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O que você encontrará neste conteúdo:
• Como escolas e famílias podem construir uma parceria de confiança.
• Reflexões de especialistas sobre os desafios cotidianos da relação escola-família.
• Estratégias para promover o diálogo e a corresponsabilidade na educação inclusiva.
• Dicas práticas para gestores e professores fortalecerem o vínculo com as famílias.
O número de estudantes com deficiência matriculados em escolas comuns tem crescido de forma consistente no Brasil. Segundo dados do Painel de Indicadores da Educação Especial do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), em 2024, 92,9% de bebês, crianças e adolescentes público-alvo da Educação Especial (o que representa cerca de 2 milhões de pessoas) estavam matriculados em classes comuns, tanto em escolas públicas como privadas. Essa realidade, que alcança todas as instituições de ensino, é reflexo dos avanços nas políticas de inclusão e, ao mesmo tempo, traz novos desafios para profissionais de educação, familiares e toda a comunidade escolar.
Entre esses desafios está o de estabelecer uma real parceria com as famílias, um dos pilares para a permanência e aprendizagem de todos os estudantes. Mais do que compartilhar informações ou comparecer às reuniões, essa relação trata de construir uma rede de confiança, diálogo e corresponsabilidade em torno do desenvolvimento de cada um.

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Confira as dimensões que precisam ser consideradas para que a inclusão escolar seja viável
De acordo com Lucila Bernardes, pedagoga pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Educação Inclusiva e Gestão das Diferenças pelo Instituto Singularidades, os estudantes precisam dos adultos para se desenvolverem nos diferentes meios em que vivem — e isso passa por estarem voltados ao bem-estar das crianças e adolescentes. Para ela, que atuou por mais de vinte anos como orientadora educacional e coordenadora de um núcleo de práticas inclusivas em uma instituição particular em São Paulo, as escolas e as famílias cumprem papéis diferentes, mas complementares, que só fazem sentido quando estão minimamente sincronizados. Caso contrário, surgem ruídos que prejudicam o estudante e dificultam ainda mais o trabalho pedagógico. “Ter uma parceria de diálogo, de conciliação de algumas concepções entre gestão, educadores, pai, mãe e demais atores dessa relação é fundamental, porque é a partir disso que o estudante vai poder se desenvolver da melhor forma. A escola sozinha não dá conta e, com a família, é a mesma coisa”, defende.
Desafios comuns na relação com famílias para a inclusão

A família e a comunidade que cercam a criança ou adolescente com deficiência têm o direito e o dever de participar e dialogar no ambiente escolar, influenciando positivamente os rumos da inclusão. Esses atores têm papel fundamental para cobrar e acelerar as mudanças necessárias.
A Constituição Federal determina que a educação
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A Lei Brasileira de Inclusão afirma que a educação constitui direito da pessoa com deficiência, e é dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade a essas pessoas, colocando-as a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação.
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O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que é obrigação dos pais ou responsáveis acompanhar sua frequência e aproveitamento escolar (art. 129, V).
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Apesar de ser necessária existir essa relação, a parceria entre escola e família historicamente nem sempre se estabelece de forma fácil. Isso não é diferente quando se trata de um estudante com deficiência. Andréia Silva Pinto, pedagoga, mestre em psicologia educacional e formadora, indica que uma das dificuldades para construir esse vínculo ocorre na divergência de expectativas da família em relação à escola. “Muitas vezes a criança chega na escola com a mãe ou o pai, o laudo e uma equipe multidisciplinar, num lugar de prescrição e não de construção coletiva, o que seria o certo de acontecer. Para o familiar, em muitos casos, nós educadores temos que acatar o que outros profissionais indicam, sem ao menos conhecer a criança”, diz.
Ao identificar o mesmo desafio, Ana Paula Musatti Braga, psicanalista e doutora pela psicologia clínica da Universidade de São Paulo (USP), acredita que o ideal para evitar esse contexto é, desde o primeiro contato, esclarecer aos responsáveis da criança o papel e os objetivos da escola. “As famílias têm o direito de escolher o projeto pedagógico em que os filhos estarão, então é necessário que a gestão e todo o corpo docente demonstrem de forma transparente qual projeto a escola segue. Entretanto, independentemente do projeto, esse diálogo deve reforçar o dever dos educadores e responsáveis e o direito do estudante a uma educação inclusiva que respeite as singularidades, principalmente no contexto pedagógico. Para isso, a participação familiar é um direito e um dever, pois só assim é possível ter evoluções”, afirma.
