Eu respeito os diferentes conhecendo a diferença

Eu sou de uma geração nascida nos anos 50 do século passado. Entrei para a escola em 1962, em uma cidade do interior de Minas Gerais. Era uma escola pública, e conviviam ali filhos de operários, de engenheiros, de professoras, de médicos. Brancos, negros, ricos e pobres. Era uma escola pública. Quer dizer, “quase” pública… Para cada 10 crianças brasileiras de 7 anos, apenas 3 estavam na escola. E mais grave: não tinha nenhuma criança com deficiência, nem um cadeirante, nenhum com síndrome de Down, nem cegos, nem autistas… A minha geração cresceu sem conviver com crianças diferentes de verdade. E esta não convivência fez com que eu só fosse conhecer uma criança com Síndrome de Down, quando eu tinha 15 anos de idade.
Era uma criança diferente e eu perguntei para a mãe da minha amiga: o que este menino tem? E ela nos puxou para o lado e falou baixinho: “Ele é mongoloide”…

Será que nos anos 60 ou 70 não existiam crianças com deficiência? Claro que existiam, mas estavam confinados em suas casas ou escondidos em clínicas e asilos. Talvez por isto a minha geração tenha tanta dificuldade em entender o que significa para as pessoas sem deficiência a convivência cotidiana com as pessoas com deficiência.

A reitora da universidade de Michigan, Mary Sue Coleman, em entrevista ao jornal Folha de são Paulo do dia 28 de setembro de 2012 disse: “acreditamos fervorosamente nos benefícios da ação afirmativa. Pesquisas nessa área mostram que uma sala de aula diversificada – com pessoas vindas de diferentes contextos, classes sociais e etnias – é um ambiente educacional melhor. Além dos estudantes saírem preparados para trabalharem numa sociedade multicultural, é possível abrir a universidade para quem não tem acesso a ela”. Podemos transpor esta fala para as salas de aula das escolas de educação básica. Crianças e adolescentes que convivem com pessoas diferentes, sairão formadas para conviverem com a diversidade, a complexidade da sociedade contemporânea que é multicultural, complexa e sofisticada.

Eu me formo um cidadão que sabe como guiar um cego, que entende a importância dos lugares reservados em ônibus e metrôs para pessoas com dificuldade de locomoção, que tem calma para um cadeirante subir para o ônibus ou entrar no cinema, que ajuda meu colega com paralisia cerebral a fazer os deveres escolares, somente se eu conhecer, conviver, aceitar e aprender sobre as dificuldades e facilidades de cada um dos meus colegas de classe.

A inclusão das crianças com deficiência deve ser feita com tempo, respeito e formação docente, infraestrutura adequada, investigação científica rigorosa, apoio de profissionais de outras áreas. Não é uma tarefa simples ou mágica. Demanda empenho, disponibilidade para aprender, cabeça aberta ao novo.

Mas se acreditamos de verdade em uma sociedade democrática, a escola que recebe e ensina a todos é efetivamente o local da transformação e da formação de cidadãos melhores para viverem em uma sociedade menos desigual.

 

Maria do Pilar Lacerda é Licenciada em História/UFMG; especialista em Gestão de Sistemas Educacionais/PUC-MG; professora de História na educação básica por 25 anos; Secretária de Educação de BH (2002 a 2007); presidente nacional da Undime (2005ª 2007); Secretária Nacional de Educação Básica (2007 a 2012). Atualmente é diretora da Fundação SM, desde julho de 2012.

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