Tatiana de Cassia Gennari Sparapan

Meu nome é Tatiana, sou graduada em Letras e especialista em deficiência auditiva, trabalho em duas escolas como interlocutora de Libras, no período da manhã com o aluno P., 5º ano, e no período da tarde com o aluno W., 3º ano do ensino médio, ambos surdos.O relato é sobre o aluno P.

No início do ano de 2012, no mês de fevereiro, tive o meu primeiro contato com meu aluno P.. Ele têm 10 (dez) anos de idade, mas à primeira vista fiquei muito surpresa pois ele não entendia meus sinais! Nossa, que desafio! Eu tinha certeza que com 10 (dez) anos ele teria uma boa noção da Libras mas foi totalmente o contrário. Depois conversando com as ex-professoras dele, percebi que a escola era um local de "turismo" para ele, pois ele faltava muito, não havia uma pessoa que soubesse realmente sinais e por isso ele tinha muita dificuldade de aprendizagem! Foi um desafio maior!

Eu perguntava coisas bem básicas: qual é o seu nome? Idade? E ele ficava me olhando, não falava nem que sim e nem que não. No mês de março, ele já foi se acostumando com minha presença e fui percebendo avanços. Ele começou a ter um contato melhor com os amiguinhos, pois ele não sabia o nome deles! Eu fiquei chocada com isso, o nome é a identidade de qualquer pessoa.

Pensei em estimular a comunicação primeiro, pedi licença para a professora e uns 10 (dez) minutos antes do recreio, eu passava alguns sinais para as crianças (alfabeto, cores, números…). Com o passar do tempo, fui percebendo a melhora na socialização do aluno P. Quando o P. estava aprendendo um pouquinho, a mãe foi à escola para me conhecer e fiquei feliz por ter esse contato. Para minha surpresa, na semana seguinte, a mãe decide mudar o aluno de escola, porque a escola ficava muito longe da casa onde eles moram (isso já era o mês de abril), foi mais uma surpresa! Mudamos de escola e começou tudo outra vez, o aluno P. se adaptou bem e a nova turminha também nos recebeu de braços abertos. Continuei mais intensivamente o contato com a professora da sala de AEE que o aluno P. frequentava no período contrário da escola. Foi feito um caderninho de recados para a mãe e para a professora de AEE e sempre que posso, vou me comunicando com elas.

Hoje vejo que ele sabe escrever seu nome completo em letra cursiva, coisa que ele só fazia em letra bastão, ele também sabe me responder  a perguntas como: qual é o dia de hoje? Qual é o dia da semana? O mês? Ano? Tudo o que ele vê na TV ele quer me contar. Ficou muito tagarela! (ainda bem!) A socialização com a sala e com a escola foi ótima! No começo a nova professora, não me aceitou muito bem, mas hoje tenho uma ótima convivência com ela e o aluno P. dificilmente falta. A mãe é muito participativa, a família é ouvinte e ninguém sabe Libras. Sempre que posso, converso com a mãe sobre isso, pois o aluno P. está crescendo e o período da adolescência é cheio de mudanças. A conversa com o filho deve estar em primeiro lugar: aprender Libras é essencial!

Consegui com o apoio da escola, que ele voltasse a frequentar o atendimento com a fonoaudióloga e, como a mãe trabalha, quem o leva sou eu, toda quinta-feira.

Nesse ano, foram muitas mudanças, ainda bem que foram boas! Ele é um aluno que tem muita dificuldade até para copiar da lousa, mas em comparação com o inicio do ano, ele evoluiu muito!

Trabalhar com alunos surdos ou com deficiência auditiva, requer muita paciência. Eu amo o que eu faço, por isso tenho bons resultados! A cada dia aprendo várias coisas novas, tenho muito o que aprender. Eu sempre falo aos meus colegas que sozinha não faço nada, eu dependo dos professores que trabalham comigo, da escola, do meu aluno e da família, somos uma equipe que precisa estar em união para se obter bons resultados.

Participante do Prêmio Educador Nota 10 da Fundação Victor Civita/2012.

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