Quem posso procurar para auxiliar meu filho com Síndrome de Asperger no ensino superior?

Meu filho Henrique tem 20 anos e estudou o fundamental e o médio na regular. Antes do diagnóstico de Síndrome de Asperger, a escola sugeriu ir para o Especial, e ele frequentou 2 anos que foram negativos para ele. Hoje está na UP, 1º ano de Engenharia Mecânica, porém, apesar de existir um Centro de Inclusão, ele tem muita dificuldade de apoio. E quando as coisas não funcionam, a psicóloga que atende ao Centro sempre culpa ele.

Eu não sei até que ponto esta gente entende de autismo como dizem, o fato é que ninguém quer se incomodar. Tenho ouvido coisas do Apoio do tipo “ele sabia”, “ele não quer”, “ele tem que saber”, “ele não faz”, “ele é isso”, “ele é aquilo”. Não aguento mais. A quem posso procurar?

Ensino superior

2 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 17/02/2017

Olá Rita!

Infelizmente, a situação descrita por você não é exceção. Apesar dos muitos e significativos avanços nas políticas e práticas de educação inclusiva no Brasil, é inegável que ainda há muitos desafios a enfrentar e a inclusão de pessoas com deficiência em instituições de ensino superior configura como um dos mais importantes. Faculdades de todo o país têm investindo em obras, reformas, aquisição de materiais e recursos, entre outras iniciativas, a fim de garantir o direito à acessibilidade. No entanto, pesquisas indicam que as barreiras atitudinais e pedagógicas na interação com os docentes representam um dos principais entraves neste sentido.

Precisamos considerar que, para as instituições de ensino superior (bem como dos demais níveis de ensino), a educação inclusiva representa contracultura – num contexto marcado pela seletividade e meritocracia. Além disso, a tendência a culpabilizar seu filho é, provavelmente, decorrente de uma perspectiva caracterizada pela descontextualização da deficiência, vista como um incidente isolado e sem qualquer relação com o ambiente, situando “o problema” na pessoa e isentando “os outros” de qualquer responsabilidade e compromisso nesse sentido. Há alguns anos, essa visão deu lugar ao modelo social, difundido pela ONU, que considera, além dos aspectos clínicos representados por impedimentos na pessoa, fatores que são externos a ela: as barreiras presentes no ambiente. Este novo conceito de deficiência fundamenta a abordagem inclusiva, que reconhece que somos todos diferentes e concebe a educação como um direito humano, sem brecha para exceção. Direito que prevê, portanto, educação para todos, independentemente de credo, raça, gênero, condição econômica, social, cultural, física, mental, intelectual, sensorial ou linguística.

Há, no DIVERSA, estudos de caso que atestam que até mesmo instituições de ensino superior reconhecidas não só como inclusivas, mas também como referência nesse sentido, precisaram rever suas práticas a partir da chegada de estudantes com diagnóstico de deficiência, autismo, entre outros. Estudos que confirmam que “o ativo é a presença”. Que a ideia de que escolas ou faculdades deveriam se preparar previamente para só depois receber tais estudantes nada mais é que um mito. Este estudo de caso descreve e analisa a trajetória de uma universidade brasileira que reconheceu na chegada de um aluno cego uma oportunidade de aprender, com ele, aprimorando as políticas e práticas de inclusão já existentes e criando outras, novas, diferentes. Este estudo de caso da Escola de Graduação em Educação de Harvard corrobora, constatando que o ingresso de novos alunos continua desafiando e agregando novos aprendizados à universidade. Ou seja, que ela nunca estará pronta. Que a educação inclusiva é um processo contínuo e dinâmico, que implica a participação de todos os envolvidos. Trata-se de uma das melhores faculdades de educação dos Estados Unidos. Ambos evidenciam, também, a importância da inclusão no contexto do ensino superior no sentido de criar um ambiente que favorece toda a comunidade acadêmica.

Não desista. Procure esgotar todas as tentativas de dialogo a fim de estabelecer uma relação de parceria com a referida instituição. Esperamos que os textos e vídeos aqui sugeridos possam servir como referência na busca compartilhada por medidas e estratégias que viabilizem a plena participação de seu filho nos processos educacionais. Além dos já mencionados, estes dois artigos também indicam possibilidades nesse sentido:

A trajetória da Universidade Federal do ABC nas políticas de acessibilidade
Inclusão da deficiência no ensino superior: caminhos possíveis

Acreditamos que a busca pelo estabelecimento de parcerias seja, na maioria dos casos, mais efetiva que o confronto. No entanto, se as tentativas nesse sentido se esgotarem, uma alternativa é contatar o ministério público, exigindo os direitos de seu filho. Lembrando que o direito à educação inclusiva não se restringe ao acesso (matrícula e presença), compreendendo também o desenvolvimento de suas potencialidades para a plena participação em igualdade de condições. Nossa Constituição Federal garante tal direito a qualquer pessoa. A Convenção Internacional sobre os direitos das pessoas com deficiência, que tem status de norma constitucional, destaca o direito à educação em seu artigo 24, comprometendo os Estados-Parte a assegurar um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino (portanto, também no superior). Assim, qualquer instituição que não oferece um ambiente e a estrutura necessária para o atendimento de quaisquer necessidades que um estudante possa ter para acessar o currículo comum e participar plenamente da vida acadêmica, está violando um direito humano.

Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você e seu filho são muito bem-vindos aqui. 🙂

Raquel Paganelli – Equipe DIVERSA

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Por Instituto Paradigma em 18/07/2018

Dispõe o artigo 27 do Decreto Federal nº 3.298/99 que as instituições de ensino superior devem oferecer adaptações de avaliações e o apoio necessário ao aluno com deficiência, inclusive tempo adicional para entrega de trabalhos. Se as vias administrativas não forem suficientes para resolver a questão, você poderá optar por uma solução judicial, amparado por um advogado.

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