Como atribuir nota a um aluno com deficiência intelectual que não acompanha a turma?

Tenho dúvidas em relação ao que fazer com um aluno que tem deficiência intelectual. Ele tem 17 anos, não é alfabetizado ainda e está cursando o 4º ano do ensino fundamental. A dificuldade é de ajudá-lo a compreender os assuntos trabalhados em sala. O sistema exige que eu atribua nota aos estudantes que estão nessa série, mas o que devo fazer já que ele não consegue acompanhar a turma? Ele está reprovando em algumas disciplinas e gostaria de saber se ele pode reprovar o final do ano letivo. Acredito que a comunidade pode me ajudar por ter mais conhecimentos sobre inclusão. Preocupo-me em fazer a coisa correta com esse aluno.

Avaliação

3 respostas

Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 12/07/2017

A proposta educacional inclusiva é aquela que considera TODAS as crianças e TODOS os adolescentes como titulares do direito à educação, sem discriminações. (Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos, 2004). Saiba que você pode e deve fazer muito para acolher e integrar esse aluno na sala de aula, ele não precisa ser reprovado ou ficar com notas vermelhas devido a sua dificuldade de aprendizagem. Não se preocupe em seguir “padrões de alfabetização” ou os “impostos pelo sistema”, como você mesmo relata. Eles não devem ser engessados, padronizados, pois todas as crianças e jovens têm o direito de frequentar as escolas, esse aluno é amparado por leis que favorecem sua inclusão:

“A nossa Constituição Federal elegeu como fundamentos da República a cidadania e a dignidade da pessoa humana (art. 1º, inc. II e III), e como um dos seus objetivos fundamentais a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, inc. IV). Garante ainda expressamente o direito à igualdade (art. 5º), e trata, nos artigos 205 e seguintes, do direito de TODOS à educação. Esse direito deve visar o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 205). Além disso, elege como um dos princípios para o ensino, a igualdade de condições de acesso e permanência na escola (art. 206, inc. I), acrescentando que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um (art. 208, V). Portanto, a Constituição garante a todos o direito à educação e ao acesso à escola. Toda escola, assim reconhecida pelos órgãos oficiais como tal, deve atender aos princípios constitucionais, não podendo excluir nenhuma pessoa em razão de sua origem, raça, sexo, cor, idade, deficiência ou ausência dela.”

Assim, identifico que a avaliação deve ser realizada de forma continua e integrada nas condutas dos alunos em seu desenvolvimento nos avanços que obtiveram durante o processo de ensino aprendizagem, sem estabelecer procedimentos isolados e formais, respeitando seu ritmo de atuação e conhecimentos. As estratégias escolhidas incluem sua participação direta e indireta aos temas abordados, nas pesquisas individuais e em grupos; elaboração de pequenas descrições escritas, elaboração de desenhos e frases, ou até mesmo de forma oral. A avaliação precisa ser desenvolvida com metodologia de comunicação assertiva no adaptar atividades e criar exemplos concretos e práticos para que a mesmo possa estabelecer relações, elaborar conclusões e adquirir segurança afetiva e confiança acerca de suas possibilidades e realizações. Deixo como indicação de leitura a cartilha “O acesso de alunos com deficiência às escolas e classes comuns da rede regular”.

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Por Equipe DIVERSA em 29/11/2018

Olá!

Selecionamos algumas referências diretamente relacionadas às suas perguntas que certamente poderão servir como subsídio para que você, juntamente com a equipe de sua escola, encontre soluções que realmente beneficiem o processo de inclusão deste e de outros alunos.

Há, no DIVERSA, uma sessão que fala especificamente sobre avaliação na educação inclusiva. Sugerimos que explore os conceitos apresentados, contextualizadamente, com a equipe de sua escola.

Este artigo, baseado em uma situação prática, fala sobre reprovação versus progressão automática e esta discussão sobre reprovação certamente também lhe interessará.

Há, ainda, um artigo que dá dicas sobre como atribuir notas a estudantes que não acompanham a turma.

Esperamos que estas referências possam suscitar boas reflexões e subsidiar discussões relevantes convergindo para respostas contextualizadas sobre os seus questionamentos.

Conte-nos mais sobre isso. E continue participando da comunidade.

Abraços carinhosos de toda a nossa equipe.

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Por Núcleo Mobilizador em 18/12/2018

Resposta:

Olá! Somos o Núcleo mobilizador, um grupo formado por estudantes com e sem deficiência, educadores, gestores escolares, militantes e especialistas em educação inclusiva cujo principal objetivo é representar a Comunidade DIVERSA.