Outro ponto de atenção no estabelecimento de parcerias é o risco de a escola aceitar determinações que cabem a ela decidir. Embora precise dialogar com áreas como saúde e assistência social, a instituição não pode perder de vista sua identidade pedagógica. Andréia Pinto explica que isso significa reconhecer a interdependência com outros setores, mas sem abrir mão de sua missão central: promover a aprendizagem, a convivência e o desenvolvimento integral dos estudantes.
Para que o trabalho ocorra da melhor forma e a escola tenha voz nesse processo, a especialista entende que a situação deve ser conduzida com respeito e delicadeza, e com firmeza por parte da gestão. “Pela minha própria experiência posso dizer que pensar no estudante tem ajudado muito essa parceria. Nós da educação não podemos negar a importância da saúde, por exemplo, no desenvolvimento das pessoas com deficiência. Precisamos ter essa rede de apoio à inclusão, mas isso não significa que, às vezes, não tenhamos que entrar em pontos delicados de discussão. É preciso aprender a dizer não e demonstrar que a escola é lugar de ensinar e cabe a nós [educadores] planejar e pôr em prática as estratégias, com o apoio de parceiros, estabelecendo os limites de atuação”, conta Andréia.
Ela enfatiza que as conversas sempre precisam considerar o estudante na perspectiva do modelo social da deficiência, no qual a barreira não está na pessoa, e sim na sociedade. Cabe a todos fazer com que os espaços estejam aptos a receber cada um. “Decidir a melhor estratégia de ensino, entender se o estudante precisa ou não do profissional de apoio, se deve frequentar a sala de recursos, ou ter um adulto o acompanhando o tempo todo, entre outras decisões, exige que a equipe conheça o estudante e responda a perguntas importantes: Essa ação inclui ou afasta a criança do grupo? A estratégia ajuda-o a desenvolver sua autonomia ou não? Estamos acreditando no potencial dessa pessoa?”, diz.
O primeiro contato: escuta ativa e rede de apoio
O início da relação com as famílias de estudantes com deficiência é um momento decisivo, já que a construção de confiança entre as partes deve começar desde o primeiro contato. Lucila Bernardes entende que, assim que os responsáveis têm a primeira interação com a escola, deve ficar claro que os profissionais querem receber os estudantes e seus familiares. Para isso, ela indica que os gestores criem uma cultura de escuta ativa, em que a conversa inicial seja para conhecer de fato aquelas pessoas, suas histórias e expectativas quanto ao novo ciclo. “O acolhimento ao público de crianças com deficiência às vezes tem que ser redobrado, principalmente pelas diferentes barreiras que o mundo já impõe a eles. Mas isso não pode se tornar algo capacitista. Temos que pensar no estudante e seus familiares como sujeitos de direitos. A confiança construída desde o primeiro contato é fundamental para o desenvolvimento da criança ou adolescente.”, afirma.
Lucila aponta ser natural, principalmente nesse primeiro contato, entender que os familiares sejam mais protetores devido ao mundo ainda ser “hostil” e “inapto” a recebê-los adequadamente. Entretanto, a cultura da escola precisa mostrar que ali, pelo menos, a realidade será diferente. “Provavelmente essas pessoas cheguem à escola tendo enfrentado diferentes dificuldades em outras instituições ou serviços. Já atendi vários casos em que, no diagnóstico, o médico dizia que a criança não iria se desenvolver. Mas, ao acolhermos a família, criamos essa parceria de confiança e desenvolvendo bons projetos que envolvam a todos, o resultado foi positivo”, relata.
Para Ana Paula, que também é coordenadora e professora do curso de extensão “Educação e Comunalidade: da privatização dos conflitos às estratégias coletivas” no Instituto Sedes Sapientiae, a escuta ativa é o primeiro passo para criar confiança por parte da família. No entanto, ela destaca que o resultado depende de um conjunto de atitudes diárias que traduzem o projeto pedagógico em práticas concretas de acolhimento. “Temos que lembrar que antes da mãe e do pai chegarem naquela sala para conversar com a direção, coordenação e professores, eles tiveram contato formal ou informal com outras pessoas daquele espaço. Pode ter sido na entrada, por telefone ou de outra maneira. Por isso, precisamos criar a confiança nesses micromomentos. Em uma das instituições onde atuei, tínhamos, de forma prática, uma cultura de acolhimento envolvendo todos os profissionais. Essa cultura ia da portaria aos intervalos e às salas de aula, pois todas as pessoas e espaços são pedagógicos e impactam diariamente no desenvolvimento do estudante.”
