Escritor Emílio Figueira defende educação inclusiva em suas obras

Dentre mais de 80 títulos do autor, mais de dez discutem o tema e os direitos das pessoas com deficiência no país

“Desde os anos 1980, participo do movimento das pessoas com deficiência no Brasil. Época que, ainda na máquina de escrever, datilografando com um único dedo, comecei a redigir artigos e textos de opinião sobre todas as questões que nos envolviam.”

Foto em preto e branco de Emílio Figueira aos nove anos, sentado em sua primeira mesinha de trabalho, datilografando em uma máquina de escrever portátil. Fim da descrição.
Foto: Acervo pessoal.

É assim que Emílio Figueira, descreve o início de sua carreira como escritor. Aos 50 anos, já possui mais de 80 obras publicadas, desde livros científicos, de psicologia e pedagogia, até romances e obras infanto-juvenis. Em dezoito de seus livros, Figueira defende a inclusão e a educação inclusiva: “Digo que incluir não tem segredo. Basta receber um aluno, seja ele quem for”.

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Devido a uma complicação no parto, Emílio possui paralisia cerebral e conta, no livro “O Caso do Tipógrafo – Crônicas das minhas memórias”, suas experiências de vida e acadêmicas como uma pessoa com deficiência nascida no final da década de 1960.

Além de compartilhar seus conhecimentos e vivências em suas produções textuais, o escritor ainda participa de palestras, seminários e congressos sobre educação inclusiva e já disponibilizou gratuitamente conteúdos de formação on-line, como um apoio para que os professores entendam melhor o assunto e saibam como trabalhar com todos os estudantes.

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O vasto acervo de Emílio Figueira está disponível para acesso gratuito em: acervoinclusicoemiliofigueira.blogspot.com. Por conta de sua contribuição para a educação inclusiva, e em comemoração ao Dia do Escritor, em 25 de julho, o DIVERSA realizou uma entrevista com o autor, que também atua como jornalista, psicólogo e teólogo.

Confira, na íntegra, a entrevista concedida ao DIVERSA e trechos da biografia do autor:


DIVERSA – Por que você decidiu estudar diferentes áreas? Em qual delas você atua neste momento?

Emílio Eu sou formado em jornalismo, psicologia e teologia. Tenho cinco pós-graduações e dois doutorados, um em psicanálise e outro em teologia. Eu sempre fui movido pela curiosidade e vontade de aprender. Acho que é por isso que trafego por várias áreas. Agora, depois dos 50 anos, resolvi me dedicar em consolidar minha carreira de escritor. E vou continuar a alimentá-la mesmo conhecendo todos os meandros e dificuldades da minha profissão! Ainda possuo o sonho de ser contratado por uma grande editora e poder me dedicar só ao ato de escrever, sendo distribuído nacionalmente. Sonho em trabalhar em um grande jornal como cronista ou colunista. Não desisti de ser um roteirista de cinema e televisão, dramaturgo no teatro, embora saiba que tenho que estudar mais se quiser desbravar meu caminho nos campos audiovisuais e cênico.

Como se iniciou o interesse por ser escritor? Existe algum livro que te inspirou?

Entre seis e sete anos, eu já escrevia historinhas, poesias, queria pesquisar em livros. Então digo que foi algo natural que nasceu comigo. Ao longo do tempo, fui sendo influenciado por diferentes autores entre literários, filósofos ou científicos. Cada época é diferente.

Quantas obras você já escreveu até hoje? De quais gêneros elas são?

Já são mais de 80 títulos publicados. Nesse contexto, tenho livros científicos, de psicologia e pedagogia, mas também literários, romances, contos, poesias, infanto-juvenis. Além de nove peças teatrais montadas e roteiros para cinema e televisão.

Por qual motivo você começou a escrever sobre educação inclusiva?

Desde os anos 1980, participo do movimento das pessoas com deficiência no Brasil. Época que, ainda na máquina de escrever, datilografando com um único dedo, comecei a redigir artigos e textos de opinião sobre todas as questões que nos envolviam. Esses textos eram enviados espontaneamente para muitos jornais e revistas, sendo em sua grande maioria publicados. Período também em que fui colaborador das primeiras publicações brasileiras voltadas exclusivamente ao assunto, o jornal carioca “Desafio de Hoje” e a revista paulista “Integração”, ambos já extintos. Dali, defini qual seria minha principal atividade pelas décadas seguintes: ser um divulgador das informações e novidades que envolvem as pessoas com deficiência. E por ser de uma família formada exclusivamente de pedagogas, começar a escrever e defender a educação inclusiva foi um pulo.

Como você acredita que suas publicações sobre educação inclusiva podem contribuir para a área?

