Vânia Emília Dourado

O projeto Brincando e Aprendendo nos Cantos Temáticos foi desenvolvido com 33 alunos da escola Anísio de Souza Marques. A instituição está situada na comunidade de Queimada, zona rural da cidade de Iraquara, na Bahia e atende 374 estudantes da educação infantil e do ensino fundamental. As famílias vivem da agricultura de subsistência, porém, devido à seca que atinge o nordeste, a grande maioria conta apenas com os benefícios do governo federal como Bolsa família, Seguro Safra e Bolsa Estiagem. No ano de 2012, a instituição passou por uma grande reforma e hoje conta com 10 salas de aula, sala de professor, sala de coordenação, sala da direção, sala das secretarias, sala de recursos multifuncionais para atender os alunos com deficiência, uma biblioteca com mais de 5 mil livros, um infocentro com 15 computadores com acesso à internet, quadra poliesportiva, cozinha e vários aparelhos eletrônicos. Devo ressaltar que na equipe de professores todos são graduados, alguns pós-graduados e, o mais importante, todos participam da formação continuada.

O projeto “Brincando e Aprendendo nos Cantos Temáticos” deu continuidade ao projeto “meus avós brincavam do que?", desenvolvido no primeiro semestre de 2012. Como o trabalho com o brincar foi muito bem aceito pelas crianças, bem como pelas famílias dos alunos, nada mais justo que continuar no segundo semestre com um projeto, também valorizando o brincar de faz de conta. Com isso, além de estar respeitando o direito de brincar das crianças, cai por terra a ideia de que o brincar serve apenas para completar a carga horária, bem como o brincar sem planejamento, sem observação e sem registro. Com o projeto, o brincar passa a ser conteúdo de ensino, porém como afirma Gilles Brougere, importante estudioso do universo do brincar, alerta para a importância da livre escolha na brincadeira. Sem livre escolha, sem possibilidade real de decidir, não existe mais brincadeira, mas uma sucessão de comportamentos que tem sua origem fora daquele que brinca.

Foi pensando nisso que o projeto priorizou: a participação e envolvimento das crianças na montagem dos cantos, discutíamos juntos inúmeras possibilidades de brincadeiras que cada canto ofereciam, introduzimos a cultura escrita, partindo do pressuposto de que o brincar é uma das formas mais importantes de estar no mundo e pensar sobre ele e a escrita faz parte do mundo e não poderia ficar fora dos cantos temáticos. O projeto teve como principal objetivo o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo dos alunos da educação infantil. O brincar se caracterizou como o principal conteúdo. O projeto priorizou algumas importantes aprendizagens esperadas, devo ressaltar: o desenvolvimento da identidade e autonomia, seguir regras de convivência social, compreender o mundo do brincar, aprender a esperar sua vez, interagir, expressar seus desejos, fantasiar, desenvolver a oralidade, estar no mundo e pensar sobre ele, bem como desenvolver comportamentos leitores e escritores dentre várias outras habilidades, aprendizagens essas tão necessárias na formação do sujeito.

Ao longo do projeto foram montados onze cantos temáticos: biblioteca de sala, cantinho da secretaria, cantinho da arte, cantinho dos jogos, cantinho da pintura, cantinho da escolinha, cantinho das apresentações, cantinho da natureza, casinha, fazendinha, carrinhos e bonecas. Todos os dias eram reservados cinquenta minutos para a brincadeira. Em um dos dias da semana o brincar era ao ar livre, na quadra ou no campo de futebol, momento dos alunos exercitarem os movimentos, a agilidade, o equilíbrio, com o jogo de bola, baleado, pula corda, amarelinha, dentre outras tantas brincadeiras, inclusive as brincadeiras aprendidas no projeto trabalhado no primeiro semestre. Durante o trabalho tive a preocupação de evitar cantinhos estereotipados, os meninos e meninas perpassavam por todos os cantos sem ter uma escolha definitiva por um canto em específico. Todos os dias eram montados quatro cantos temáticos, o canto da biblioteca de sala era fixo, pois todos os dias tinha uma atividade a ser realizada. O canto da secretaria também era fixo, pois dava muito trabalho para montá-lo e desmontá-lo devido a quantidade de material. Os demais cantos eram montados pelos próprios alunos no momento das brincadeiras. O brincar como conteúdo de ensino foi trabalhado durante todo o ano letivo. Porém de início, enfrentei alguns desafios. Os principais foram: a falta de brinquedos, aprender a planejar as aulas do brincar, ver o brincar como uma prática social que necessita ser ensinado, observar e registrar os momentos das brincadeiras, mudar a visão que tinha do brincar, garantir na rotina diária o momento do brincar, organizar os cantos temáticos, bem como inserir a cultura escrita nos cantos. 

