A educação de jovens e adultos (EJA) entre o ideal e o real

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seu artigo 37, prevê que aqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos na idade própria podem ser atendidos por meio da oferta da educação de jovens e adultos (EJA). De acordo com o texto, “os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente àqueles que não puderam efetuar os estudos na idade regular oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames”. Assim sendo, devido ao histórico de exclusão das pessoas com deficiência, muitos dos estudantes que hoje estão na EJA fazem parte desse público.

O ingresso de jovens e adultos com deficiência na EJA lhes confere certo grau de dignidade, pois os qualifica para o mercado de trabalho, cria oportunidades de convívio com um grupo social e proporciona a base curricular escolar, além da certificação necessária para investir em etapas superiores da educação. Mas é necessário compreender e admitir que, infelizmente, em alguns casos, assim como também acontece na modalidade normal de ensino, a educação de jovens e adultos não satisfaz as necessidades dos estudantes com deficiência conforme prevê a legislação. É o caso de Cristiano e Morgane, cujas experiências escolares serão resumidas na sequência.

 

Comunicação entre surdos e ouvintes

Cristiano tem 27 anos, é surdo, mora com sua avó e trabalha em uma loja no município de Guaporé (RS). O jovem está feliz com seu emprego. Segundo relata, seu chefe é uma pessoa boa, que com frequência tece elogios e lhe dá todas orientações necessárias para que consiga realizar bem as atribuições de seu cargo. Ele é responsável pela limpeza dos banheiros do estabelecimento, pela entrega de panfletos na rua e também por parte da organização e disposição das mercadorias nas prateleiras. Ao ser questionado sobre outros trabalhos que gostaria de assumir no futuro, revela que seu desejo é de continuar no atual, conquistando espaços ou funções superiores.

Cristiano cursa EJA à noite, no Serviço Social da Indústria (SESI) da cidade. Gosta das disciplinas de matemática, filosofia, biologia e reconhece que tem dificuldades para aprender os conteúdos de língua portuguesa, língua inglesa e história. O curso disponibiliza intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas conforme conta, nem todos estão qualificados para ajudá-lo. Além disso, há pouca comunicação com os colegas ouvintes, uma vez que a maioria não sabe a língua de sinais. E por não ter outro amigo surdo, ele passa grande parte do tempo isolado dos demais.

Indagado sobre o formato que a educação de jovens e adultos deveria ter para atender às necessidades de qualquer aluno, ele afirma: “deveria haver melhor comunicação entre surdos e ouvintes, metodologias apropriadas para ensinar Libras para todos e intérpretes bem qualificados”.

 

Isolamento

Morgane também é surda, tem 32 anos, mora com sua família em Serafina Corrêa (RS) e trabalha em uma sorveteria. Ela se diz feliz com seu emprego atual, mas gostaria de se qualificar como intérprete de Libras no futuro. Quando convidada a contar sua trajetória escolar, revelou que não tem boas recordações.

Desde os primeiros anos de escolarização a jovem se acostumou a passar muito tempo sozinha no ambiente escolar. Ainda no ensino fundamental, frequentemente chegava em casa e chorava. A escola era triste e a fazia sofrer. Morgane reprovou dois anos em séries distintas e, quando chegou ao ensino médio, optou pela modalidade EJA na esperança de vivenciar uma experiência diferente da anterior. Buscou uma vaga em uma unidade particular, porque não conhecia nenhuma escola pública que ofertasse a modalidade.

Mas desde a hora que embarcava no ônibus para ir ao curso até o momento em que entrava na sala de aula e aguardava o professor chegar, ninguém se dirigia a ela. Às vezes, tentava se aproximar, mas pela dificuldade na comunicação, os colegas logo se afastavam. Morgane sentava sempre na primeira carteira da sala de aula para fazer leitura labial. Não havia intérprete de Libras. Por isso, ela não tinha conhecimento de nada que acontecia ao seu lado ou as suas costas, porque se ela se distraísse com algo, perdia a explicação do docente. Desse modo, nunca acessava o que chamamos de currículo oculto – todas situações de improviso que surgem em uma aula e que não são desperdiçadas, já que guardam valor na construção de conhecimentos.

Ao concluir a EJA, Morgane não fez formatura com a turma. Optou por apenas receber o certificado. Na sua visão, o curso não a preparou para o mercado de trabalho, especialmente porque ela não sabia bem a língua de sinais. Logo foi admitida em uma empresa de fabricação de cadernos e lá permaneceu por cinco anos. Mas realizava uma tarefa mecânica e não havia perspectivas de crescimento profissional. Quando questionada sobre como deveria ser organizado um curso que atendesse às necessidades acadêmicas de todos e que os preparasse para o campo profissional, Morgane ponderou que não deveria ter nenhum tipo de exclusão. Deveria contar com intérprete de Libras para os surdos e tecnologias assistivas.

 

Educação profissional

Os princípios da educação de jovens e adultos são previstos no artigo 206 da Constituição federal, a saber, “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e gratuidade do ensino público”. Sem dúvida existem muitas experiências em que esses princípios são reconhecidos. Entretanto, a realidade também tem nos mostrado que a modalidade, em grande parte, não oferece espaço para atender pessoas com e sem deficiência, desvirtuando-se de seus objetivos primordiais.

Em uma estratégia disfarçada de “oportunidade diferenciada de ensino”, escolas transferem seus estudantes para classes de EJA, complicando o formato de ensino e colocando educadores em uma situação delicada, na qual passam grande parte do tempo administrando conflitos ao invés de estarem integralmente dedicados àqueles que não tiveram oportunidade de aprender na idade certa. Educandos com problemas de disciplina devem ser ajudados. Nesse sentido, deve-se ter o cuidado para manter atuantes os Conselhos na escola, bem como o trabalho em rede, que oferece profissionais habilitados para atuar nas questões de comportamento humano ou mesmo em outras áreas de carência.

Outra barreira é a falta de articulação com o ensino profissionalizante, que faz com que muitos passem pelas salas de aula, recebam uma certificação, mas nunca se insiram em um trabalho formal. Esses alunos se tornam, assim, “escolarizados-marginalizados” que, apesar de possuírem uma comprovação de sua caminhada escolar, não conseguem alcançar uma vida digna nos aspectos mais básicos.

É urgente, portanto, e necessário, que os cursos de EJA preparem os estudantes com deficiência para o mercado de trabalho. E não só isso, mas que também exista uma expectativa real para a inserção no campo profissional. Só assim o ensino na educação de jovens e adultos vai se tornar interessante e atrair mais pessoas. Essa é a situação ideal e está prevista na Meta 10 do Plano Nacional de Educação.

 

O professor na educação de jovens e adultos

É preciso repensar alguns aspectos da educação de jovens e adultos para: garantir espaços de socialização entre estudantes com e sem deficiência; prever a Libras como disciplina que estimule a comunicação entre surdos e ouvintes; assegurar às pessoas com deficiência o conhecimento de seus direitos; proporcionar intérpretes bem qualificados; possibilitar uma articulação com o ensino profissionalizante etc. Por fim, mas não menos importante, é necessário que os professores recebam formação para desenvolver práticas de ensino que possam ir além do quadro e do giz.

Além disso, o docente deve reconhecer a necessidade de um planejamento que atenda às necessidades, anseios e inteligências de todos. Para tanto é preciso pensar nos estudantes, se preocupar, querer ajudá-los a visualizar outras opções de vida. Ouvindo os alunos, por meio de técnicas e dinâmicas, o educador conhecerá melhor cada um, o que lhe possibilitará preparar aulas cujo conteúdo os afetará positivamente e individualmente. Nesse processo, firma-se um vínculo de afeto, companheirismo e boa comunicação, elementos que aguçam a vontade de aprender, de se envolver e de cooperar.

É de suma importância, também, utilizar-se das tecnologias disponíveis, considerando sempre o estudante como protagonista da construção do conhecimento. Isso nem sempre é fácil de fazer e, provavelmente, o educador levará algum tempo entre tentativas, acertos e erros. Mas a persistência certamente resultará em sucesso tanto para o docente quanto para seus estudantes.

 

Apoio da gestão

A gestão da escola também precisa estar engajada nessa tarefa, preocupando-se em: providenciar a formação aos professores; garantir a comunicação do docente do atendimento educacional especializado (AEE) com os das classes de EJA e ouvir atentamente as dúvidas, inseguranças e também experiências bem-sucedidas de toda equipe, por menores que pareçam ser.

A educação de jovens e adultos é uma modalidade de ensino que guarda inúmeras possibilidades aos professores e gestores. Isso porque alguns estudantes estão a um passo de se inserir no mercado de trabalho e outros já estão. Essas duas condições devem ser exploradas, pois possivelmente os que não tiveram escolarização na idade certa não conseguiram se inserir em empregos formais pela falta do conhecimento acadêmico e certificação. Essas experiências merecem ser problematizadas, uma vez que compõem a essência da EJA, isto é, as implicações da vida profissional distante da escolarização formal.

Os objetivos e planos profissionais dos estudantes precisam ser conhecidos. Com essas informações preciosas, os professores, juntamente com a gestão da escola, poderão trabalhar no amadurecimento das expectativas de cada um. Isso envolve levar para dentro da escola profissionais, técnicos e lideranças da sociedade local para que relatem as possibilidades e limitações do campo profissional almejado pelos alunos. Essas ações levam o estudante da EJA a perceber o vínculo entre o ensino que recebe e sua opção profissional.

 

Adriangela Bonetti é professora na rede municipal de ensino de Guaporé (RS), graduada em pedagogia e especialista em administração, supervisão e orientação educacional.

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