O que fazer quando a escola frequentemente pede para a família buscar um aluno?

Meu filho tem Síndrome de Asperger, está no 6º ano, tem inteligência acima da média, mas não consegue ser aceito na sala de aula. Ele faz cocô na roupa, os colegas fazem bullying com ele. Os professores acham que toda vez que isso acontece, a professora de apoio deve ligar e pedir para a família buscar o aluno, ou seja, retirá-lo da sala. Acho errado uma escola fazer isso. O que posso fazer?

Síndrome de Asperger

1 resposta

Por Raquel Paganelli Antun em 05/06/2017

Olá Ana Lucia!

A situação descrita por você remete à expressão os “excluídos de dentro”, usada pelo célebre sociólogo francês Pierre Bordieu. Infelizmente, esse procedimento é bastante comum. O que não significa que seja aceitável.

Na maioria dos casos, o argumento é o desconforto dos alunos com deficiência ou autismo em permanecer na escola ou na sala de aula por tanto tempo. Mas, no caso de seu filho, claramente, o desconforto é da escola, o que o torna ainda mais absurdo, considerando os pressupostos da educação inclusiva. Ela pressupõe o reconhecimento da diferença como um valor intrinsecamente humano e o direito de cada um ser como é, exigindo, assim, a transformação da escola. Ou seja, na perspectiva inclusiva, não é o seu filho que deve se adaptar à escola, mas, sim, a escola a ele.

Participar plena e efetivamente de todas as atividades da escola, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades, é direito de seu filho, garantido em lei, conforme a Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, que, no Brasil, tem equivalência de emenda constitucional. É oportuno esclarecer que, de acordo com a legislação vigente, pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) também são consideradas “com deficiência, para todos os efeitos legais”. Ou seja, nem precisamos entrar no mérito de que reduzir o tempo de permanência na escola certamente comprometerá seu rendimento escolar. Ele tem o direito de permanecer na escola durante o período letivo e ponto. Lembrando que esse direito não garante somente a presença, mas também exige que a escola se organize de modo a garantir o pleno desenvolvimento do potencial de seu filho. E isso inclui “o respeito à sua dignidade” (texto da Convenção). Ou seja, ao invés de retirá-lo de cena, a escola precisa trabalhar a questão da diferença com todos os alunos, para evitar o bullying.

Em uma das respostas a esta outra pergunta do fórum, a assessora em educação inclusiva, Marília Costa Dias, enfatiza a importância de a escola discutir e planejar estratégias buscando a plena inclusão de seu filho de modo colaborativo. Todos os envolvidos, inclusive a família, devem participar. Ressaltando a potencial importância do envolvimento do atendimento educacional especializado (AEE) nesse processo.

Entre outras coisas, é preciso discutir conjuntamente o papel do profissional de apoio. Se, idealmente, ele(a) deveria ser responsável pelos cuidados pessoais do aluno durante sua permanência na escola, porque chamar a família quando situações como essa acontecem? A resposta a essa outra pergunta do fórum traz algumas reflexões e referencias que podem contribuir no debate dessa questão.

Esperamos que estas referências e outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência do DIVERSA possam subsidiar discussões relevantes na escola de seu filho e fomentar o trabalho coletivo na busca por sua inclusão efetiva. Com dignidade.

Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

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