No entanto as conquistas foram inúmeras. Dentre elas devo ressaltar: o interesse dos alunos em vir para a escola, planejamento, observação e registros das aulas do brincar, confecção de brinquedos pelos pais, avós e colaboradores, campanha de doações de brinquedos, qualificação dos cantinhos, avanço da aprendizagem das crianças devido a cultura escrita inserida nos cantos, redução da indisciplina, o brincar garantido todos os dias na rotina, formação continuada exclusiva para a educação Infantil com foco no brincar, respeitando o direito de brincar da criança. Uma das maiores conquistas que me alegra em relatar foi o trabalho com os alunos com deficiência. Três dos trinta e três alunos necessitavam de um atendimento especial. A aluna A ainda não fala, porém participou de todas as brincadeiras. Eu a acompanhava de perto, me inseria nas brincadeiras para que ela se sentisse mais à vontade. Ela gostava mais dos jogos de encaixe, dos materiais de cores fortes, do canto dos carrinhos, da pintura e da arte, apresentava muitas dificuldades de aprendizagem principalmente na coordenação motora. O aluno B não tem a mão esquerda, porém buscávamos várias formas dele utilizar e valorizar o bracinho esquerdo. No início, ele escondia o braço, mas com o passar do tempo ele foi percebendo o quando o braço esquerdo era importante na sua vida. B não apresentava dificuldades de aprendizagem, muito pelo contrário, é um menino muito ativo e muito inteligente. Dava show nos jogos, nas apresentações, enfim, passava por todos os cantos. A aluna C não tinha uma deficiência, porém ela tinha uma deformação ocasionada na gestação, que é o lábio leporino e a fenda palatina. Ela precisava de acompanhamento bem de perto, pois passou todo o ano em tratamento e com a cirurgia para a reconstituição da fenda palatina sentia muitas dores, ela também não apresentava dificuldade de aprendizagem, porém faltava em muitas aulas. Os cantinhos que mais frequentava eram: biblioteca de sala, pintura, secretaria e jogo da memória. O trabalho com os alunos com deficiência proporcionou muito aprendizado, pois me inquietava em busca de conhecimentos. Busquei muita ajuda junto a professora da sala de recursos, na formação continuada, nos sites e nos livros. 

Todo o trabalho com o brincar foi pautado na formação continuada especifica para a educação infantil. Formação esta que teve a parceria do instituto Avisa Lá, Universidade do Estado da Bahia, Instituto Chapada de Educação e Pesquisa e Prefeitura Municipal de Iraquara. Sempre fui uma defensora da formação continuada, estar atualizada me garante introduzir práticas inovadoras com responsabilidade, autonomia e convicção de que a aprendizagem irá acontecer. 

Enquanto a proposta de introduzir aos poucos a cultura escrita nos cantos temáticos – não compartilho da ideia de alfabetizar as crianças da educação Infantil, pois acredito que nesta fase devem ser desenvolvidas várias outras habilidades que antecedem a alfabetização, no entanto, compartilho da ideia de Ana Lucia, formadora do Instituto Avisa Lá, em aproximar as crianças do mundo letrado, e que é papel da escola fazer valer o direito de todos fazerem parte deste universo, inclusive as crianças pequenas. Também compartilho da ideia de Vigotsky quando diz que a instrução precede ao desenvolvimento, ou seja, não faz sentido a escola esperar o “momento ideal” para ensinar a ler e escrever. Esse é um processo contínuo e que nele podem estar incluídos desafios possíveis e prazerosos para as crianças, para que possam avançar ainda mais em seus conhecimentos e competências. As ideias de Emília Ferreiro também justificam a presença de um ambiente alfabetizador desde cedo. Com base nessas afirmações, procurei durante todo ano proporcionar um ambiente alfabetizador. Sem perder de vista, em momento algum, em respeitar o direito da criança de ser criança.

 

Participante do Prêmio Educador Nota 10 – 2013

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