Como trabalhar a educação inclusiva em uma rede municipal?

Boa Noite! Sou Raquel Medeiros, coordenadora pedagógica da pasta de inclusão no município de Ibirité. Não tenho nenhuma experiência como coordenadora. Tenho encontrado grandes desafios para trabalhar com a inclusão escolar, uma vez que no lugar onde estou atuando, as escolas não aceitam o aluno com necessidades especiais sem um monitor de educação. E quando há um monitor de educação, a escola nega a participação do aluno em atividades escolares pelo mesmo não dar conta em acompanhar a turma. Já sugeri que as auxiliares, juntamente com a equipe pedagógica, reformulem atividades para esses estudantes. Mas isso é complicado. Gostaria de sugestões para que possamos fazer um trabalho diferenciado dentro das escolas. Obrigada!

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Por Raquel Paganelli Antun em 12/04/2017

Olá Raquel!

Há alguns dias recebemos uma pergunta parecida com a sua: “Como posso iniciar uma discussão sobre inclusão para meu município?” Na resposta, ponderamos que, apesar de não acreditarmos que exista uma receita pronta capaz de dar conta desse desafio em qualquer contexto (dadas as variáveis), temos observado que projetos educacionais inclusivos se tornam consistentes e sustentáveis mediante a existência de ações relacionadas às seguintes dimensões: políticas públicas, gestão escolar, estratégias pedagógicas, famílias e parcerias. E, com base nelas, sugerimos uma metodologia, desenvolvida pelo Instituto Rodrigo Mendes, que talvez possa servir como referência também para Ibirité.

Este estudo de caso, que apresenta detalhes do processo de implementação de uma política de educação inclusiva na rede estadual de ensino de Goiás, também traz alguns elementos que podem indicar possibilidades para seu município. Em Goiás, o processo se deu a partir de três etapas. A primeira, chamada de “conscientização”, tinha como objetivo ajudar os educadores a compreender o que é inclusão no contexto educacional. Para isso, os princípios da educação inclusiva foram o ponto de partida.

Levar o educador a refletir sobre o que é, de fato, a educação inclusiva e o que representa na prática é basilar. Observamos que uma estratégia potente nesse sentido, também em outros contextos, tem sido a formação continuada. Recebemos, recentemente, duas perguntas sobre estratégias de formação e sensibilização cujas respostas também podem servir como referência no seu caso.

Esta questão remete à noção de deficiência, sobre a qual vale à pena ponderarmos. Neste artigo, a consultora em educação inclusiva Marta Gil evidencia a importância de explorar a diferença entre os modelos médico e social de deficiência na busca pela compreensão do que é, afinal de contas, a educação inclusiva e que mudanças acarreta no dia a dia da escola. Historicamente, o modelo médico respaldava as políticas de segregação e integração responsabilizando os próprios alunos com deficiência por não se “encaixarem” no modelo de escola vigente, legitimando sua exclusão com base no diagnóstico. A deficiência era, então, compreendida sob a perspectiva clínica, centrada em características individuais. Há alguns anos, o modelo social de deficiência passou a considerar, além dos aspectos clínicos representados por impedimentos na pessoa, fatores que são externos a ela: as barreiras presentes no ambiente. Este novo conceito de deficiência fundamenta a abordagem inclusiva, que concebe a educação como um direito de todos, sem exceção, e a diferença como um valor intrinsecamente humano.

Se partirmos dos princípios da educação inclusiva – toda pessoa aprende, tem direito à educação e demanda estratégias educacionais diferentes – e do modelo social de deficiência, havemos de reconhecer que um educador não pode negar a participação de um aluno sob a alegação de que este não acompanha a turma. Ao responder outra pergunta do fórum, Marília Costa Dias aponta que é preciso “compreender cada aluno como essencialmente diferente dos demais. Isso já desloca o olhar do professor. Não se trata de dar uma aula para os alunos e outra para o aluno com deficiência (…). O desafio é pensar aulas potencialmente boas para todos os alunos, diversificando as formas de acessar e expressar o conhecimento, assim as formas de engajar os alunos nas propostas”.

Segundo Fabio Adiron, “mudar a visão da homogeneidade para a diversidade, acreditar que todos podem aprender e reconstruir a escola de forma que seja, de fato, para todos, são os primeiros passos para a inclusão”.

Trata-se, sem dúvida, de um grande desafio. Este estudo de caso reconhece a contradição entre uma pedagogia calcada na diferença e o modo de conceber e organizar o currículo e de avaliar dos sistemas de ensino atuais. Mas ressalta a importância da participação de todos os envolvidos no desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas.

O mesmo estudo chama a atenção para outra questão presente em sua pergunta: a necessidade (ou não) e o papel dos profissionais de apoio. Ele relata que, há mais de 10 anos, quando as escolas da rede municipal de ensino de Florianópolis começaram a receber estudantes que necessitavam de auxílio na alimentação, locomoção e cuidados pessoais, a secretaria de educação contratou profissionais de apoio visando atender essa demanda. No entanto, como tais profissionais tinham formação na área da educação, a medida gerou situações em que os estudantes com deficiência eram pedagogicamente atendidos de forma individualizada, separados dos demais, perdendo, assim, o sentido da inclusão. Uma estratégia cujo objetivo era facilitar o processo de inclusão daqueles alunos, acabou se constituindo como uma barreira à sua participação. Por isso, é muito importante avaliar a necessidade deste profissional em sala de aula e buscar garantir que o objetivo de sua atuação seja sempre a promoção da autonomia e da independência dos alunos. Este outro estudo de caso traz à luz outra questão importante, decorrente da reflexão suscitada no anterior: o caráter transitório desta função (referindo-se aos profissionais de apoio para os alunos com deficiência).

Como já dissemos, não há fórmula ou receita pronta de como fazer inclusão. Mas esperamos que as referências mencionadas e outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência do DIVERSA possam subsidiar discussões relevantes em seu município e fomentar o trabalho coletivo na construção do projeto pedagógico e de um sistema educacional de fato inclusivo.

Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

Raquel Paganelli Antun – Equipe DIVERSA

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Por Equipe DIVERSA em 23/03/2017

Olá, Raquel! Seja bem-vinda à nossa comunidade! Nós da equipe do DIVERSA agradecemos pela confiança em dividir suas dúvidas. Acreditamos que encaminhamentos para desafios como o que você expôs possam ser construídos coletivamente. Para isso, dividiremos sua questão com outros membros de nossa comunidade e pesquisaremos em nosso acervo de conteúdos referências que possam te inspirar na busca por possibilidades inclusivas. Enquanto isso, te convidamos a explorar e comentar os estudos de caso, os relatos de experiência e os artigos de nossa biblioteca. Continue nos contando suas descobertas sobre o tema da educação para todos. Sinta-se à vontade para trocar experiências!

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