Como fazer adaptações curriculares para alunos com deficiência intelectual?

Sou coordenadora pedagógica e minha dúvida é em relação ao trabalho com alunos com deficiência intelectual nos anos finais e ensino médio. Como realizar com êxito as adaptações curriculares com um aluno que nem ao menos realiza leituras simples? E na matemática?

O motivo da minha pergunta é uma grande angústia em não poder ajudar meus professores, estou buscando todo tipo de ajuda.

3 respostas

Por MARILIA COSTA DIAS em 22/02/2017

De fato, não é uma situação simples. Vivemos hoje um momento de transição, de transformação na forma como as pessoas compreendem a deficiência e a dificuldade de aprendizagem. Por isso temos muitos alunos com grande defasagem em relação à programação da série que frequentam.Nesses contextos, o que importa são os princípios, pois não há uma metodologia, uma técnica a ser aplicada.
O primeiro princípio é compreender cada aluno como essencialmente diferente dos demais. Isso já desloca o olhar do professor. Não se trata de dar uma aula para os alunos e outra para o aluno com deficiência intelectual. O desafio é pensar aulas potencialmente boas para todos os alunos, diversificando as formas de acessar e expressar o conhecimento, assim as formas de engajar os alunos nas propostas. Para isso, sugiro ler o texto da plataforma DIVERSA sobre Desenho universal para a aprendizagem e assistir vídeos que tem no Youtube sobre essa temática.

Texto: Desenho universal para aprendizagem: um guia para o sucesso escolar

Vídeos

O segundo princípio é oferecer apoios aos alunos que precisam de algum tipo de ajuda para realizar as propostas. Pode ser um roteiro para produzir um texto, um arquivo em áudio de um texto que será estudado pelos alunos, e até mesmo uma lupa, ou um plano inclinado. É preciso conhecer muito bem os alunos para saber qual é o apoio que necessitam. O fundamento desse princípio é o direito à diferença para garantir igualdade de oportunidades.

O terceiro princípio diz respeito ao professor planejar suas aulas de modo que todos os alunos aprendam alguma coisa. Cada um deve avançar do ponto onde estava no começo da aula. E cada um deve aprender o máximo possível dentro de suas possibilidades.

Para não fazer uma lista interminável de princípios, vou encerrar com um último princípio: o trabalho colaborativo. Os professores precisam conversar sobre as estratégias que utilizam, sobre os erros e acertos, precisam aprender uns com os outros e se apoiar mutuamente. Você como coordenadora pode garantir espaços de troca, de estudo, de reflexão sobre a prática.

Tenho certeza, que juntos vocês encontrarão um caminho de aprendizagem coletiva para fazer adaptações cada vez mais apropriadas!

Abraços,
Marília Costa Dias

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Por Raquel Paganelli Antun em 17/02/2017

Coordenadores pedagógicos e outros profissionais de educação de escolas públicas e privadas de todo o Brasil e de outras partes do mundo compartilham esta mesma angústia. Estudantes com deficiência intelectual continuam representando um desafio para educadores que se propõe a trabalhar na perspectiva inclusiva. Sua presença em sala de aula revela que, apesar de já termos avançado significativamente, ainda temos muito a aprender sobre o que é, de fato, inclusão e como podemos torna-la realidade no cotidiano da escola.

Historicamente, as políticas pautadas nos paradigmas da segregação e da integração responsabilizavam os próprios estudantes com deficiência intelectual por não se “encaixarem” no modelo de escola vigente, legitimando sua exclusão. Um exemplo é o texto da segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1971, que em seu 9º artigo delibera a educação especial, indicando-a às pessoas com deficiência mental (como eram chamadas) com “atraso significativo” em relação a outras de mesma idade cronológica. A deficiência era, então, compreendida sob a perspectiva médica, centrada em características individuais.

