Zero Project promove sua primeira conferência latino-americana

Por Juliana Delgado

Evento aconteceu de forma virtual e, oferecendo recursos de acessibilidade, contou com representantes de 16 países para debater educação inclusiva.

Foi com a premissa de um mundo sem barreiras para pessoas com deficiência que, nos dias 18 e 19 de novembro, aconteceu a primeira Conferencia Zero Project Latinoamérica. Em formato totalmente virtual por conta da pandemia da COVID-19, o evento apresentou práticas e políticas inovadoras em educação inclusiva.

Sediada comumente em Viena, na Áustria, a Zero Project tem foco na promoção dos direitos das pessoas com deficiência, reconhecendo ações inclusivas do mundo todo. Contudo, desde 2019, uma parceria da Fundação Essl com a Fundação Descúbreme busca expandir sua missão para a América Latina e para as mais de 400 milhões de pessoas que têm o espanhol como língua nativa.

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Conferência acessível

Para possibilitar a acessibilidade durante toda o evento, a equipe de tecnologia do Zero criou uma plataforma exclusiva. De forma gratuita, o site utilizou diversos recursos acessíveis, como texto alternativo nas imagens; possibilidade de alteração do contraste e da legibilidade; legendas em tempo real em espanhol; janelas de língua de sinais internacional e chilena; e tradução simultânea do espanhol para o inglês.

Imagem de divulgação da Zero Project Latinoamérica. Acima, fundo de computadores com baixa opacidade e textos (em espanhol): "Bem-vindos à Conferê4ncia Zero Project Latinoamérica 2020. Educação Inclusiva. 18 e 19 de novembro". Abaixo, fundo verde com logo Zero Project e texto "#ZeroCon20". Fim da descrição.

Com isso, a Zero Project Latinoamérica possibilitou o acesso à informação e forneceu a oportunidade de discussão a todas e todos os interessados mesmo no cenário de isolamento social.

As pessoas que se inscreveram no evento ficaram divididas em duas salas e, nos dois dias, puderam acompanhar palestras de especialistas em educação inclusiva e representantes de 16 países do mundo, além de compartilhar práticas e contatar outras organizações via chat, e enviar perguntas às instituições participantes.

Foi a primeira vez que os interessados na área tiveram a chance de conhecer iniciativas inclusivas da América Latina, de acordo com da Catalina Saieh, presidente da Fundação Descúbreme. Para ela, a conferência oportunizou a discussão sobre a participação plena da pessoa com deficiência na sociedade e a valorização da diversidade humana.

Martin Essl, presidente da organização idealizadora da Zero Project Conference, entende que a potencialidade da Zero Project é unir pessoas e permitir a articulação de boas práticas ao redor do mundo: “Assim sabemos que não estamos sozinhos.”

Em consonância com a fala de Essl, Carola Rubia, diretora executiva da Fundação Descúbreme e anfitriã do evento ao lado de Carolina García, fundadora da Comunidad Inclusiva, ressaltou a importância de eventos que gerem debates e conexões na área da educação inclusiva: “Cremos que esse trabalho colaborativo nos ajudará a construir um mundo sem barreiras.”

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Agir para fazer a diferença

Antes de se iniciarem os painéis de discussão com compartilhamento de experiências, alguns especialistas fizeram apontamentos importantes para a garantia de uma educação inclusiva de fato, como Javier Güemes, do grupo social Once da Espanha.

Ele entende que a falta de acesso a uma educação de qualidade faz com que crianças com deficiência tenham 20% menos chances de alcançar o nível básico de leitura e escrita, de acordo com dados da Unesco.

Para Javier, essa realidade deve ser combatida por meio da criação de um ambiente educacional que promova equidade em todas as esferas:

“A educação inclusiva não pode ser um fragmento anexado a um ensino excludente. É preciso aprender a trabalhar com o intersetor e com a sociedade civil para que haja a construção de sistemas educativos inclusivos.”

Nesse sentido, muitos expositores abordaram a importância da construção de políticas públicas efetivas para garantir os direitos das pessoas com deficiência: “Não há como obter resultados diferentes fazendo o mesmo”, afirma Karla Rubilar, ministra de desenvolvimento social e família do Chile.

Experiências brasileiras

Além das discussões sobre políticas públicas e equidade educacional, destacaram-se as apresentações de projetos e programas brasileiros. As organizações do país têm estado cada vez mais presentes na luta por uma educação inclusiva, além de possuir grandes exemplos de práticas e ações que buscam garantir acesso a uma educação de qualidade para todos.

