Alfabetização e Síndrome de Down: educadora destaca repertório de estudante

A chegada de duas pessoas curiosas, ansiosas e cheias de expectativas de encontrar um bom lugar para se estar marcou o início do ano letivo na Escola Municipal de Educação Básica Lopes Trovão, em São Bernardo do Campo (SP). Eu, enquanto professora do atendimento educacional especializado (AEE) do período da manhã, assumi o desafio de encaminhar os estudantes para a sala de recursos multifuncionais (SRM). Cada caso era discutido e envolvia professores da sala de aula comum, coordenadora e orientadora pedagógicas, diretora, equipe técnica e familiares.

Sabrina, matriculada no 6° ano do ensino fundamental, era uma dessas alunas. Seus registros traziam relatórios imensos sobre suas dificuldades e que pouco falavam de suas potencialidades. Percebi dificuldades dos responsáveis em lidar com as questões da deficiência da filha em um contexto doméstico de muitos irmãos. Cobranças xerocopiadas no prontuário, trocadas entre professor e família, já que a garota estava sendo transferida para o período da manhã. Ausências de comparecimento nas reuniões de pais e mestres.

Como chegar até essa criança? Onde estariam resguardados seus direitos de plenitude, alegria, aprendizagem e infância? Só descobri o caminho quando quebrei os estigmas socialmente colocados durante toda a vida sobre Sabrina. A Síndrome de Down era apenas mais um detalhe.

 

A importância do contato

Sabrina usa uma colher para colocar pequenos grãos dentro de um saco de pano em atividade de matemática.
Sabrina realiza atividade durante atendimento na sala de recursos multifuncionais (SRM).

Em nosso primeiro encontro na sala do AEE, o olhar da estudante brilhava e o universo a ser explorado lhe parecia infinito. Sentada e olhando os livros, perguntou:

– Posso pegar o livro do farol?

Olhei para a estante e disse que sim, pensando em que livro sobre o trânsito ela havia se interessado. Mas, para minha surpresa, ela escolheu um sobre a vida marinha, com a figura de um grande farol iluminando um barco na capa. Perguntei-lhe:

– O que você vê, Sabrina?
– Um farol! – Ela respondeu.
– E para que serve?
– Para não deixar o navio do pirata bater na pedra, o barco do pescador também, o navio de pessoas e o de coisas para vender. Ele tem uma luz que ilumina as pedras do mar. Nesse mar tem sereia, peixes coloridos grandes e pequenos e plantas que balançam de um lado e outro. Alguns navios que quebraram e afundaram. No rio a água é doce e não tem navio, por isso não tem farol, mas tem Iara e saci-pererê.

Lembrei-me que os relatórios diziam que a aluna era pré-silábica. Mas quantas crianças que conhecia não tinham esse repertório! Perguntei de supetão:

– Sabrina, você sabe ler?
– Vem aqui que eu te mostro – falou.

Começamos pela sala número um e percorremos todos os espaços da escola. Por onde passamos, ela leu tudo o que viu.

 

Valorizando o repertório na alfabetização

Paralelamente, no mesmo período, tive a oportunidade de participar do DIVERSA presencial. Realizei a formação junto com a equipe gestora da escola e com membros da Secretaria de Educação do Município. A partir da discussão do caso da estudante, o curso nos revelou a importância de trabalhar a partir da diversidade. As estratégias não devem ser definidas do genérico para o particular; é preciso conhecer os alunos de forma individual, perceber como cada um deles aprende e valorizar suas singularidades.

A informação que havia lido sobre a Sabrina em seus relatórios era de que ela não sabia ler nem escrever, porque não conseguia grafar. Após nosso contato inicial e embasada com os saberes adquiridos na formação, suspeitei dessa avaliação. Muitas crianças com Síndrome de Down apresentam dificuldades motoras, uma certa fraqueza muscular, e o fato delas não segurarem o lápis para escrever não implica que não estejam alfabetizadas.

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Ao usar alfabeto móvel, estudante demonstrou que sabia ler e escrever.

Após constatar essa incoerência entre o que eu observava no convívio com Sabrina e o que era dito em seus registros, optei por usar tecnologias assistivas em suas atividades. Com o uso do alfabeto móvel, ficou provado que a garota conseguia sim ler e escrever. Foi uma surpresa para todos da escola perceber como ela estava avançada, lendo palavras e com um repertório muito grande.

Outro fator que impedia sua participação plena era a dificuldade de enxergar. A aluna tinha sete graus de miopia e seus óculos estavam em péssimo estado. Por isso, também passei a realizar atividades no computador, usando letras ampliadas e em caixa alta.

 

Cuidado e autoestima

Além disso, Sabrina usava fraldas em sala, porque não conseguia controlar o xixi. Para chamar atenção, muitas vezes ela as arrancava em aula. Para reverter essa situação, tivemos que elevar sua autoestima. Com o tempo, ela passou a pedir para ir ao banheiro, a princípio com um auxiliar. Depois, passou a ir sozinha, sem necessidade de ajuda.

O momento do nosso primeiro contato modificou tudo. A partir dele, a Sabrina se empoderou diante da escola, provando para os professores e outros profissionais que todas as pessoas com deficiência são capazes e têm muitas eficiências. E são elas que devem estar sempre em primeiro plano.

Projeto participante do DIVERSA presencial.

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