Em primeiro lugar, é fundamental tomar cada aluno, individualmente, como referência para o processo avaliativo. E, portanto, investir na observação e no registro das especificidades de cada um dos estudantes. Não se restringindo ao saber acadêmico, mas considerando todos os aspectos que de alguma forma interferem em sua vida escolar. Por isso, é tão importante observa-los também durante o tempo livre, nos intervalos, não somente em sala de aula. E buscar, com a ajuda da família, resgatar elementos da história de vida e identificar aspectos do cotidiano que se manifestam fora da escola. Considerando, no caso dos estudantes com deficiência, o diagnóstico como mais uma característica a ser (ou não) considerada entre outras tantas. O que acontece muitas vezes, no entanto, é que o diagnóstico vira a única referência para a avaliação. Prática que quase sempre resulta em fracasso e exclusão.

Por exemplo, dizemos que a educação inclusiva demanda estratégias de avaliação diversificadas – o que é verdade, mas não é regra. Desenvolver uma prova diferente para um estudante só porque ele tem deficiência não vai, necessariamente, garantir equiparação de oportunidades. Pelo contrário. É preciso tomar cuidado pois há diferenciações que aumentam a desigualdade. Para evitar este risco, é preciso considerar a trajetória do estudante, para além do diagnóstico e dos aspectos acadêmicos, no planejamento dos objetivos de aprendizagem, das atividades para alcança-los e dos instrumentos para avalia-los.

O desafio de planejar objetivos e estratégias baseadas nas características do aluno precisa estar sempre associado a outro: de manter altas expectativas em relação à sua aprendizagem.

Tomaremos uma situação vivida por uma professora que participa do Núcleo Mobilizador para exemplificar a concretização de tais proposições na prática. A partir de um intenso processo investigativo cujo objetivo foi caracterizar o aluno em relação ao que estava previsto na BNCC para o respectivo ano escolar, a professora Gabriela Ikeda identificou que em algumas áreas do conhecimento – Ciências, História e Geografia – os instrumentos poderiam ser os mesmos utilizados com o restante do grupo, mas os procedimentos, diferentes. Por exemplo, para a avaliação de um bloco específico de expectativas de aprendizagem, os outros alunos receberam uma prova com 5 perguntas, enquanto o estudante em questão recebeu 5 provas com 1 pergunta em cada. As perguntas eram as mesmas, ou seja, o instrumento era o mesmo, mas o procedimento para sua aplicação diferente. Para isso, a professora considerou as características organizativas do aluno. Já em outras áreas – Português e Matemática – a professora precisou desenvolver instrumentos diferentes dos utilizados com os demais. É válido mencionar que a questão não eram os instrumentos em si, mas as expectativas de aprendizagem que, segundo ela, precisavam ser diferentes. A professora enfatizou que esse processo de elaboração tem participação fundamental da coordenação pedagógica, já que não se inicia do zero, mas a partir da documentação e registro da vida escolar do aluno nos anos anteriores. Mas que mesmo esses registros precisam ser encarados de maneira atenta e crítica, “para que as expectativas não sejam elaboradas de maneira enviesada, ou a carregar preconceitos, mantendo o olhar no aluno real, e não no ideal”. Ao elaborar as expectativas de aprendizagem, a professora considerou o direito do estudante de ter acesso ao mesmo currículo, trabalhando o mesmo conteúdo, mas considerando expectativas de aprendizagem diferentes, quando necessário. Por exemplo, ao trabalhar o sistema numérico decimal, uma das expectativas para os outros alunos era “reconhecer o valor dos números a partir da posição que ocupam”, enquanto para o estudante em questão era “reconhecer a lógica do sistema numérico decimal presente na organização do quadro numérico”… Por isso os instrumentos de avaliação eram diferentes também.

Em casos como o descrito por você, elaborar objetivos diferentes, quando necessário, com base nas especificidades do aluno, é fundamental para garantir uma avaliação inclusiva. Caso contrário, como dito pela referida professora: “ou o professor dá 10 e o aluno vira café com leite ou tira só notas baixas e é rotulado como quem não sabe nada”. E é preciso elabora-los de forma clara e objetiva, já que:

– São eles que vão organizar o trabalho do professor, impulsionar seu investimento na aprendizagem de cada um dos estudantes;
– É fundamental que o próprio estudante tenha ciência e compreenda do/o que se espera dele;
– São os critérios balizadores da avaliação.

Com base neste último, recomendamos que, ao atribuir notas, você não tome os outros estudantes como referência nem estabeleça comparações. Os critérios balizadores para a avaliação devem ser os objetivos planejados a partir das características do próprio aluno. Ou seja, a referência para a atribuição de notas é o próprio estudante, sua trajetória – de onde partiu e onde chegou, considerando o investimento feito pelo professor de sala e toda a comunidade escolar.

Sugerimos, também, que você busque envolver toda a comunidade escolar neste processo. Não só com o objetivo de possibilitar o êxito do referido aluno, mas também de fomentar o estabelecimento de uma cultura inclusiva, como um projeto coletivo de toda a escola.

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