Para conseguir essa realidade, a educadora aposta na formação como maneira de direcionar a inclusão como essência da escola. “Os encontros formativos devem ter o mesmo cuidado que a gestão tem com os familiares. É hora de ouvir os educadores, permitir que errem, compartilhem e que aprendam, da mesma forma que deve ser feito na sala de aula”, diz.
Ana acrescenta que, quando a família deposita confiança na instituição, isso impacta diretamente a forma como o estudante se relaciona com o ensino. “Uma família que está vivendo uma relação de muita desconfiança, de muito descontentamento com a escola, dificilmente deixa essa criança ou adolescente mais livre para poder estar também numa aposta de aprendizagem. Por isso temos que apostar nessa relação como um fator primordial para a educação de qualidade”, observa.
Segundo Andreia Pinto, que atuou durante trinta anos como professora em instituições de ensino particulares e públicas e agora exerce a função de orientadora educacional na rede privada, acompanhando crianças e adolescentes com especificidades em seu desenvolvimento e aprendizagem, para que a escola consiga manter essa confiança, ela deve oferecer os recursos de acessibilidade e serviços necessários, como o profissional de apoio, quando indicado, o professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE), além de materiais pedagógicos acessíveis e tecnologia assistiva.
Ela também considera fundamental manter canais de comunicação nos quais a família se sinta à vontade para dialogar. “Esses meios podem ser digitais, por meio de aplicativos de mensagens, ou presenciais, para que o responsável possa trazer questionamentos, dúvidas e ter acesso ao desenvolvimento do seu filho e às estratégias aplicadas em sala de aula”, afirma.
A comunidade no espaço escolar
Um fator importante para o sucesso da parceria entre escola e famílias é a presença desses atores no ambiente escolar em diferentes momentos. Andreia Pinto destaca que criar ocasiões de troca, como palestras, rodas de conversa e festividades, ajuda nessa empreitada. “Pode ser discussões de diferentes temáticas, sejam elas leves ou delicadas, como também festividades que valorizem os saberes da comunidade e os coloquem como protagonistas”, sugere.
Ela ressalta, no entanto, que a comunicação deve ser assertiva para que as pessoas entendam o objetivo de cada encontro, a importância da troca e os benefícios que traz a todos. Um tema que Andreia considera fundamental é o enfrentamento ao bullying e ao capacitismo. “Na escola em que atuo abordamos o respeito à diversidade como caminho para a cultura de paz. Conversamos com todos os familiares, de estudantes com e sem deficiência, sobre como certas expressões e atitudes podem ser violentas e atingir negativamente as pessoas com alguma especificidade. Essa conversa ajuda a modificar o modo como os pais agem e, consequentemente, impacta a aprendizagem de seus filhos no ciclo familiar”, afirma.
Em muitos casos, a escola agenda esses momentos coletivos, mas enfrenta baixa adesão. Para Ana Paula, a gestão não pode cair no erro de responsabilizar somente a família pela ausência. “Tem professor que fala que convida a família e eles não comparecem. Mas como foi esse convite? Às vezes, o tipo de comunicação que a escola está fazendo não faz sentido para aquele grupo, ou até transmite a ideia de que aquela família não sente que aquele espaço é para ela”, analisa.
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5 ações para que a escola receba as famílias de estudantes com deficiência
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Checklist para gestores e professores
- Praticar a escuta ativa: ouvir as famílias com atenção, interesse e abertura para compreender suas realidades.
- Manter portas e canais sempre abertos: oferecer meios de comunicação acessíveis, presenciais e digitais, para troca constante.
- Envolver a comunidade escolar: realizar encontros, celebrações e atividades que valorizem os saberes e a participação das famílias.
- Abordar assuntos delicados com clareza: tratar de forma respeitosa e construtiva temas que impactam diretamente a inclusão e o convívio escolar.
- Avaliar continuamente a parceria: criar momentos para refletir sobre como a relação escola-família está acontecendo e o que pode ser ajustado.
Esta matéria faz parte de uma série de conteúdos incentivados pelo Sistema Positivo de Ensino pelo nosso compromisso com a educação inclusiva na educação pública e privada.
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