Badminton inclui estudantes com diferentes deficiências em escola de Natal

A educação física se constituiu como uma disciplina excludente, principalmente com relação aos estudantes com deficiência. Mas concepções de ensino pautadas na valorização dos direitos humanos têm defendido a adoção de uma perspectiva segundo a qual os professores devem considerar as singularidades dos alunos em suas práticas pedagógicas, de maneira que todos tenham a possibilidade de participar de uma mesma atividade. Com base nesse princípio, desenvolvemos um projeto de badminton inclusivo na Escola Municipal Professor Luiz Maranhão Filho, no qual o esporte, já tradicional na unidade, foi praticado em conjunto por nossas crianças e adolescentes com e sem deficiência graças à flexibilização de regras e recursos.

Cerca de oito alunos do ensino fundamental estão sentados em sala de aula olhando para um professor. Na parede atrás dele há um cartaz escrito "Educação física badminton".
A participação de todos foi garantida por meio da flexibilização das regras e dos recursos do badminton. Foto: Marcello Nicolato.
Localizada na zona oeste de Natal (RN), a Luiz Maranhão Filho atendia cerca de 1.050 estudantes do ensino fundamental e educação de jovens e adultos (EJA). Desses, 30 eram público-alvo da educação especial e realizavam o atendimento educacional especializado (AEE) na própria unidade, no horário de contraturno. O projeto de badminton inclusivo foi desenvolvido em colaboração entre nós, um grupo formado pela coordenadora pedagógica, pela professora do AEE e pela docente de educação física da escola. Decidimos trabalhar o esporte com três turmas de anos distintos do ensino fundamental II.

As classes selecionadas contavam com alunos com alguma deficiência. Na turma do 5º ano, um dos garotos tinha deficiência intelectual e uma garota apresentava bloqueio de fala e dificuldades em interagir com os colegas. Na classe do 6º ano, uma das adolescentes possuía transtorno do espectro autista (TEA). Na turma do 7º ano estavam matriculados quatro estudantes com alguma deficiência: um com deficiência intelectual; uma com deficiência física que não podia correr, andar longas distâncias ou realizar movimentos rápidos; um com deficiência múltipla (surdez e intelectual) que pouco participava das atividades e uma aluna surda. Todos participaram do badminton inclusivo junto com seus colegas de classe sem deficiência.

 

Conhecendo o esporte

Alunos sentados em sala de aula olham para lousa, onde uma professora explica a matéria diante de uma projeção na lousa.
Nas aulas teóricas, usamos recursos visuais para ensinar as regras e fundamentos do esporte. Foto: Marcello Nicolato.
O badminton é um esporte parecido com o tênis, que, ao invés de uma bola, utiliza uma espécie de peteca. As partidas podem ser individuais ou em duplas e cada jogador usa uma raquete. O objetivo é fazer com que a peteca toque o campo do adversário, passando por cima da rede que divide a quadra. Quando isso acontece, é contabilizado um ponto. O jogo oficial é dividido em três sets de 15 pontos. Vence quem ganha dois ou três sets primeiro.

Nossa primeira ação foi mostrar o badminton e seus fundamentos aos estudantes. Primeiro, a professora de educação física apresentou a evolução histórica da peteca. Em seguida, os alunos confeccionaram seus próprios exemplares para serem usados como brinquedos. Para isso, eles utilizaram material reciclável disponível na escola. As regras do esporte foram explicadas nas aulas posteriores. Durante esses momentos teóricos, usamos muitos recursos visuais para facilitar a compreensão de todos.

 

O badminton inclusivo

Depois disso, passamos à prática. Em um primeiro momento, cada turma entrou em quadra com a missão de recriar as regras de modo a permitir que todos pudessem participar. Por isso, essa atividade inicial não teve como foco o jogo em si: os estudantes estiveram preocupados em pensar em cada um de seus colegas, sugerindo modificações que pudessem facilitar a partida para todos. Em seguida, eles sistematizaram as alterações propostas e praticaram o badminton de acordo com o que fora acertado entre a classe.

Um estudante com deficiência auditiva segura uma peteca enquanto observa os gestos do intérprete de Libras na quadra.
A presença de sinais visuais e do intérprete de Libras garantiu oportunidade de participação aos alunos com deficiência auditiva. Foto: Marcello Nicolato.
Para incluir os alunos que não permaneciam em uma mesma atividade por muito tempo, seja por limitação física ou dificuldade em manter a concentração, as turmas optaram por diminuir as medidas da quadra e o tempo das partidas, encurtando os sets. Essa flexibilização foi sugerida em virtude das singularidades do adolescente com deficiência intelectual do 5º ano e das garotas com autismo do 6º e com deficiência física do 7º. Já a inserção de mais recursos visuais de informação durante as partidas e a constante presença do intérprete de Libras facilitou a participação dos estudantes com deficiência auditiva. Para eles, uma bandeirinha substituiu o apito do árbitro e houve a presença constante do intérprete de Língua brasileira de sinais (Libras).

Os alunos participaram ativamente das partidas e manifestaram interesse em saber se as estratégias formuladas pelos grupos, de fato, possibilitariam a inclusão de todos. Após as aulas práticas de badminton, realizamos rodas de conversa com os estudantes. Entre suas falas, eles expressaram que foi importante ver como todos têm possibilidade de praticar um esporte.

 

Resultados e continuidade

Um garoto e uma garota se enfrentam em uma partida de badminton na escola.
Com o badminton inclusivo, os estudantes perceberam que todos têm potencial. Foto: Marcello Nicolato.
Durante os momentos em que os alunos brincavam com as petecas percebemos a construção de importantes vínculos afetivos e de confiança. Até aquele momento, a garota com bloqueio de fala do 5º ano não havia se comunicado no contexto escolar com nenhum de seus colegas, nem mesmo participado das aulas de educação inclusiva. Nessa atividade, ela não só participou, como interagiu e conversou, rompendo as barreiras comunicativas, ainda que de forma bastante tímida.

O projeto de badminton inclusivo permitiu que os estudantes pensassem nas especificidades um dos outros, percebendo que todos têm potencial e podem participar das mesmas atividades desde que sejam garantidas igualdade de condições, considerando as diferenças. Da mesma forma, a experiência foi importante para os profissionais envolvidos, pois nos permitiu refletir sobre a realidade do contexto escolar, identificando os facilitadores e as barreiras a serem transpostas para a efetivação de uma educação cada vez mais inclusiva.

Este projeto foi fruto da participação da Escola Municipal Professor Luiz Maranhão Filho no curso Portas abertas para a inclusão, do Instituto Rodrigo Mendes (IRM). Veja cenas das ações desenvolvidas na escola no vídeo da formação a partir de 1’58”.

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