No primeiro dia de evento, Alan Thomas, da Escola de Gente, esteve presente no fórum “Impact Transfer” para contar de seus projetos participantes da iniciativa da Fundação Essl com Ashoka, que apoia a internacionalização de soluções inovadoras para um mundo sem barreiras.

No debate “Modelos educacionais para uma educação inclusiva”, houve momentos de fala da Carla Mauch, do Mais Diferenças, e Vitor Hugo Neia, da Fundação Volkswagen. Ambas organizações desenvolveram, em parceria, um projeto de formação que proporcionou a educadores das escolas municipais de São Paulo novas formas de planejar, incentivando a criação de atividades em que todos possam brincar e aprender.

Na seção “Inovações tecnológicas para uma educação sem barreiras”, Carlos Pereira, da Livox International, apresentou o aplicativo “Livox”, premiado por ser uma ferramenta de inteligência artificial para dar voz às pessoas com deficiência.

Já Joelson Dias, da Barbosa e Dias Advogados, apresentou a defesa dos direitos das pessoas com deficiência nos níveis estadual e supranacional no painel “Desafios de uma educação inclusiva, políticas públicas em resposta a covid-19″.

No segundo dia, Claudia Werneck, da Escola de Gente, introduziu algumas das ações da instituição no painel “Acessibilidade na educação”.

Do debate gerado pelo tema “Educação não-formal inclusiva”, que encerrou a conferência, participou a brasileira Adriana Gomes Alves, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), apresentando a prática “Design de Jogos Digitais”, desenvolvida pela universidade.

Participação do Instituto Rodrigo Mendes e do DIVERSA

No começo do ano, o DIVERSA e o EAD Portas abertas para a Inclusão, formação sobre educação física inclusiva do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), foram premiados pela Zero Project Conference como ações inovadoras inclusivas do Brasil. Por conta disso, a conferência lationo-americana convidou as organizações para apresentarem novamente os seus projetos e ações.

Em três círculos, fotos alinhadas dos representantes do IRM: Luiza Correa, Lailla Micas e Rodrigo Hübner Mendes. Abaixo das fotos, os nomes de cada um. Fim da descrição.

Luiza Correa, coordenadora de Advocacy do IRM, realizou uma apresentação dos Protocolos sobre educação inclusiva durante a pandemia da COVID-19, cujo objetivo principal é orientar os gestores responsáveis pelo planejamento e execução de políticas públicas.

Lailla Micas, coordenadora do DIVERSA, apresentou a plataforma de compartilhamento de práticas e experiências em educação inclusiva. E ainda falou sobre o DIVERSA Presencial, que promove um percurso formativo com profissionais envolvidos no processo de escolarização.

Na discussão sobre educação não-formal, Rodrigo Mendes, superintendente do IRM, falou sobre o Portas Abertas para a Inclusão, que busca promover uma educação inclusiva fora da sala de aula por meio da educação física.

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Seções de debate

Confira, na íntegra, os temas das discussões e fóruns dos dois dias de conferência:

  • + Impact Transfer: sete projetos ativos ou interessados ​​em atuar na América Latina que passaram por diferentes gerações do programa Impact Transfer, iniciativa da Fundação Essl com Ashoka, que apoia a internacionalização de soluções inovadoras para um mundo sem barreiras;

  • + Modelos educacionais para uma educação inclusiva: quatro organizações, da América Latina, Caribe e Espanha, premiadas pela edição de 2020 do Zero Project apresentaram boas práticas para desenvolver projetos que garantem o acesso à educação por crianças e jovens com deficiência;

  • + Desafios de uma educação inclusiva, políticas públicas em resposta a covid-19: seis organizações líderes na área dos direitos das pessoas com deficiência apresentaram os desafios da pandemia na educação e recomendações para garantir equidade e oportunidades por meio de políticas públicas;

  • + Inovações tecnológicas para uma educação sem barreiras: quatro organizações também premiadas pelo Projeto Zero na Educação, vindas da América Latina, Caribe e Espanha, compartilharam seus projetos que garantam o acesso à educação por meio da tecnologia;

  • + Acessibilidade na educação: organizações líderes na área da acessibilidade discutiram práticas para garantir a igualdade de acesso à educação;

  • + Educação não-formal inclusiva: três organizações premiadas pelo Zero Project on Education e uma ONG da América Latina apresentaram suas práticas para o desenvolvimento projetos que garantam a educação de crianças e jovens com deficiência fora ou em colaboração com a escola regular;

  • + Ensino superior inclusivo: quatro organizações premiadas pelo Zero Project apresentam projetos que garantem acesso à educação superior a pessoas com deficiência.

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