Aluna universitária e cega sensibiliza crianças sobre inclusão e formas de ser diferente

Procurei a Escola de Educação Básica (EEB) Prefeito Quintiliano João Pacheco, na pequena cidade de São João do Sul (SC), me oferecendo para contribuir com o que fosse necessário. Eu sou acadêmica de psicologia pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) e, para estudar, era contemplada com uma bolsa concedida a pessoas economicamente carentes e/ou com deficiência. Para mantê-la, eu precisava fazer 20 horas de atividades socioeducativas por semestre. Quando me coloquei à disposição para ajudar, a diretora sugeriu que eu conversasse com as crianças sobre inclusão, bullying e sobre formas de ser diferente. Ela acreditava que minha experiência pudesse sensibilizar os pequenos. Por ter deficiência visual, eu sabia o que era não ser compreendida na escola. Foi assim que dei início, em 2016, a um trabalho de educação inclusiva na unidade.

Conversei com cada turma da escola, que recebe cerca de 250 estudantes da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental, por cerca de uma hora e meia. Falar das deficiências em si não me pareceu uma ideia inteligente. Dar destaque para como o coleguinha não enxerga, ou não ouve, ou não anda, mas “pode estudar como a gente” é uma forma sutil de enfatizar como o aluno com deficiência é diferente dos demais. Cabe evidenciar que o fato de eu ter sido uma criança com deficiência que sofreu bullying na escola foi um fator importante nessa compreensão. Para falar aos estudantes sobre como seus colegas com deficiência gostariam de ser vistos, parti de tudo aquilo que estudei, é claro, mas também daquilo que vivi, de como eu gostaria de ter sido vista.

 

Todos temos diferenças

Todo o trabalho foi baseado em mostrar como todos temos diferenças e como ter uma deficiência é apenas uma outra forma de ser diferente. Inicialmente, pedia para que os alunos olhassem para o colega ao lado e identificassem as diferenças entre eles. Esse exercício foi feito de forma muito cuidadosa, porque poderia desencadear ainda mais chacotas. Assim, os incentivava a perceber diferenças comuns, como a cor dos olhos, do cabelo, a altura etc.

Depois, mostrava como, apesar da diferença ser natural, havia formas de ser diferente que eram ridicularizadas, xingadas, agredidas e perguntava se já tinham feito ou presenciado alguma situação assim. Muitas mãos erguidas! E assim, falamos sobre as histórias de coleguinhas gordinhos, baixinhos, de cabelo crespo; sobre como eles deveriam se sentir pelos outros não quererem sua amizade; sobre o motivo de fazermos isso com pessoas que são diferentes de nós.

Durante as conversas, permiti que as crianças me interrompessem a qualquer momento para comentar ou perguntar e evitei dar respostas do tipo certo ou errado. Acredito que isso tenha contribuído para que fossem tão honestas.

 

Deficiência: mais uma forma de ser diferente

Só então entrei no âmbito das deficiências, colocando-as como mais uma forma de ser diferente. Procurei fazer os estudantes pensarem sobre como uma criança com deficiência pode gostar das mesmas coisas que eles, pode assistir aos mesmos desenhos, fazer as mesmas brincadeiras. Assim, eles entenderam que brincar com o colega com deficiência para conhecê-lo melhor seria mais legal que interagir com ele apenas para que não fique sozinho no recreio.

Por último, apresentei os recursos de tecnologia assistiva mais usados por pessoas com deficiência visual. Mostrei a bengala, o braille, os leitores de tela para celular e computador. Procurei evidenciar que essas ferramentas permitem às pessoas cegas fazerem o mesmo que as demais, só que de forma diferente.

Sempre que surgia alguma pergunta do tipo:

– Foi muito difícil aprender a escrever em braille?

Respondia comparando com a realidade deles.

– Quando vocês aprenderam a escrever, não parecia difícil? Fazer todas as letras, usá-las para escrever cada palavra… Mas depois ficou bem mais fácil, não é? Foi assim para mim também.

Dizer que a vida da pessoa com deficiência é muito mais difícil, desumaniza; torna-a vítima de piedade ou de admiração excessiva, duas coisas igualmente ruins. Como muitos alunos ainda estavam na fase de alfabetização, essa comparação foi muito palpável para eles.

 

Retorno da comunidade e continuidade

As conversas sobre ser diferente geraram repercussão. Como a cidade é pequena, muitos comentários positivos das famílias chegaram até mim. Outro destaque foi o retorno dado pelos professores da unidade, que destacaram a importância de ter uma pessoa cega falando sobre inclusão. Ao mesmo tempo em que disse que uma pessoa com deficiência pode aprender como qualquer outra, também mostrei isso, pelo fato de estar ali enquanto estudante universitária.

No ano seguinte, voltei à EEB Prefeito Quintiliano João Pacheco para mais um trabalho. Como a unidade passou a receber alunos da APAE na educação de jovens e adultos (EJA), fui chamada para desmitificar o preconceito contra esse novo público, sobretudo contra os adultos com deficiência intelectual.

Veja um trecho de uma dessas conversas:

Para realizar um bom trabalho de educação inclusiva, sempre aposto em protagonismo e humanização. Pessoas com deficiência podem falar por si mesmas. Pessoas com deficiência são, antes de tudo, pessoas, que apresentam a deficiência como uma característica que as diferencia, assim como todas as outras pessoas se diferenciam por uma coisa ou outra. Nem coitados, nem heróis. Apenas humanos.

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