Há alguns anos, o modelo social de deficiência passou a considerar, além dos aspectos clínicos representados por impedimentos na pessoa, fatores que são externos a ela: as barreiras presentes no ambiente. Esse novo conceito de deficiência fundamenta a abordagem inclusiva que concebe a educação como um direito de todos, sem exceção. Direito que prevê, portanto, não somente a garantia à vaga/presença, mas também à acessibilidade, ou seja, à eliminação de quaisquer barreiras que impedem a plena participação nos processos educacionais. Deu-se início, então, a um intenso processo de mudanças no contexto escolar cuja preocupação inicial era eliminar as barreiras físicas/arquitetônicas passando a incluir também recursos e serviços, através da tecnologia assistiva. O conceito foi se ampliando, vindo a considerar as barreiras atitudinais. A escola passou a valorizar o acolhimento, o bem-estar dos estudantes e questões como preconceito e bullying ganharam espaço nos momentos de trabalho pedagógico coletivo. No entanto, apesar dos evidentes e significativos avanços, não é possível negar a controvérsia, as incertezas, a apreensão e até mesmo o ceticismo em relação à educação inclusiva no contexto escolar. Segundo os educadores britânicos Gill Richards e Felicity Armstrong, não somente os novos, mas também muitos professores experientes se sentem inseguros em relação aos alunos que “diferem” dos ditos “normais”. Em 2001, diante desse cenário, a também britânica Jane Corbett declarava: “chegou o momento de focar na pedagogia e em como a comunidade escolar pode ser um ambiente de apoio para todos”. A constatação de que a chegada de estudantes com deficiência demandava reformas também no âmbito pedagógico resultou em inúmeras adaptações, arranjos e concessões no fazer cotidiano da escola. No entanto, os estudantes com deficiência intelectual nos ajudam a compreender que tais mudanças não são suficientes.

Quando reconhecemos que, apesar de tantos esforços, alguns estudantes continuam não aprendendo, a tendência é, muitas vezes, responsabiliza-los novamente por isso, alegando que não “se encaixam”. Mas se partimos do pressuposto de que toda pessoa aprende e tem o direito de acesso à educação e compreendemos, a partir do modelo social da deficiência, que a origem do problema não está, necessariamente, nas características intelectuais daquele estudante mas sim nas intervenções pedagógicas, sentimo-nos angustiados e admitimos que é preciso “algo mais”.

Neste artigo, a especialista em educação Inclusiva Maria Teresa E. Mantoan propõe uma pedagogia calcada na diferença. E dá a dica: “A inclusão implica pedagogicamente na consideração da diferença dos alunos, em processos educacionais iguais para todos”. Ou seja, o direito à educação inclui o direito de acesso ao mesmo currículo. O que difere são as estratégias pedagógicas para acessa-lo. E não somente para os alunos com deficiência intelectual ou outros cujas “dificuldades” manifestam a necessidade de outras abordagens. É preciso reconhecer que “todos são sujeitos únicos, singulares, heterogêneos”.

Trata-se, sem dúvida, de um grande desafio. Este estudo de caso, que aborda aspectos do processo de inclusão educacional de uma estudante com deficiência intelectual, admite a contradição entre uma pedagogia calcada na diferença e o modo de conceber e organizar o currículo e de avaliar dos sistemas de ensino atuais. Mas ressalta a importância da participação de todos os envolvidos no desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas, indicando especificamente o estudo de casos como uma estratégia potente neste sentido.

Este relato de experiência, sobre o processo de alfabetização de uma estudante com Síndrome de Down, também menciona estudos de caso e ressalta a importância de “conhecer os alunos de forma individual, perceber como cada um deles aprende e valorizar suas singularidades”. Este outro corrobora, testificando que não há receitas prontas de como lidar com estudantes com deficiência: “Percebemos que a tal ‘receita’ tinha que partir de nós, da escola. Foi quando iniciamos uma conversa entre as educadoras que estavam no projeto e que conheciam o estudante. Nos reuníamos antes das aulas e elaborávamos atividades juntas, nas quais não só o Caio participava, mas a sala toda. Novos olhares e novas reflexões surgiram.”

Muitos outros coordenadores pedagógicos, como você, sentem-se angustiados achando que ajudar os seus professores implica apresentar respostas ou soluções prontas. Lembre-se: não há receita. A aprendizagem deve ser perseguida de forma ampla, envolvendo os próprios alunos, os educadores e os demais atores da comunidade escolar.

Além dos mencionados acima, há vários outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência que defendem que as práticas pedagógicas devem não só valorizar mas partir do que os alunos trazem, incentivando os professores a, primordialmente, aprenderem sobre todos os seus alunos a fim de desenvolver estratégias curriculares e pedagógicas para os seus grupos como um todo que, ao mesmo tempo, reconheçam e respondam às características, interesses e estilos de aprendizagem de cada um individualmente. Esperamos que possam subsidiar discussões relevantes e fomentar o trabalho coletivo na construção de uma escola inclusiva.

Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

Raquel Paganelli – Equipe DIVERSA

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