Grupo de teatro produz “O pequeno príncipe” protagonizado por jovem com Síndrome de Down

O projeto de extensão universitária “Cena especial”, realizado na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), tem como meta formar atores inclusivos: pessoas com ou sem deficiência, dispostas a montar espetáculos de teatro que abordem questões relacionadas à inclusão social das pessoas com deficiência. Em uma de nossas ações, produzimos uma versão de “O pequeno príncipe”, protagonizada por um jovem com Síndrome de Down. Durante o percurso de montagem do espetáculo, muitas barreiras à atenção e à memória de Gabriel, de 20 anos, foram evidenciadas. Mas ao aplicarmos as intervenções e adequações que as singularidades do adolescente demandavam, esses desafios impulsionaram-no a ir além de seus limites.

Dois atores contracenam no palco. Gabriel está sentado, de pernas cruzadas. Seu companheiro de cena usa roupas vermelhas e está agachado ao seu lado. Há um violino em pé do outro lado do palco.
Gabriel foi o protagonista da versão de “O pequeno príncipe”. Foto: arquivo pessoal.

Criado em 2015, o Cena está aberto a todos interessados, com ou sem experiência em artes, e que tenham a partir de 16 anos. Eu, Carlos Correia Santos, sou diretor e criador do projeto, que inicialmente esteve ligado à Faculdade Integrada Brasil-Amazônia (FIBRA). Sou Bacharel em Direito, poeta, contista, cronista, dramaturgo, roteirista e romancista.

O compromisso do projeto é montar performances em que sempre estejam juntas pessoas com e sem deficiência. Nesse ambiente, o ator inclusivo é um artista preparado para lidar não apenas com as situações gerais do teatro, mas para se comunicar explorando as possibilidades múltiplas dos sentidos – e da ausência desses. É um artista que precisa lidar com as diversas condições físicas e cognitivas de seus companheiros de palco e espectadores.

 

A aposta no potencial de Gabriel

A primeira turma do projeto contou com pessoas sem deficiência, pessoas cegas, surdas, com autismo e com Síndrome de Down. Todos compuseram o espetáculo “Pelos olhos dela”, uma dramaturgia que convidava o público a experimentar a ausência da visão. O elenco se dividiu entre músicos, que executavam ao vivo as canções da peça, protagonistas e atores indutores dos jogos sensoriais, que ficaram responsáveis por provocar sensações na plateia.

Gabriel participou de todo o processo de montagem da produção. Ele não protagonizava nenhuma das cenas, mas atuava com a equipe dedicada a lidar com os espectadores. Sua compreensão com relação à proposta da obra e sua desenvoltura para realizar as tarefas junto ao público fizeram a direção perceber que seria interessante realizar um trabalho cênico mais detido com o adolescente.

Surgiu, então, a ideia de apostar em uma versão inclusiva do clássico da literatura infanto-juvenil “O pequeno príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry.

 

Os desafios iniciais

Gabriel ensaia com músico. Ele está sentado diante de um homem que toca um violino. Gabriel segura um boneco com uma das mãos.
A atenção e a memória de Gabriel foram desafiadas durante a montagem do espetáculo. Foto: arquivo pessoal.
O livro foi escolhido por seu conteúdo humanístico e inclusivo. São várias as passagens que falam de aceitação, de respeito à diferença e de compromisso com o outro. Nossa proposta foi criar um espetáculo com músicas compostas especialmente para a leitura de trechos do clássico. Um narrador violinista e o menino príncipe protagonizaram a peça. Jogos com objetos cênicos fizeram referência a outros personagens, como a Raposa, a Rosa, entre outros.

Cabiam ao jovem alguns desafios imediatos. O primeiro era a compreensão da proposta da produção. Ele precisava não apenas entender o que realizaria, como também compreender seu papel de causar emoção e empatia, além de memorizar as ações do roteiro e a sequência dos jogos cênicos. Além disso, deveria estar atento às propostas emocionais de seu personagem. Logo, as funções cognitivas da atenção e da memória de Gabriel seriam bastante aguçadas.

