Totó humano: adaptação do pebolim entretém e inclui dezenas de alunos

A Escola Municipal Tasso da Silveira já contava com a acessibilidade física necessária para receber a todos: elevadores, banheiros adaptados, piso tátil, sinalização em braille e bebedouros acessíveis. A partir de nossa participação no curso de formação Portas abertas para a inclusão 2016 ampliamos nossa atuação, garantindo não só o acesso, mas também a socialização e o aprendizado das crianças e adolescentes com deficiência. Nosso primeiro passo foi desenvolver um projeto de educação física inclusiva que envolveu os estudantes na prática do totó humano, uma versão do jogo de pebolim praticado na quadra.

Localizada na cidade do Rio de Janeiro (RJ), a Tasso da Silveira atendia cerca de 850 alunos do ensino fundamental e da educação de jovens e adultos (EJA). Por contar com um instrutor de Língua Brasileira de Sinais (Libras) na sala de recursos, a unidade era considerada um polo bilíngue. Ali, três crianças surdas de outras escolas da região recebiam atendimento educacional especializado (AEE), além de nossos próprios estudantes com deficiência: três com deficiência auditiva, três com deficiência física, quatro com deficiência intelectual e quatro com transtorno do espectro autista (TEA).

Onze turmas do 6º ao 9º ano participaram do projeto. Antes de praticar o totó humano, os 600 alunos envolvidos participaram de atividades teóricas de sensibilização e conscientização sobre inclusão de pessoas com deficiência. As ações foram planejadas e desenvolvidas por uma equipe formada pelas docentes de educação física e do AEE, pela coordenadora pedagógica e pelas duas diretoras da escola.

 

Conscientização antes da prática

Mural com cartazes mostra trabalhos dos estudantes sobre inclusão e pessoa com deficiência.
Os estudantes criaram um mural com informações sobre inclusão de pessoas com deficiência. Foto: Pat Albuquerque.
As classes do 8º e do 9º ano receberam a tarefa montar um painel com dados relativos às pessoas com deficiência. Eles pesquisaram informações sobre a população mundial e brasileira com algum tipo de deficiência e os principais direitos garantidos a esse público na legislação vigente. Os adolescentes também mapearam os recursos de acessibilidade da unidade e fizeram um estudo comparativo com a realidade da comunidade no entorno, identificando possíveis soluções para diminuir as barreiras.

Em seguida, os estudantes selecionaram as informações e passaram à confecção do mural. Foram criados pequenos textos explicativos, mapas, ilustrações e gráficos, que ficaram expostos para a Tasso da Silveira. Da pesquisa à montagem do painel, a atividade permitiu que os alunos criassem em conjunto uma postura de consciência com relação aos direitos das pessoas com deficiência.

Na última ação teórica do projeto exibimos o filme “Colegas”, sobre um grupo de jovens com Síndrome de Down, e realizamos uma roda de conversa sobre as impressões da obra.

 

O totó humano

A parte prática do projeto ficou por conta da criação dos jogos. Durante um mês, a professora de educação física experimentou várias atividades com as turmas. Ao final de cada aula, os adolescentes conversavam sobre quais atividades permitiam mais a participação de todos. Ao final do mês, o totó humano se destacou, sendo avaliado pelos estudantes como “bonzão”, “maneiro” e “diferente”.

Estudantes de mãos dadas se posicionam em quadra como peças de uma mesa de pebolim. Eles estão divididos em dois times, caracterizados pelos coletes azuis e vermelhos. Há duas fileiras de cada time intercaladas.
Para jogar o totó humano, alunos foram divididos em fileiras. Foto: Pat Albuquerque.
• Totó humano: a atividade foi inspirada no totó de mesa, também conhecido como pebolim. Na prática do totó humano, cada time formou três fileiras com seis jogadores. As seis filas se posicionaram de modo intercalado na quadra. Assim, cada uma das duas equipes ficou com uma linha de defesa, uma de meio-campo e uma de ataque. Os alunos de uma mesma fileira deveriam ficar de mãos dadas durante todo o jogo.

A partida era iniciada com a saída da bola de futebol do fundo da quadra. Como no jogo de mesa, os adolescentes deveriam usar os pés para passá-la para os jogadores do seu time até o gol adversário. Estabelecemos que seria proibido soltar as mãos, roubar a bola de quem estava atrás e chutar forte ou para o alto. Era permitido se deslocar um pouco à frente, desde que alguém da fileira permanecesse com os pés sobre a linha. Conforme o jogo avançava, as filas eram trocadas: a defesa tornava-se a meio-campo, a fileira do meio ia para o ataque e a linha da frente voltava para a defesa.

Veja como foi realizado o totó humano na Escola Municipal Tasso da Silveira:

O vídeo está disponível com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição.

 

Resultados e próximas ações

As práticas desenvolvidas ao longo do projeto tiveram como objetivo principal favorecer a participação de todos. Foram os próprios estudantes que testaram, sugeriram e avaliaram constantemente as atividades de acordo com essa premissa. Ao envolvê-los ativamente na construção das regras do totó humano, ninguém foi deixado no banco, esperando sua vez. Afastando-se do rigor da técnica, foram valorizados movimentos naturais como segurar, lançar, deslocar-se, chutar, equilibrar-se com apoio do colega etc., e com isso não houve exclusão por habilidade. Outro ponto de destaque foi que a prática favoreceu a inclusão das garotas, que geralmente ficavam de fora do futebol tradicional.

Quatro adolescentes usando coletes azuis e de mãos dadas em linha comemoram.
Uma das preocupações foi também incluir as garotas na atividade. Foto: Pat Albuquerque.
Onze alunos com alguma deficiência foram envolvidos na iniciativa. Kamille, que tem deficiência física, apresentava resistência em participar das aulas de educação física. Depois do totó humano, seu interesse aumentou e ela passou a interagir com seus colegas em todos os espaços da escola. Douglas, com deficiência intelectual, também era mais contido e agora aparenta mais entusiasmo em estar com os amigos. Huendell, que tem transtorno do espectro autista (TEA), apresentou um progresso muito grande e suas dificuldades na realização das atividades propostas têm sido superadas com a ajuda da turma.

Para dar continuidade às discussões e ações para incluir a todos, pretendemos instituir um fórum permanente na unidade. A ideia é criar um espaço aberto para que a comunidade escolar possa expor suas opiniões, vivências, dúvidas, anseios e inseguranças com relação à inclusão educacional dos alunos com deficiência. Além disso, o totó humano e outras atividades experimentadas foram incorporadas ao currículo oficial da escola; para permitir que outros professores possam dar sequência à experiência, pretendemos criar um dossiê de práticas inclusivas da Tasso da Silveira.

Projeto participante do curso Portas abertas para a inclusão. Esta experiência faz parte da Coletânea de práticas 2016.

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  • Werlane Fernandes

    Quero parabenizar a professora e a escola pela iniciativa e dizer que, baseado nos relatos e nas imagens que obtive , já estou fazendo adaptações nas minhas aulas e, de acordo com minha realidade, estou implantando na escola municipal em Itabira MG.