Música mobiliza alunos surdos e ouvintes

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Raposo Tavares, a música dá o tom e determina o ritmo dos períodos de entrada, intervalo e saída. Há anos, a escola decidiu substituir os apitos das sirenes pela melodia das canções, para tentar tranquilizar os estudantes durante os períodos de maior movimentação e circulação. Tempos depois, a equipe gestora da unidade percebeu o potencial pedagógico dessa prática e apresentou uma proposta de projeto para professores, funcionários e alunos – utilizar esses momentos para apresentar diversos gêneros musicais e aprofundar o estudo desses estilos em sala de aula.

A escola se localiza no bairro Vila Boa Vista, em Barueri (SP), em uma área urbana. A comunidade é formada por moradores de classe média que, em geral, têm interesse e se envolvem nas atividades escolares. A unidade atende cerca de 600 crianças e adolescentes do ensino fundamental nos períodos matutino e vespertino. O projeto de educação musical foi realizado com as turmas do 3º, 4º e 5º anos, onde estudavam sete estudantes surdos, um com Síndrome de Down e outro com transtorno do espectro autista (TEA).

 

A música através do currículo

Durante os horários de entrada, saída e intervalo, as músicas foram executadas pelo sistema de som para toda a escola. A cada semana, um diferente gênero foi apresentado e, dependendo das atividades interdisciplinares envolvidas, um mesmo estilo foi ouvido por até duas ou três semanas, para que fosse possível estudar a variedade de compositores e intérpretes. A ordem de apresentação escolhida pelos professores foi: música erudita, samba, bossa nova, MPB, jazz, canções folclóricas, sertanejo, gospel, jovem guarda, rock nacional, country, eletrônica, rap, reggae e rock internacional. Os alunos acrescentaram à lista o metal, o blues, o heavy metal, o sertanejo universitário e o pop.

Nas aulas de educação musical, os estudantes realizaram pesquisas sobre o estilo da semana e assistiram a filmes sobre a cultura musical de várias partes do país e do mundo e sobre compositores e cantores famosos. Na sala audiovisual, eles também tiveram contato com os instrumentos e puderam tocar, dançar e cantar as canções. Os trabalhos foram compartilhados com os demais estudantes em exposições no pátio da unidade e, ao final do projeto, houve apresentações de dança.

Essas estratégias foram elaboradas para atingir os seguintes objetivos:

• Ampliar o repertório musical dos alunos, desenvolvendo a capacidade de produzir e analisar criticamente produções de diferentes épocas, estilos e culturas;

• Valorizar a música como área de conhecimento e também como um instrumento de formação e transformação das crianças, com a intenção de torná-los cidadãos críticos e sensíveis.

Além da educação musical, outras disciplinas se envolveram no projeto. Em história e geografia, os professores trabalharam a história da música e a relacionaram aos estados ou países de origem do gênero da semana. Em matemática foi explorado o conceito de compasso e em ciências, a acústica. Nas áreas de língua portuguesa e artes, os alunos analisaram as letras das canções, compuseram seu próprio rap e confeccionaram os materiais para as apresentações. Já os docentes de educação física deram apoio às atividades de dança e promoveram brincadeiras relacionadas ao ritmo e ao som.

 

Flexibilizações para estudantes surdos

Nossa maior dificuldade foi conseguir o envolvimento de todos, já que nem todos acreditavam que a música pudesse ter significado para as crianças com deficiência auditiva. Para derrubar essa barreira, realizamos um trabalho de conscientização, para que compreendessem que todos têm possibilidades musicais. Superado esse desafio, houve uma participação efetiva da comunidade escolar.

Houve flexibilizações para os estudantes surdos participarem. O toque foi um dos parâmetros escolhidos para as adaptações. Na sala audiovisual, eles foram incentivados a sentir as vibrações dos instrumentos musicais e da caixa de som e tocaram os instrumentos de percussão. Já para as atividades lúdicas foram escolhidas brincadeiras que, além da relação com o ritmo e o som, apresentassem um forte aspecto visual, como por exemplo, o jogo de mãos e copos. Nos trabalhos em equipe com os colegas, os alunos escreviam, desenhavam, recortavam e colavam cartazes com ilustrações.

As atividades foram realizadas em grupos, com as crianças sentadas no chão, formando um círculo ou um semicírculo. Com essa formação, todos puderam interagir entre si. Com relação aos estudantes com Síndrome de Down e com autismo, não houve impedimentos, nem a necessidade de flexibilizações.

 

Envolvimento e avaliação

As crianças demonstraram interesse nas atividades e apresentaram sugestões de estilos musicais e materiais para serem utilizados durante as aulas. Eles participaram ativamente de cada etapa e se surpreenderam com a diversidade cultural da música brasileira e internacional. Muitos pais trouxeram CDs para a escola, de acordo com os estilos da semana. No ponto culminante do projeto, realizamos um evento com a exposição dos trabalhos e apresentações de danças de diversos gêneros para toda comunidade.

Avaliamos que os estudantes compreenderam diversos contextos históricos, sociais e geográficos específicos relacionados a cada gênero musical. Eles vivenciaram a música como expressão e comunicação por meio da improvisação, da composição e da interpretação. Souberam utilizar diversas fontes de informações e recursos tecnológicos para construir seus conhecimentos, trabalhando em grupo.

Com todo esse envolvimento e trabalho em equipe, os alunos obtiveram uma gradual melhora na disciplina. Após a conclusão do projeto, a escola continuou a usar a música durante os momentos de intervalo. A execução aleatória foi abandonada e a cada semana os alunos acompanham, por meio de um cartaz fixado no pátio, qual o gênero musical da vez.

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