Sempre escrevendo para vários blogs e sites, baseado em minha experiência de um jornalismo especializado, fundei o portal de notícias “Educação Inclusiva Em Foco”, que cresceu muito e hoje está incorporado ao meu blog principal.

Convidado para palestras, já viajei por todo o país, sempre falando em escolas, universidades, instituições, seminários e congressos, para muitas plateias de professores, pedagogos, psicólogos, profissionais em geral, público diverso, famílias e pessoas com deficiência. E aqui está um dos meus maiores pontos de superação. Essas viagens são feitas sozinho. Enfrento rodoviárias, aeroportos, preciso me comunicar com pessoas que não me conhecem, fico sozinho em hotéis, preciso me virar, principalmente nas refeições. São como aventuras, sempre rumo ao desconhecido, sinto-me tão livre e independente!

Emílio Figueira de pé e de costas para a câmera, diante de uma grande plateia de pessoas sentadas. Fim da descrição.
Foto: Acervo pessoal.

Em 2018, comecei a levar às palestras o meu documentário “Sementes de Minha Inclusão”. Promovendo debates logo após as apresentações com estudantes, educadores, além de participar de várias formações de professores da Prefeitura Municipal de São Paulo. Para minha surpresa, mais de quarenta escolas e formações pedagógica me chamaram para exibi-lo no prazo de dois meses.

Faço esse trabalho como se fosse um sacerdócio, não ganho nada em termos de remuneração financeira. A minha maior felicidade e recompensa é saber que já ajudei a formar mais de 22 mil professores no Brasil e exterior, sendo grande parte da região norte e nordeste. E minha maior alegria é saber que essa missão, realizada de maneira solitária daqui da mesa do meu quarto, na outra ponta, está ajudando tantas e tantos alunos com deficiência.

Emílio ao centro da imagem, sentado de pernas cruzadas em cadeira no seu quarto, enquanto lê livro. Fim da descrição.
Foto: Acervo pessoal.

Na escola, quais barreiras você encontrou quando criança e adolescente?

Posso dizer que conheci os dois lados da educação. Quando fiquei com paralisia cerebral durante o meu parto no final dos anos 1960, com sérios danos na fala e na coordenação motora, para grande parte das pessoas que me conheciam e para minha família eu já estava com o meu destino traçado. Ser dependente das outras pessoas, isolado dentro das instituições. Ainda mais naquela época onde nós, pessoas com deficiência, vivíamos totalmente excluídos da sociedade.

Após onze anos de intensos tratamentos e isolamento social, fui morar com meus avós em uma pequena cidade interiorana, sendo incluído em uma escola comum e fazendo muitos amigos. Ali conheci o que hoje chamo de inclusão escolar pela afetividade. O que hoje é o ponto central da visão que defendo.

Como você acredita que estas barreiras poderiam ser eliminadas atualmente, para que toda criança tenha acesso a uma educação de qualidade?

Ainda é muito difícil trilhar o processo de inclusão nas escolas, onde parte da equipe não se entrosa nessa luta. Existem muitas barreiras atitudinais não só do acesso ao estudante, como o de professores com deficiência. Temos que romper com muitas questões, principalmente culturais.

Levando em conta sua experiência pessoal, qual você acredita ser o papel do professor no processo de criação de ambientes escolares inclusivos?

Defendo em meus escritos e palestras a Educação Inclusiva realizada pela afetividade. Digo que incluir não tem segredo. Basta receber um aluno, seja ele quem for. Acolher com amor, ter a sensibilidade de perceber e pesquisar o que ele realmente precisa de apoio para se desenvolver em todos os sentidos. Um bom professor precisa ser um suporte seguro que lança seus alunos rumo às infinitas possibilidades.

Tendo em vista que hoje temos mais estudantes com deficiência matriculados em escolas comuns do que em escolas especiais, o que ainda precisa ser alcançado para que todos tenham acesso a uma educação de qualidade?

Principalmente as mudanças de mentalidade. Após tantas palestras pelo país e milhares de alunos em meus cursos, encontrei muita gente bacana, professores realmente comprometidos com a profissão, que amam o que fazem e vão a busca de crescerem, evoluírem cada vez mais. Só que, infelizmente, também encontro muita gente que só reclama, vitimizam-se por tudo, com uma mente ainda assistencialista. Ao longo desse tempo, fui percebendo que há duas visões. A visão tradicionalista do ensino, é por isso eles não veem como encaixar os alunos inclusivos nela e por isso declaram que não conseguem lidar com a inclusão. E existe a visão dos professores abertos às mudanças, ao novo e, diante qualquer aluno, vão se informar, conviver, descobrir e buscar todas as potencialidades de corações abertos. Graças a Deus que os bons e verdadeiros professores são a maioria!

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