Inclusão em Educação Física: olhares em (trans)formação

Ao decorrer de 15 anos atuando na formação de professores e professoras de Educação Física, ficou evidente para mim o quanto é necessário que cada pessoa se conscientize do que vê quando vê a si mesmo e ao outro. Ou ainda, do que não vê. Por meio de diversas experiências e diálogos, venho observando a mudança na amplitude do olhar premente para implementar uma concepção de Educação Física que inclua todas as pessoas, independentemente de como se locomovam, comuniquem ou se expressem.

Como internalizar um olhar inclusivo? Esse desafio envolve algumas questões. Vamos refletir sobre elas.

Há futuros professores que percebem o quanto foram marcados por circunstâncias excludentes quando tomam consciência de que carregam em suas memórias intensas crenças sobre a relação natureza/cultura. Por exemplo, há sempre alguém que afirma que as pessoas “não nascem habilidosas” para determinadas atividades, só pelo fato de não conseguirem êxito após terem tentado algumas vezes. Quantos de nós não abandonaram cursos depois de uma sequência de tentativas sem aparente resultado? Ou quantos sequer tentaram aprender alguma coisa após assistir outras pessoas fazendo movimentos que lhe pareceram desafiadores? Dessa forma, excluímo-nos das experiências de práticas corporais para as quais não nos sentimos capazes – e isso precisa ser rompido.

Há alunos de Educação Física que silenciam vozes e não efetuam movimentos porque estão marcados pelo medo de errar ou se expor. Corpos que se imobilizam quando convidados a se expressar em público. Alguns se preocupam em como serão vistos pelos outros e às vezes sequer conseguem encarar a si mesmos, sofrendo tanto que uma forte frustação invade a pele. A distância entre o movimento em que pensam e o que executam também os assusta. Depoimentos que trazem essas questões relatam que, muitas vezes, os medos foram instalados na escola, em aulas ou situações nas quais esses estudantes se sentiram impotentes por não conseguirem fazer igual ao executado por outra pessoa. Está posta a nossa responsabilidade enquanto formadores em evitar a construção de silêncios dessa natureza.

Há ainda educadores em formação que adiam se lançar à experimentação do novo. Eles não conseguem deixar fluir ideias sobre as diferentes formas de se vivenciar um movimento ou uma prática corporal. São aqueles que se enrijecem no medo e se apoiam na ideia de que vieram naturalmente mais habilidosos apenas para alguma atividade. Há potencial em cada um de nós, mas às vezes nos falta ousadia e coragem. Quando assumimos uma turma, temos o dever de deixar pulsar a multiplicação das experimentações.

Toda idade é tempo para aprender algo novo. Todo corpo pode experimentar qualquer atividade. Os limites para as práticas foram construídos, dentre outros fatores, pelos paradigmas do alto rendimento. Na inclusão em Educação Física, devemos nos guiar por outras referências que não o desempenho técnico, a classificação por resultados e/ou a punição pelos erros. Um olhar inclusivo acolhe as individualidades não para compará-las, mas para libertá-las.

Vou relatar alguns contextos em que observei mudança para olhares inclusivos.

Iniciei uma aula da disciplina de Fundamentos Filosóficos da Educação Física, no primeiro semestre do curso de Licenciatura, com a seguinte questão geradora: “Como vocês dariam aulas para uma pessoa que não enxerga nem escuta?” Um silêncio preencheu a sala. Não houve nenhuma resposta expressa. Aquele silêncio significava a dificuldade que todos tinham de encontrar caminhos para ensinar alguém que se comunica fora dos moldes tradicionais. Projetei então um filme sobre a história de Helen Keller, a menina cega-surda. Terminada a sessão, uma estudante pediu a palavra e disse: “Eu estudo Libras, mas quando você perguntou como nós daríamos aula para uma pessoa que não enxerga nem escuta, eu não consegui pensar em nada. Não visualizei que poderia fazer com que a pessoa tocasse as letras e conhecesse os formatos. Agora eu sei o que faria!”

Em outra aula, cheguei na sala sentada em uma cadeira de rodas. Os estudantes observaram. Segundos depois, perguntei: “Quero dançar. Quem dança comigo?” Esperei que alguém se levantasse. Um dos estudantes chegou por trás da cadeira e me balançou de um lado para outro. Eu então reforçei: “Quero dançar olhando nos olhos!” O voluntário circundou o espaço da cadeira, colocou-se na minha frente e repetiu o movimento que fez quando estava atrás. Sugeri a ele e aos outros que encontrassem diferentes formas de dançar. Lentamente, toda a turma se envolveu, superando a aparente restrição inicial.

Esses futuros docentes aprenderam a ver o que antes não viam. Com essa abertura, vislumbraram maiores chances de proporcionarem práticas corporais diversas para as pessoas que se comunicam e/ou locomovem de modo menos convencional.

Portanto, temos de formar professores e professoras para que consigam ver, principalmente, as potencialidades dos outros. Isso começa a ocorrer quando eles se dão conta das próprias potencialidades; liberam-se dos velhos medos; desvinculam da natureza aquilo que depende prioritariamente da cultura; assumem-se criativos e elaboram soluções inovadoras para incluir a diversidade; deixam de agir para formatar padrões e, finalmente, passam a tentar superá-los. Falo um pouco sobre isso no documentário Aquilo que as pessoas não sabiam que podiam ser,  de Fabrício Leomar.

Desejo que possamos assumir coletivamente a urgência de ver as diferenças e acolhê-las das formas mais diversas para construir e consolidar uma rede de docentes comprometidos com uma Educação Física Inclusiva.

 

Tatiana Passos Zylberberg é licenciada, bacharel, mestre e doutora em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), docente do Instituto de Educação Física e Esportes (IEFES) da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do projeto Conecte & Crie Educação Física.

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