 

Estratégias para evitar a dispersão

No primeiro ensaio, logo de início, frisei o pacto do faz de conta. Tudo o que seria feito no palco era um grande acordo de fantasia. Foi explicado que o adolescente viveria uma pessoa que não era ele, mas uma criação, e que seu personagem era um pequeno príncipe triste. Ele se mostrou bastante atento. Para testar sua memorização, foi pedido que falasse qual era a proposta do trabalho e como era seu personagem. Ele repetiu as informações, salientando que o menino que interpretaria era um garoto triste.

Passamos, então, para um segundo momento: a apresentação da estrutura do roteiro escrito. Nessa etapa, o jovem se dispersou diversas vezes. Quando passamos a realizar a dinâmica das cenas, ele respondeu muito bem às propostas de repetir as ações. Mas assim que trechos reais do livro começaram a ser lidos, sua distração retornou e se acentuou.

Com isso, surgiu a necessidade de adequarmos o roteiro. Os trechos longos precisavam passar para algum outro suporte. Assim, a direção avaliou que a dificuldade de concentração de Gabriel demandava a transformação dos textos em ações. Todo o material frasal foi transportado para os jogos cênicos. E isso não apenas aguçou mais a atenção do adolescente, como facilitou seu processo de memorização.

 

Entendendo o pacto cênico

Dois atores contracenam no palco. Gabriel está sentado em um caixote, segurando uma rosa. Ao lado dele, um músico de pé toca um violino.
Durante os ensaios, o jovem respondeu bem ao pacto do faz de conta do teatro. Foto: arquivo pessoal.
A segunda fase dos ensaios aconteceu com a presença dos músicos. Assim, novos estímulos de atenção foram colocados. Expliquei ao jovem que ele faria as cenas de modo entrelaçado à trilha sonora e que os músicos estariam próximos dele o tempo todo, mas que seu personagem não iria se dirigir a eles. Era como se não existissem.

Gabriel respondeu bem ao novo desafio. Durante os ensaios com música, os episódios de dispersão foram bastante reduzidos. Ele manteve o pacto cênico e, enquanto atuava, não mantinha contato com os demais.

Ele chegava ao local de ensaio sempre sorridente, falante, mas, ao entrar na sala, assumia uma postura contrita. Quando percebi esse comportamento, perguntei o motivo. Ele me explicou que seu personagem era um menino triste e que quando ensaiava, precisava ficar triste.

 

O teatro inclusivo no palco

Após dois meses de montagem, nossa versão de “O pequeno príncipe” estreou no teatro do Centro Cultural Sesc Boulevard, em Belém. A casa estava lotada. O contato com a plateia trazia outro desafio ao adolescente: cumprir sua performance sem se dispersar pelas reações dos espectadores. Ao longo dos ensaios, ele havia sido prevenido quanto a isso.

O jovem foi o primeiro a ser posicionado em cena. Quando seu personagem já estava no palco, dormindo, as pessoas começaram a entrar. Ele só despertou depois que todo público se acomodou. Durante a espera, ele não perdeu a concentração e permaneceu em sua marca, fazendo o jogo de dormir.

Ao longo do espetáculo, Gabriel se manteve centrado. Não se distraiu por conta dos músicos no palco, nem por conta das manifestações da plateia – que foram várias. Muitas crianças que foram assistir à peça se encantaram com o protagonista e, por conta disso, queriam interagir.

 

Considerações finais

Dois atores contracenam no palco. Gabriel está de pé, vestido com roupas brancas. Ao seu lado, tocando em seu ombro, um músico seguro um violino enquanto conversa com ele.
Fora de cena, a mãe de Gabriel afirmou que o filho conquistou avanços na escola. Foto: arquivo pessoal.
Durante os primeiros ensaios, observei as dificuldades do adolescente com Síndrome de Down com relação à concentração e à capacidade de memorização. O processo de montagem da produção evidenciou essas barreiras. No entanto, as intervenções com as técnicas de teatro e as adequações no roteiro serviram para desafiá-lo e ajudá-lo a superá-las.

Esses avanços foram sentidos para além do espetáculo. A mãe de Gabriel afirmou que o filho apresentou consideráveis avanços na escola. Isso mostra que o teatro inclusivo pode efetivamente ser usado como instrumento psicopedagógico de estímulo às funções cognitivas da atenção e da memória, proporcionando desenvolvimento psicossocial.

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