O que escola e família podem fazer para incluir um aluno com atraso cognitivo?

A pouco tempo descobri que meu filho, hoje com sete anos tem um atraso cognitivo. Sempre desconfiei. Aos quatro, levei em uma avaliação com especialistas e eles resolveram esperar até aos seis. Aos seis, ele tinha dificuldade para falar e caia muito. Ele não acompanhava a escrita do quadro na sala. Ele fazia duas linhas e os amigos enchiam a folha do caderno. Descobri que a escola poderia encaminhá-lo a um tratamento, mas a escola me deu uma advertência escrita de que eu deveria ensinar meu filho em casa, porque ele era um menino igual os demais. Mas eu pedi novamente para encaminhá-lo a uma avaliação. Mesmo não acreditando em mim, eles o encaminharam a um neurologista, que constatou na primeira consulta e hoje meu filho aos sete anos teve uma avaliação de atraso cognitivo em decorrência do hipotiroidismo que por falta de informação ele veio a começar o tratamento aos 21 dias e que afetou um pouquinho seu cérebro.

Agora estou precisando de uma professora de apoio. A diretora da escola disse que o professor não atende na escola e eu teria que estar indo até ele. Eu descobri que não é verdade. E descobri que a escola do meu filho não tem conhecimento e preparação para esses alunos. Mas vou atrás e mais uma vez eles vão aprender comigo. No meu condomínio, as crianças da idade do meu filho não querem brincar com ele e ele sempre está sozinho. Ele percebe a discriminação. Eu vejo ele muito triste e às vezes ele chora muito. Como posso resolver tanta indiferença?

Deficiência intelectual

2 respostas

Por Grupo de Estudos Composição em 19/06/2018

Olá Patrícia!

Somos um grupo que se reúne periodicamente para discutir assuntos relacionados à educação inclusiva. Em nosso último encontro, lemos sua pergunta, dialogamos sobre a situação descrita por você e achamos válido registrar aqui algumas de nossas ponderações. Esperamos que possam ajudá-la de alguma forma.

Em primeiro lugar, é importante salientar que a educação inclusiva parte do pressuposto de que a escola precisa se adaptar ao seu filho e não o seu filho a ela. Ao contrário da integração, na qual o aluno deve se adaptar às condições da escola, a inclusão prevê sua transformação de modo a garantir o acesso, a permanência e a aprendizagem de todos os estudantes, independentemente de suas características. E isso inclui oferecer apoios aos alunos que precisam de algum tipo de ajuda para realizar as propostas. Sugerimos que leia a resposta de Marília Costa Dias a esta pergunta: Como fazer adaptações curriculares para alunos com deficiência intelectual? A Marília é membro do nosso grupo.

Se não há atendimento educacional especializado (AEE) na escola, é preciso tomar providências, já que se trata de um direito garantido aos estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Se a escola é pública, a melhor estratégia é procurar a Secretaria de Educação local para averiguar se existe a possibilidade de o serviço passar a ser oferecido lá mesmo, através da instalação de uma sala de recursos multifuncionais (SRM). Caso não seja possível fazer isso no curto prazo, o AEE deve ser oferecido em outro espaço, como uma escola próxima ou um centro. Em alguns municípios o transporte escolar é oferecido. Se a escola é particular, é preciso exigir a oferta do AEE no contraturno escolar junto à própria gestão da unidade.

Se no entanto, a Secretaria de Educação ou a gestão da escola não tomarem providencias num período de tempo razoável, é preciso exigir o direito ao AEE contatando o Ministério público (MP) para que a escola cumpra suas obrigações. Lembrando que a oferta do AEE é compulsória, mas a frequência é facultativa. Ou seja, apesar de os sistemas de ensino serem obrigados a oferecer esse serviço a todos alunos público-alvo da educação especial, participar é uma decisão do aluno e/ou de seus pais/responsáveis. Apesar de não ser obrigatório, acreditamos que valha a pena já que a função do AEE é justamente buscar identificar as barreiras à participação e à aprendizagem para, em parceria com o professor de sala e a equipe da escola, buscar eliminá-las. É importante esclarecer que o critério de elegibilidade de um estudante para o AEE é ser público-alvo da educação especial (ter deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) ou altas habilidades/superdotação), e o reconhecimento de que algo está atrapalhando seu processo de aprendizagem no contexto escolar – as assim chamadas barreiras.

Em segundo lugar, consideramos oportuno afirmar que nenhuma escola está preparada. Por que o preparo não é prévio. Ele se dá no processo. Não há manual. Trata-se de um caminho feito de tentativas, de erros e acertos. E, para isso, é fundamental que a escola e a família estabeleçam uma relação de parceria. Os dois lados podem se ajudar e muito. Você, mãe, pode dar dicas importantes que representarão atalhos para a escola. Por exemplo, conhecer os interesses de seu filho é primordial para engajá-lo nas atividades realizadas em sala de aula.

Por fim, a partir de seu relato, acreditamos que fomentar a sociabilidade pode ser um objetivo importante a ser assumido por você em relação a ele. Sugerimos que convide outras crianças para brincar em sua casa e que o incentive a se inserir, a dar o primeiro passo, quando houver aparente resistência. Muitas vezes, o medo nos bloqueia. Ainda que exista o risco de ele cair, vale à pena incentivar a interação no parquinho do condomínio e em outros espaços.

Abraços carinhosos de todas nós.

Grupo de Estudos Composição

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Por Instituto Paradigma em 25/07/2018

O atendimento e o projeto pedagógico para alunos que desafiam a escola em relação à aprendizagem/desenvolvimento nas salas regulares de ensino podem ser planejados e realizados na complexidade das relações que o aluno e o professor estabelecem consigo, com o outro, com o conhecimento e com o mundo que os cerca. O professor já envolvido nesse contexto relacional pode desenvolver atitudes de pesquisador ao deparar-se com uma situação diferenciada, com novos desafios educacionais. Para cada aspecto relacional poderá formular novas perguntas que possam orientar sua observação sistemática e contínua ao dirigir-se a esse aluno com necessidades educacionais especiais. Buscará saber sobre seus interesses e preferências: o que o mobiliza; para quem olha ou se aproxima, como interage com os outros alunos, e o que sabe sobre si mesmo.

O professor também poderá estender seu olhar investigativo às novas características que o aluno apresenta: suas condições de autonomia, necessidades, limitações, potencialidades. Realizará registros cronológicos dos dados observados, incluirá os investimentos que faz, as respostas que obtém, bem como os movimentos realizados pelos outros atores envolvidos.

Concomitantemente, o professor poderá criar estratégias diferenciadas de ação lançando mão de ajudas técnicas, adaptações curriculares, possibilidades de acessibilidade que possam ir além da acessibilidade arquitetônica, envolvendo também as de ordem atitudinal e pedagógica.

+ Como desenvolver estratégias pedagógicas inclusivas

Professor e aluno criam juntos nova relação: deficiência-potencialidade. Esse processo de aprendizagem que se desenvolve é do aluno, do professor e dos demais atores envolvidos. Se o aluno necessita de adaptações no currículo escolar e/ou ajudas técnicas; o professor necessita aprender com seu aluno, com os pares envolvidos e com autores que pesquisam e escrevem sobre o contexto das deficiências.

Desse modo, pesquisando e se autoformando com seus alunos, o professor estabelecerá nova relação entre teoria-prática, reestruturando-a. Ao acolher, compreender e conviver com a vida humana em sua diversidade de condições, os atores envolvidos ampliarão o potencial da relação ensino-aprendizagem, com novos significados e sentidos.

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