para estabelecimento de trajetos (para pessoas com deficiência visual), dispositivos de audição assistida, intérpretes de linguagem de sinais e serviços de transcrição em tempo real, também conhecido como conversão em tempo real de acesso à comunicação (para estudantes com deficiência auditiva).

16 Professores-assistentes são professores de apoio ao corpo docente. Geralmente são alunos de doutorado responsáveis por auxiliar o professor, conduzir discussões e fazer avaliações.

17 Estatísticas retiradas do “Economic Picture of the Disability Community Project” (Imagem Econômica do Projeto da Comunidade com Deficiência) de 2014, Departamento do Trabalho dos EUA.

18 O Ato Sobre a Educação de Indivíduos com Deficiência (IDEA, na sigla em inglês) regula como os estados e as instituições públicas educam crianças com deficiências. Como instituição privada de educação superior, a Escola de Graduação em Educação de Harvard não está vinculada às disposições dessa lei (idea.ed.gov).

19 O dado trata de uma estimativa. Em nenhum momento, o professor Hehir pediu para que os alunos revelassem suas deficiências, mas a atmosfera da classe os deixava suficientemente confortáveis para falar sobre elas e compartilhá-las com os colegas ou com a equipe de ensino.

20 Portable Document Format.

21 Universal Design for Learning, ou Desenho Universal para o Aprendizado, “é um conjunto de princípios para o desenvolvimento de currículos que oferece oportunidades iguais de aprendizado a todos os indivíduos”, de acordo com a CAST, organização que o desenvolveu. Os princípios do DUA.

22 Evento social (algumas vezes organizado para levantar fundos para uma causa), no qual um grupo passeia por bares ou pubs, seguindo uma rota predeterminada.

23  Retirado da descrição sobre a IHED das organizações estudantis da HGSE, no site da universidade.

24 Idem.

25 Retirado do site da HGSE.

Sobre a autora

Eleanor O’Donnell é doutoranda na Escola de Graduação em Educação de Harvard. Seus interesses de pesquisa abrangem equidade educacional, programas de educação infantil doméstica e focada nos pais, alfabetização e numeracia emergentes, e pesquisa sobre relevância cultural.

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