Educadores usam poesia para falar sobre diversidade e preconceito no ensino médio

Uma característica marcante da Escola Estadual Professora Eunice Marques de Moura Bastos é a diversidade de seus estudantes. Localizada na zona leste de São Paulo (SP), a unidade oferta os ensinos fundamental e médio para cerca de 1.300 alunos. Grande parcela deles fazem parte de grupos minoritários, como pessoas com deficiência, mães adolescentes, imigrantes e refugiados, negros e LGBT’s.

No cotidiano da escola, essa diversidade gerava alguns pontos de tensão. Era comum que os adolescentes se dividissem em grupos, as chamadas “panelinhas”, segregando outros alunos e promovendo o bullying. Muitos também demonstravam preconceitos, em geral transmitidos por familiares que não se conscientizam de suas atitudes grotescas, por lhes parecerem habituais.

A oportunidade para mudarmos essa realidade, como membros da equipe da escola, veio com nossa participação no curso Ensino médio inclusivo (EMI), promovido pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM). Durante a formação, pudemos refletir sobre quais aspectos facilitavam e quais dificultavam a criação de uma cultura inclusiva na Eunice Marques de Moura Bastos. A partir do curso, criamos um projeto para estimular nossos estudantes a reconhecer o convívio entre as diferenças como algo positivo e enriquecedor para todos.

Reconhecendo a diversidade

A primeira ação do projeto foi apresentá-lo para cerca de 150 alunos das turmas de 2º e 3º ano do ensino médio. Nessa conversa inicial, nossa intenção era mostrar como as pessoas eram diversas e como todos têm o direito de serem incluídos. Depois, exibimos vídeos para sensibilizá-los quanto às diversas formas de discriminação. Falamos sobre bullying, racismo, homofobia, xenofobia etc. Tivemos uma resposta muito positiva. Os adolescentes compartilharam casos que eles próprios vivenciaram.

Estudantes conversam em sala de aula. Eles estão de pé, em um círculo.
Nas primeiras aulas, os estudantes conversaram sobre diversidade e escreveram sobre os próprios preconceitos.
Nas aulas seguintes, realizamos um exercício no qual cada um deveria escrever sobre seus próprios atos de discriminação e se sentiam hostilizados com alguma forma de preconceito. Após a atividade, analisamos os textos produzidos pelos estudantes e percebemos contextos carregados de mágoas. Um dos professores elaborou um vídeo retratando teatralmente as formas de violência presentes nos registros para que pudéssemos usar no próximo encontro com os alunos.

Durante a exibição do vídeo, a princípio, houve uma sensação de mal-estar. Os adolescentes cujos textos foram abordados (seus nomes não foram revelados) interpretaram as cenas com indignação. Com a discussão levantada, eles se questionaram sobre suas próprias atitudes.

Expressão pela arte

Além de refletirem sobre os próprios preconceitos e como eles afetam os demais, também era importante que os estudantes pudessem se expressar. A poesia foi o caminho escolhido, por ser uma arte que permite o uso de diversas linguagens e por ser um tema ligado ao currículo do ensino médio. Assim, nas aulas seguintes, apresentamos uma série de poemas de escritores brasileiros e pedimos para que os alunos escolhessem quais gostariam de ler e analisar em uma atividade em grupo. Eles fizeram uma leitura das obras entre si e, posteriormente, para toda a turma. Depois, interpretaram e refletiram sobre os textos.

Essas aulas foram muito produtivas. Para escapar de uma leitura mecanizada das obras, incentivamos que os adolescentes não só as lessem, mas as interpretassem. Para que todos pudessem se expressar, ampliamos as formas de linguagem utilizadas, incorporando danças, músicas e jogos de expressão corporal e facial.

A produção de poesias

Nas aulas seguintes, partimos para a produção textual. Os adolescentes foram convidados a “visitar” espaços já conhecidos da escola: estacionamento, entrada da secretaria, fundos das salas. A intenção era fazê-los olhar para esses lugares de uma forma diferente. Pedimos que observassem atentamente os detalhes e que escrevessem sobre o que nunca haviam reparado.

Professor orienta aluna a tocar em uma árvore no pátio da escola.
Os alunos andaram pelos espaços da escola para vê-los de forma diferenciada.
Para essa atividade, foi preciso criar alguns apoios. Um dos garotos, que tem dificuldade de locomoção, contou com ajuda de um colega para percorrer os espaços. Já uma jovem com baixa visão foi auxiliada por um professor a tocar os objetos e a amassar as folhas das árvores com a mão. Já nosso aluno com deficiência física que usa cadeira de rodas, mesmo com o apoio dos demais, não conseguiu acessar alguns locais. Essa foi uma situação desconfortável e constrangedora.

De volta à sala de aula, pedimos aos estudantes que iniciassem a escrita de seus próprios poemas. Eles poderiam escrever músicas, paródias ou versões de poemas famosos. Conforme terminavam suas obras, os alunos as interpretavam diante de professores e colegas de classe. Essas performances foram gravadas. Após a conclusão da edição, o trabalho final foi exibido para todos envolvidos no projeto.

Continuidade da iniciativa

O envolvimento dos adolescentes nas atividades aumentou à medida que os encontros ocorriam. Assim, aos poucos, eles começaram a expor suas ideias e a conversar abertamente sobre os temas propostos. Foi gratificante ver o respeito mútuo entre eles crescendo.

Todos foram receptivos à proposta do projeto e participaram de forma ativa. A iniciativa teve impactos muito positivos para nossa escola. Com essa oportunidade, muitos estudantes puderam identificar os próprios preconceitos, conseguiram expressar seus problemas e amenizaram as diferenças com seus colegas.

Projeto participante do curso Ensino médio inclusivo (EMI) de 2016.

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