Onde encontrar apoio para formação de professores em educação inclusiva?

Sou gestora de uma escola municipal aqui em Salvador desde 2010 (Escola Municipal São Pedro Nolasco), que está localizada em uma comunidade fortemente empobrecida, num contexto de crianças e adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade social muito grande. Neste contexto nossa escola apresenta um número significativo de crianças com dificuldade de aprendizagem, baixo rendimento, crianças usuárias de drogas, em situação de rua e algumas com autismo, baixa visão, TDAH, entre outros.

Estou angustiada, pois a cada ano essas crianças continuam sendo deixadas para trás, não estamos conseguindo conta em alfabetizá-las e percebemos também que o poder público não empenha nenhum esforço para melhorar esta situação. Gostaria de saber se vocês podem me ajudar na formação de meus professores no que diz respeito à educação inclusiva.

Obrigada.

Formação

1 resposta

Por Raquel Paganelli Antun em 17/02/2017

Olá Jiane!

Sua preocupação com a formação docente é absolutamente legítima. Sabemos que a formação inicial não é suficiente. Nenhum professor sai “pronto” da universidade. E não há especialização que dê conta das reais demandas não só dos alunos com deficiência (física, intelectual, auditiva, visual e múltipla), transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades, mas de todos, em sala de aula. O reconhecimento das diferenças para a garantia da aprendizagem de todos (independentemente de credo, raça, gênero, condição econômica, social, cultural, física, mental, sensorial e linguística) numa perspectiva de direito é uma conquista que impõe novos desafios aos educadores. Além da necessidade de atualização constante, considerando as grandes mudanças e transformações no sistema educacional brasileiro e no mundo em que vivemos, analisar sistematicamente o próprio fazer no cotidiano da escola é condição imperativa para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas. Muito mais que capacitação técnica, a formação continuada se constitui, portanto, como um espaço de reflexão e planejamento, articulando novos saberes à análise sistemática dos arranjos e situações que compõe o cotidiano escolar para a sua transformação numa perspectiva inclusiva. No entanto, se partimos do pressuposto (fundamentado na teoria do desenvolvimento intelectual de Vygotsky), de que todo conhecimento é construído socialmente, esse processo não pode acontecer isoladamente. É premente estabelecer espaços coletivos de formação no contexto da própria escola, nos quais, além de toda a equipe pedagógica e gestora, a maioria dos envolvidos possa estar presente.

Uma estratégia de apoio produtiva neste sentido tem sido estabelecer parcerias com outras organizações cujo objeto de atenção coincida com as necessidades da escola (no seu caso, dificuldade de aprendizagem, drogas, autismo, baixa visão, TDAH, etc.). Entre elas, este artigo destaca as universidades. Muitas escolas, Brasil afora, também têm buscado apoio para a operacionalização da formação continuada a partir do estabelecimento de parcerias com outras escolas. Se não há atendimento educacional especializado (AEE) na própria escola, uma sugestão é buscar parcerias com as que ofereçam este serviço.

É preciso considerar, no entanto, que a formação continuada não tem a ver, necessariamente, com um saber que vem de fora para dentro da escola. Muitas escolas vêm alcançando resultados significativos a partir da criação de espaços internos de discussão e aprendizado mútuo ou até do melhor uso da hora de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), priorizando questões relativas ao papel da escola e de como isso se traduz cotidianamente em sala de aula em detrimento de aspectos burocráticos.

Este estudo de caso apresenta as iniciativas e os desafios de uma gestora escolar que, como você, reconhece que “a criação de uma escola inclusiva só é viável mediante um investimento contínuo e abrangente na formação dos educadores”. Sendo que, segundo ela, “todos são educadores, do porteiro à merendeira”. Como estratégia neste sentido, além de cursos, a respectiva escola organiza também um grupo de estudos que, pautado no compromisso com o acolhimento das diferenças previsto no projeto político-pedagógico (PPP), discute o planejamento, as práticas em sala de aula e o processo de avaliação dos alunos com e sem deficiência. Como sugerimos aqui, um ponto de partida pode ser explorar coletivamente os princípios da educação inclusiva. Este outro estudo de caso evidencia que o reconhecimento destes princípios pode ser determinante para a efetivação de práticas inclusivas no contexto educacional.

este estudo de caso ressalta a importância de instituir espaços de escuta, onde os professores possam compartilhar dúvidas e ansiedades bem como trocar “ideias sobre estratégias pedagógicas ou algum estudante que esteja precisando de um apoio específico”.

Além dos já mencionados, há vários outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência que podem disparar e subsidiar discussões relevantes e fomentar a reflexão (para a transformação) dos valores e práticas vigentes na escola. Sempre perseguindo a aprendizagem de forma ampla, envolvendo os próprios alunos, os educadores e os demais atores da comunidade escolar.

Esperamos que as sugestões acima sejam úteis. Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você e sua equipe são muito bem-vindos aqui. 🙂

Raquel Paganelli – Equipe DIVERSA

Esta resposta te ajudou?
Conhece alguém que pode responder? Compartilhe um link para a pergunta.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: