É possível integrar AEE e sala comum para fortalecer novas práticas pedagógicas?

Quando abordamos o tema inclusão de alunos com transtorno do espectro autista (TEA) em sala comum da rede pública, muitas indagações são identificadas. Observa-se que a maioria dos trabalhos pedagógicos desenvolvidos nas escolas para alunos com autismo acabam sendo realizados de maneira infantilizada, somente por meio de desenhos, algumas atividades orais sem a participação direta do aluno ou por meio de cópias transcritas e adaptadas pelo próprio professor.

Identificando essas questões enquanto professora do atendimento educacional especializado (AEE) especialista em TEA, em sala de recurso e itinerância, no atendimento de um aluno do 9º ano do fundamental que apresentou no começo do ano um perfil de uso da fala limitado, isolamento social dos demais alunos e professores; dificuldade de escrita com comprometimento motor nas mãos, e dificuldade de leitura, distorções gráficas, imaturidade e apatia de modo geral. Diante desse perfil, procurei integrar AEE e sala comum. Realizei um planejamento diversificado e diferenciado para o atendimento desse aluno no AEE, onde busquei organizar informações anteriores sobre o atendimento pedagógico que o aluno já tinha obtido, realizei uma avaliação diagnóstica pedagógica atual, levando em consideração seus conhecimentos e seu perfil comportamental, procurei me inteirar do conteúdo da proposta pedagógica da série do aluno, reconhecer o perfil social da sala comum do aluno, assim como uma entrevista com sua família.

Realizei uma adaptação do material escolar do aluno: caderno classe comum com folhas quadriculadas, percebi a necessidade de incluir esse recurso para o aluno regular sua escrita e facilitar sua observação em relação às proporções da letra e adquirir noção de distância, retas e compreensão de tamanho, e noção de unidade, dezena, centena e armar continhas, assim como para prepará-lo para o uso da pauta. Paralelamente no atendimento do AEE utilizei também outras estratégias, reforçar e incentivar o trabalho da escrita e leitura, raciocínio lógico-matemático, articular a temática do conteúdo da proposta curricular da série do aluno, utilizando como metodologia: jogos lúdicos e atividades concretas elaboradas com materiais pedagógicos (material reciclado, adaptado a necessidade do aluno) construídos com auxílio do próprio aluno. Utilização dos recursos tecnológicos da plataforma Currículo + (plataforma online de conteúdos digitais: vídeos, videoaulas, jogos, animações, simuladores e infográficos), articulados com o Currículo do Estado de São Paulo, como apoio pedagógico para as diversas atividades que são desenvolvidas. Adaptação de material escolar: utilização de fichas temáticas onde o aluno transcreve as atividades para o caderno de meia pauta, que traz uma configuração diferente, oferecendo a utilização de dois espaços, o pautado e o em branco, a proposta é que esses espaços sejam utilizados pelo aluno com sentido de interpretação livre de perceber que uma história ou uma atividade pode ser contada com palavras e imagens desenvolvidas pelo próprio aluno.

Diante do exposto, realizando uma análise comparativa das situações do “antes e depois” da intervenção pedagógica realizada pelo atendimento do AEE no primeiro semestre de 2018, com o aluno, verifica-se que o desenvolvimento do aluno atualmente apresenta melhoras na sua comunicação e oralidade, sua escrita está mais segura e clara, conta histórias relatando fatos e apresenta criticidade sobre determinados assuntos que são abordados na sala de aula. É verificado que sua integração social ampliou, está participando de eventos sociais, como aniversario de amigos da sala de aula e excursões da escola sem a presença da mãe. Demonstra maior iniciativa e interesse em realizar as tarefas, está mais falante e consegue levantar a cabeça e fixar o olhar.

A mãe relata que em casa ele conta tudo que acontece na escola, fala sobre seus amigos de sala de aula, nomes dos professores, das atividades que desenvolve, percebe que aumentou seu interesse pela atividade escolar, mostra as lições que tem realizado e está muito feliz. Foi considerado aluno destaque da sala no 1º bimestre. Participou da festa Junina na elaboração da construção de um robô onde o mesmo auxiliou na barraca no dia da festa. Atualmente está participando efetivamente do projeto da Copa (AEE), na adaptação do robô como a mascote verde e amarelo da escola. Onde está sendo desenvolvido um trabalho sobre os significados dos símbolos da Copa com a contagem regressiva para a mesma onde o aluno e sua sala comum atualiza esse placar diariamente.

Sendo assim, percebe-se que é possível sim, realizar um trabalho integrado do AEE junto com a classe comum no integrar novas possibilidades de ações metodológicas: avaliação diagnostica, sondagem, entrevistas e criação e adaptação de materiais alternativos pedagógicos, uso das tecnologias para fortalecer a potencialidade dos alunos dentro de um perfil aprendente e protagonista de suas ações, deixando de relacionar apenas sua aprendizagem as dificuldades cognitivas padronizadas que vem sendo utilizada há anos, mas criar novas formas e possibilidades de aprendizagem significativas que possam ser viabilizadas no contexto escolar respeitando o perfil de cada aluno com autismo em suas series e idades.

Atendimento educacional especializado (AEE)

3 respostas

Por Instituto Paradigma em 18/07/2018

Por ainda tratar-se de um recurso recente implantado na escola é importante que a equipe escolar e os gestores responsáveis pela implantação e monitoramento desses serviços façam a inclusão dessa proposta pedagógica no âmbito do projeto político-pedagógico (PPP) da escola.

É necessário que se esclareça o tipo e a finalidade dos serviços oferecidos nas salas multifuncionais de atendimento educacional especializado (AEE) para toda a comunidade escolar, esclarecendo de forma simples e clara seus benefícios e o seu papel integrador, de todos os alunos nas rotinas escolares.

O movimento da inclusão de mais esse recurso na escola deverá estabelecer-se de forma positiva, contribuindo para desmistificar a visão corrente de que alunos com deficiência devem ser “tratados” em ambiente isolado das outras crianças que só o ensino especializado dará conta deles. É preciso que a equipe escolar colabore para que não se reproduza em um cantinho da escola o modelo da institucionalização e do isolamento daqueles que são diferentes.

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Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 01/08/2018

Olá, discordo em relação a informação relatada “sobre o AEE se tratar de um recurso recente”, em pesquisas podemos constatar que as salas de recursos multifuncionais fazem parte de um programa que se iniciou aproximadamente na década de 2000 (MEC), compondo a política de inclusão, muitas propostas poderiam ser efetivadas. Anos depois com o Manual de orientação (BRASIL, 2010) passou a ser instituído legalmente vinculado ao SECADI, integrando ao Plano de desenvolvimento da educação (PDE). Após essa implantação muitas leis foram instituídas e revogadas, mas infelizmente sem efetivações e resultados de excelência. Atualmente ainda nos deparamos com a falta de articulação junto à gestão, a família desses alunos que deveriam ser bem atendidos com a definição de procedimentos pedagógicos necessárias para a implementação dessas salas. Pois o AEE constitui parte diversificada do currículo dos alunos com necessidades educacionais especiais. E esse currículo não pode ser desconsiderado da concepção curricular, pois não deve ser tratado de forma isolada. Adaptações curriculares que devem ser enriquecidas de diferentes formas, no envolver toda a equipe escolar. Realizadas de forma menos radical levando em consideração o perfil de aprendizagem de cada aluno, mas considerando o currículo oficial com as devidas adaptações. A proposta do AEE dentro das escolas precisam seguir os planos de ação para seu funcionamento. Proposta que precisam urgentemente estar sim, inseridas dentro do projeto político-pedagógico (PPP) de cada escola. Mas de forma viva e consistente, não apenas de forma burocrática para compor a documentação legal das escolas.

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Por Raquel Paganelli em 01/08/2018

Olá Maria de Lourdes!

É muito bom tê-la conosco, participando tão ativamente da comunidade!

Agradecemos, principalmente, por este depoimento que atesta a importância do atendimento educacional especializado e que é, sim, possível, articular o trabalho deste serviço e da sala de aula de modo a potencializar a participação e a aprendizagem de estudantes público alvo da educação especial em escolas públicas e privadas de qualquer contexto.

Neste link, há uma série de referências que indicam que a colaboração é condição fundamental para que o AEE cumpra sua função.

Sabemos, no entanto, que nem sempre é assim. Apesar dos muitos e significativos avanços nas políticas e práticas de educação inclusiva no Brasil, principalmente no que diz respeito aos serviços de apoio, dentre os quais o atendimento educacional especializado é o principal, a tendência ao isolamento no trabalho pedagógico ainda é uma realidade em muitas escolas públicas e privadas de nosso país que representa uma barreira importante, dificultando ou até mesmo impossibilitando o alcance dos objetivos do AEE considerando a natureza dialógica e interativa deste serviço.

Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

Raquel Paganelli Antun – Equipe DIVERSA

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