Jurema Dantas de Oliveira Hirsh

“A classe especial? Fica no final do corredor, naquele canto à esquerda, última porta!”.

Esta foi a única apresentação que encontrei no meu primeiro dia de aula.

O grupo, formado por seis alunos altamente entendidos dos assuntos que estavam ocorrendo no mundo, apresentavam um quadro de Paralisia Cerebral (Tetraplegia), faziam uso da prancha de comunicação alternativa, com uma “grita” constante em seus relatos do “querer estar junto” e compartilhar das mesmas oportunidades de acesso.

Devido ao comprometimento físico e a dificuldade de comunicação, este grupo foi direcionado a frequentar por mais de uma década escolas especiais e clínicas. Esta situação só se reverteu após uma batalha judicial travada pelas mães dos referidos discentes, que assim conseguiram a implantação da classe especial em uma escola regular.

A escola em si já havia traçado algumas ações, tais como: horários de entrada, intervalo e saída diferenciados, além, é claro, da localização da sala. A equipe gestora, inclusive o orientador educacional, procuravam através de suas boas ações “poupar” este grupo, mas devido aos muitos compromissos que envolvem o trabalho da direção, pouco tempo era dedicado às questões que envolviam esses alunos.

Diferente de tudo o que acabei de relatar, pude aproveitar esta falta de interferência e transformá-la numa ação de reinvenção e ousadia, FAZER DIFERENTE, pois o que estava posto até aquele momento, não atendia as necessidades daquele grupo.

Procurei ouvir mais os alunos e através desta parceria traçamos metas desejadas.

Conquistamos a ida ao intervalo, no mesmo horário dos demais alunos e nesta possibilidade encontrar nossos verdadeiros parceiros – ouvi-los nos sinalizou para uma ação desejada, e assim decidimos transformar a nossa sala em oficinas de dança, artes e teatro com inscrições para todos.

A partir de então, começamos a apresentar para a comunidade, através de produções, apresentações e contribuições, as competências deste grupo.

Paralelo às oficinas, iniciei uma proposta de formação para os funcionários/ professores/alunos, para que desta forma, pudéssemos fortalecer a parceria.

Nesta formação aos professores, estabelecemos critérios para a adaptação curricular, pautas individuais e ainda adaptação para os registros e produções.

No processo de formação com os alunos, além da conversa técnica sobre a deficiência e as particularidades, houve um forte investimento na ação multiplicadora de alunos tutores, com isso todos auxiliariam seus novos amigos com conhecimento real.

A ida para as salas de aula ocorreu em seguida ao investimento de formação, e as possibilidades foram criando corpo e força. Inicialmente realizei as adaptações, como texto em alternativas para escolha, cruzada em tela imantada para escrita de personagens principais e até um material dourado ampliado (feito com vara) para seleção unitária autônoma. Com este direcionamento, em pouco tempo os professores se apoderaram das orientações, deram continuidade às adaptações e iniciaram outras, e quantas boas contribuições foram possíveis de acrescentar ao processo, com o olhar de todos.

Os alunos se apropriaram de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais que transformaram a realidade daquela comunidade.

Para finalizar meu relato, digo com toda a certeza que garantir o acesso e permanência ao aluno no processo de inclusão em uma escola pública ou não, é possível, basta abrir-se para o reinventar, perceber e explorar as singularidades dos alunos e acreditar SEMPRE na capacidade de aprender de todos.

JUREMA DANTAS DE OLIVEIRA HIRSH, PROFESSORA DE AEE

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