Angélica Patussi

O Estudante A chegou na escola em 2007, no primeiro ano do ensino fundamental de 9 anos. Na época eu era a titular da turma quando ele chegou à escola. Chegou ele e a irmã e foram direcionados para a minha turma. Assumi a turma, trabalhei com ele. Quando o pai chegou à escola, no momento da matrícula, ele nos questionou, dizendo “se o Estudante A tiver algum tipo de problema, a escola é capaz de detectar esse problema?” 

A gente tranquilizou o pai. Disse “sim, se a gente perceber que ele tem algum tipo de problema a gente vai comunicá-lo e tomar as providências”. Eu trabalhei com o Estudante A e na época ele usava fraldas, não tinha controle… Era muito, muito difícil trabalhar com ele naquele momento, porque eu nunca tinha trabalhado ou tido uma experiência parecida com aquela.  

Ao mesmo tempo surgiu a necessidade de uma profissional, de uma professora para trabalhar com um aluno cadeirante, com paralisia cerebral, não tinha movimentos nos braços e pernas, não podia se alimentar… Ele precisava de auxílio para tudo. Ele precisava de uma professora na sala de aula o tempo todo para ajudá-lo. Ele também tinha crises nervosas e tinha que sair da sala com ele, dar uma caminhada. E o trabalho que eu tive com esse Estudante B foi em uma parceria muito grande com a Escola Especial, no contraturno. Eu visitava constantemente aquela escola no turno da manhã, via o tipo de trabalho que a professora desenvolvia lá e trazia aqui para a escola muita coisa. A gente conseguiu adaptar materiais que eles me forneceram, idéias que eles me davam, adaptadores para lápis, colméia para o computador, e que puderam me auxiliar na sala de aula.

No ano seguinte, eu comecei a coordenar disciplinas à tarde. Foi aí que começou a minha relação mais próxima com o Estudante A. A gente criou uma relação de afeto muito grande. Onde ele me vê ou eu vejo ele, a gente consegue trocar carinhos: ele vem e me abraça, me beija e eu tenho um carinho muito especial por ele. No segundo ano, foi começada uma orientação com a mãe para não usar mais fralda, de conversar mais com ele: “quando você sentir vontade peça para a Profe que a gente vai ao banheiro.” Algumas vezes não conseguia. Era necessário ir ao banheiro e dar-lhe banho, trocar a roupa. Foi colocado um chuveiro especialmente para dar banho no Estudante A. E sempre fui eu que fiz isso, com muito amor e muito carinho. Acho que foi por isso que a gente começou a ter essa relação de afeto e de troca. Durante o banho a gente conversava muito. Ele me contava muita coisa. E durante esse ano foram poucas as vezes que precisou de banho.

 

ANGÉLICA PATUSSI, PROFESSORA DE SÉRIES INICIAIS / COORDENADORA DO TURNO INTEGRAL

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: