Como dar nota a aluno com Síndrome de Down que não tem se desenvolvido?

Boa noite! Trabalho como mediadora de um estudante com Síndrome de Down que está no 6º ano do ensino fundamental. Desde o ano passado, fomos observando, eu e os professores dos componentes curriculares, que o estudante vem apresentando regressões em vários aspectos de seu desenvolvimento. A família, muito parceira, levou-o para uma série de avaliações e, recentemente, foi descoberto que ele tem uma doença degenerativa (adrenoleucodistrofia).

O MEC exige notas em seu boletim. Gostaria de saber como posso atribuir notas para um estudante que no dia a dia apresenta prejuízos em seu desenvolvimento e que, do meu ponto de vista, seria injusto avaliá-lo pelo que vem apresentando?

Faço relatórios trimestrais descrevendo como é o seu desenvolvimento.

Desde já agradeço.

Avaliação

2 respostas

Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 02/10/2018

Olá Mônica, identifico que seu questionamento requer muitos debates. Sabemos que dentro da escola existe a proposta curricular, são as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) são normas obrigatórias para a Educação Básica que orientam o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino com grades disciplinares e conteúdo. E que as avaliações pedagógicas precisam ser realizadas e utilizadas como instrumentos de real valor para promover a equidade de aprendizagem, garantindo que conteúdos básicos possam ser ensinados para todos os alunos. Não apenas avaliações que meçam ou classifiquem os desempenhos dos alunos promovendo rótulos: abaixo do básico, básico e avançado. Em pesquisa, identifiquei que os alunos que possuem cadastros de suas deficiências, como por exemplo no Sistema GEDAE- Cadastro de alunos da rede pública de S.P. são identificados para que não haja prejuízo em suas avaliações, principalmente nas avaliações externas. Mas, mesmo havendo essa identificação, as provas veem com os mesmos conteúdos e os alunos com deficiências as realizam. Relato uma experiência que vivenciei, quando o aluno com TEA que atendo no AEE recebeu umas dessas provas corrigidas e me mostrou, o mesmo olhou para mim com tristeza e indignação, pois a prova estava com a nota “01”. Então conversei com ele e informei que o mais importante era a sua dedicação e a vontade de aprender cada vez mais. Que cada aluno tem um ritmo de aprendizagem. Diante dessas situações relato a você que procuro realizar um trabalho de conscientização dentro das 02 escolas que atuo no AEE, para prevalecer a importância do acolhimento e fortalecimento de ações pedagógicas que possam integrar os alunos com deficiências para que os mesmos possam se sentir pertencidos ao ambiente escolar e respeitado dentro de suas potencialidades e limitações.

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Por Núcleo Mobilizador em 19/12/2018

Olá! Somos o Núcleo mobilizador, um grupo formado por estudantes com e sem deficiência, educadores, gestores escolares, militantes e especialistas em educação inclusiva cujo principal objetivo é representar a Comunidade DIVERSA.

Em primeiro lugar, é fundamental tomar cada aluno, individualmente, como referência para o processo avaliativo. E, portanto, investir na observação e no registro das especificidades de cada um dos estudantes. Não se restringindo ao saber acadêmico, mas considerando todos os aspectos que de alguma forma interferem em sua vida escolar. Por isso, é tão importante observa-los também durante o tempo livre, nos intervalos, não somente em sala de aula. E buscar, com a ajuda da família, resgatar elementos da história de vida e identificar aspectos do cotidiano que se manifestam fora da escola. Considerando, no caso dos estudantes com deficiência, o diagnóstico como mais uma característica a ser (ou não) considerada entre outras tantas. O que acontece muitas vezes, no entanto, é que o diagnóstico vira a única referência para a avaliação. Prática que quase sempre resulta em fracasso e exclusão.

Por exemplo, dizemos que a educação inclusiva demanda estratégias de avaliação diversificadas – o que é verdade, mas não é regra. Desenvolver uma prova diferente para um estudante só porque ele tem deficiência não vai, necessariamente, garantir equiparação de oportunidades. Pelo contrário. É preciso tomar cuidado pois há diferenciações que aumentam a desigualdade. Para evitar este risco, é preciso considerar a trajetória do estudante, para além do diagnóstico e dos aspectos acadêmicos, no planejamento dos objetivos de aprendizagem, das atividades para alcança-los e dos instrumentos para avalia-los.

O desafio de planejar objetivos e estratégias baseadas nas características do aluno precisa estar sempre associado a outro: de manter altas expectativas em relação à sua aprendizagem.

Tomaremos uma situação vivida por uma professora que participa do Núcleo Mobilizador para exemplificar a concretização de tais proposições na prática. A partir de um intenso processo investigativo cujo objetivo foi caracterizar o aluno em relação ao que estava previsto na BNCC para o respectivo ano escolar, a professora Gabriela Ikeda identificou que em algumas áreas do conhecimento – Ciências, História e Geografia – os instrumentos poderiam ser os mesmos utilizados com o restante do grupo, mas os procedimentos, diferentes. Por exemplo, para a avaliação de um bloco específico de expectativas de aprendizagem, os outros alunos receberam uma prova com 5 perguntas, enquanto o estudante em questão recebeu 5 provas com 1 pergunta em cada. As perguntas eram as mesmas, ou seja, o instrumento era o mesmo, mas o procedimento para sua aplicação diferente. Para isso, a professora considerou as características organizativas do aluno. Já em outras áreas – Português e Matemática – a professora precisou desenvolver instrumentos diferentes dos utilizados com os demais. É válido mencionar que a questão não eram os instrumentos em si, mas as expectativas de aprendizagem que, segundo ela, precisavam ser diferentes. A professora enfatizou que esse processo de elaboração tem participação fundamental da coordenação pedagógica, já que não se inicia do zero, mas a partir da documentação e registro da vida escolar do aluno nos anos anteriores. Mas que mesmo esses registros precisam ser encarados de maneira atenta e crítica, “para que as expectativas não sejam elaboradas de maneira enviesada, ou a carregar preconceitos, mantendo o olhar no aluno real, e não no ideal”. Ao elaborar as expectativas de aprendizagem, a professora considerou o direito do estudante de ter acesso ao mesmo currículo, trabalhando o mesmo conteúdo, mas considerando expectativas de aprendizagem diferentes, quando necessário. Por exemplo, ao trabalhar o sistema numérico decimal, uma das expectativas para os outros alunos era “reconhecer o valor dos números a partir da posição que ocupam”, enquanto para o estudante em questão era “reconhecer a lógica do sistema numérico decimal presente na organização do quadro numérico”… Por isso os instrumentos de avaliação eram diferentes também.

Em casos como o descrito por você, elaborar objetivos diferentes, quando necessário, com base nas especificidades do aluno, é fundamental para garantir uma avaliação inclusiva. Caso contrário, como dito pela referida professora: “ou o professor dá 10 e o aluno vira café com leite ou tira só notas baixas e é rotulado como quem não sabe nada”. E é preciso elabora-los de forma clara e objetiva, já que:

– São eles que vão organizar o trabalho do professor, impulsionar seu investimento na aprendizagem de cada um dos estudantes;
– É fundamental que o próprio estudante tenha ciência e compreenda do/o que se espera dele;
– São os critérios balizadores da avaliação.

Com base neste último, recomendamos que, ao atribuir notas, você não tome os outros estudantes como referência nem estabeleça comparações. Os critérios balizadores para a avaliação devem ser os objetivos planejados a partir das características do próprio aluno. Ou seja, a referência para a atribuição de notas é o próprio estudante, sua trajetória – de onde partiu e onde chegou, considerando o investimento feito pelo professor de sala e toda a comunidade escolar.

Sugerimos, também, que você busque envolver toda a comunidade escolar neste processo. Não só com o objetivo de possibilitar o êxito do referido aluno, mas também de fomentar o estabelecimento de uma cultura inclusiva, como um projeto coletivo de toda a escola.

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