Dança contemporânea explora movimentos de aluno cadeirante

Reportagem sobre o projeto Cidadão Dançante.

Eu, Marcos Pitanga, coreógrafo, pesquisador em dança contemporânea, ao entrar para rede pública de educação, propus esse projeto com o objetivo de possibilitar vivências diversificadas para que os estudantes pudessem conhecer seu corpo e compreender as relações que são estabelecidas entre o fazer, o conhecer e o apreciar a dança e o teatro. Uma vez que o corpo fala, é fundamental estar em contato com a arte na escola através da dança, pois uma escola de qualidade é um espaço em que se constroi para a liberdade, para a autonomia e para o conhecimento. Este é um estudo que tem elementos para reavaliar nossos preconceitos e pensar na deficiência como uma potencialidade a ser desenvolvida e não estigmatizada.

Ostracismo é o afastamento (imposto ou voluntário) de um indivíduo do meio social ou da participação em atividades que antes eram habituais. Perguntei na sala de aula quem gostaria de participar do projeto cidadão dançante. Um aluno timidamente tentou levantar as mãos e junto com sua cuidadora tentou verbalizar: “Eu quero”. Fiquei paralisado, pois nunca havia pensado naquela possibilidade, uma vez que se tratava de um aluno com deficiência física. Fiquei uma semana pensando naquele estudante.

Minha vida havia se transformado ali, naquele instante, pois não havia mais retorno. Ele não era somente minha salvação, mas sobretudo, minha necessidade de transbordar. Nossa relação nos momentos de pesquisa no Laboratório de Informática da escola, apesar do espaço inadequado, era de total harmonia e êxtase, dado o grande prazer de troca com tanta informação surgindo. Começamos ali uma jornada com toda dificuldade que não cabe aqui relatar. Assim nasceu o espetáculo “A Ostra”, um corpo que cria forma, transforma em arte e produz conhecimento.

São inúmeras as perguntas para esse corpo com gestual quebrado, sem eixo, sem força, mas que transborda e se relaciona. Essa proposta tenta colocar o corpo como um ser desnudo para uma reflexão sobre o isolamento em que vive. Isolamento criado não por ele, mas por nossa sociedade. E assim, como uma ostra que se esconde com medo de não ser aceita, desconhecendo o fato de que produz joia rara, quando se abre, transborda para todos os lados. Como performer em dança contemporânea e educador, proponho trazer esse projeto para dentro dos muros da escola, dado o diálogo íntimo entre a dança contemporânea e a verdadeira educação inclusiva. Ambas têm interesse na investigação de novas possibilidades de sujeitos, ideias, corpos e pensamento. Podemos nos arriscar a dizer que a inclusão é um processo emergente e cabe à escola, ao Estado e à sociedade buscar novas formas de encarar a realidade e transformá-la de maneira consciente.

Para que a educação inclusiva de fato aconteça, o fundamental é que ela se firme como espaço privilegiado das relações sociais para todos. Além disso, a verdadeira inclusão escolar e social implica, essencialmente, a vivência de sentimentos e atitudes de respeito ao outro como cidadão. Dado a importância da inclusão desses sujeitos, proponho a continuidade desse projeto com crianças com deficiência na escola pública. Um trabalho de dança contemporânea que dê possibilidade a esses sujeitos de transbordar toda sua potencialidade, a fim de amenizar o desconforto sofrido por pessoas com todo e qualquer tipo de deficiência no ambiente escolar no Brasil.

Por ser uma comunidade escolar de grande risco social, o espaço da escola mostra claramente a vulnerabilidade dos seus alunos. O resultado dessa problemática social é o não aprendizado, a violência, entre outros. Nesse contexto, sugeri a reconstrução da autoestima desses sujeitos por meio da dança, da arte, ou seja, usar o corpo para falar de pluralidade, pois tanto os movimentos corporais quanto os biótipos deixam em evidência os aspectos sociopolíticos culturais fundamentais para reconstrução de uma nova possibilidade na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

O projeto foi organizado junto com a equipe técnico-pedagógica, por meio de reflexões sobre os temas da pesquisa de uma pesquisa sobre inclusão. Em seguida, foi socializado com todos os professores da educação infantil, para que os alunos da escola pudessem participar de forma efetiva do tema abordado. Uma segunda etapa do projeto foi o fomento da pesquisa junto às escolas municipais com o trabalho apresentado, para que a inclusão seja potencializada efetivamente através da performance e reflexões.

Desde que me tornei professor efetivo da rede municipal de Vitória, a equipe gestora conhecia meu trabalho artístico como pesquisador e coreógrafo. Sabendo do risco social da comunidade, fui convidado por essa equipe para tentar achar um meio de amenizar essas questões por meio da arte.

O processo de pesquisa aconteceu no laboratório de informática da escola, uma vez que ela não dispõe de espaço adequado para a realização das dinâmicas corporais. Nos encontramos duas vezes por semana para trocar conhecimento: dinâmicas de corpo, contato e improvisação são a base da construção do que se quer dizer. Milhares de informações novas vão surgindo, como células de movimentos que vão se repetindo, dando origem a um percurso (roteiro), para a construção da performance.

Cadeirante, com paralisia cerebral, o estudante tem 11 anos e, na culminância do projeto, protagonizou na Escola Municipal de Ensino Fundamental Mauro Braga, no bairro Santa Teresa, o espetáculo “A Ostra”, numa analogia à beleza que se encontra no interior do molusco quando ele se abre. Até ganhou elogio do jornalista e formador de opinião Heródoto Barbeiro, em nível nacional. A pérola que encantou todos na época agora influencia outros, como o garoto Felipe, de 9 anos, que tem Síndrome de Down.

Com resultados tão positivos esse projeto merece continuar e ser apoiado, uma vez que a inclusão social no Brasil, infelizmente, ainda requer políticas públicas comprometidas para amenizar toda o problema social que vivem as pessoas com deficiência no Brasil. É preciso romper com a ideia de que a pessoa com deficiência física é impotente, inexistente na sociedade brasileira e colocá-los como efetivos cidadãos partícipes e construtores de sua própria história.

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