Como posso iniciar uma discussão sobre inclusão para meu município?

Bom dia! Sou professor e presidente da Associação dos Portadores de Necessidades Especiais do município de Ingá (PB). Dentro da entidade, criei uma escola que atende pessoas com deficiência e sem deficiência em geral. Fizemos no município alguns cursos através do DIVERSA e não se fala mais sobre esse trabalho na cidade. Temos um número de PcD grande e eu, como representante desse grupo e também professor, fico inquieto e sozinho para pedir ajuda, socorro para inclusão no nosso município. Gostaria de iniciar uma discussão sobre inclusão para fazer um projeto político para o município, abrangendo educação e família da pessoa com deficiência.

1 resposta

Por Raquel Paganelli Antun em 10/03/2017

Olá Sérgio!

Em primeiro lugar, é válido mencionar que, se recorremos a uma perspectiva histórica para analisarmos a situação da educação inclusiva no Brasil e em muitos outros países do mundo, reconhecemos que essa trajetória não é linear. Não se trata de uma sequência lógica, sistemática e progressiva de mudanças. Os muitos e inegáveis avanços são resultado de um processo marcado por controvérsias, ambiguidades, contradições e, muitas vezes, retrocessos. Ou seja, o cenário que você descreve, referindo-se ao município de Ingá, não representa exceção. Mas, como diz repetidamente a especialista em educação inclusiva Maria Teresa E. Mantoan, trata-se de um “caminho sem volta”. Portanto, não desista!

Considerando a intenção explicitada em sua pergunta, de retomar a discussão sobre inclusão no seu município para a construção de um projeto político pedagógico inclusivo, acreditamos que esta metodologia, desenvolvida pelo Instituto Rodrigo Mendes, pode ajuda-lo, tanto na definição de quem pode (ou deve) acompanha-lo nesse processo até a sua organização. Ela pode ser utilizada no planejamento, desenvolvimento e avaliação como orientadora na sistematização da análise de conjuntura e proposta de novas ações tendo em vista a efetivação da educação inclusiva.

Quem pode (ou deve) fazer parte? A educação inclusiva é um processo contínuo e dinâmico que implica a participação de todos. Procure, portanto, envolver gestores públicos (da educação e de outras áreas), gestores escolares, educadores, profissionais não docentes e voluntários que atuam na escola, familiares (de estudantes com e sem deficiência), representantes da comunidade, parceiros e, claro, os próprios estudantes.

Por onde começar? Temos observado que projetos educacionais inclusivos se tornam consistentes e sustentáveis mediante a existência de ações relacionadas às seguintes dimensões: políticas públicas, gestão escolar, estratégias pedagógicas, famílias e parcerias. A metodologia proposta pelo Instituto Rodrigo Mendes indica que esforços nesse sentido podem começar pela análise dos arranjos e situações do contexto educacional a partir da identificação de barreiras e potencialidades em cada uma destas dimensões. Este artigo detalha um pouco mais esta proposta e indica a importância de tomar como referência os princípios da educação inclusiva.

O primeiro princípio: toda pessoa tem o direito de acesso à educação. Sabemos que algumas das controvérsias, ambiguidades, contradições mencionadas no início derivam de diferentes compreensões e usos do termo educação inclusiva. Essa expressão tem sido interpretada e aplicada de acordo com múltiplos contextos e interesses, e por isso é válido enfatizarmos que, como afirmam Jane Corbett e Roger Slee, referências internacionais na área, “inclusão diz respeito a todas as pessoas. Não é condicional, nem pode ser parcial”. Aqueles que defendem exceções, geralmente argumentam que alguns alunos não podem frequentar escolas regulares devido às suas condições ou necessidades ou que as escolas não estão preparadas para recebê-los e são incapazes de suprir suas necessidades, de lidar com as suas dificuldades e de oferecer recursos ou pessoal adequados. Esses argumentos referem-se à lógica da integração. A educação Inclusiva pressupõe o reconhecimento da diferença como um valor e o direito de cada um ser como é, contemplando, assim, a vasta gama de diferenças étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais e de gênero inerentes aos seres humanos. Implica a transformação da cultura, das práticas e das políticas vigentes na escola e nos sistemas de ensino, de modo a garantir o acesso, a participação e a aprendizagem de todos, sem exceção.

Não há fórmula ou receita pronta de como fazer inclusão. Mas esperamos que, além das referências mencionadas, os artigos, estudos de caso e relatos de experiência do DIVERSA possam subsidiar discussões relevantes em seu município e fomentar o trabalho coletivo na construção do projeto pedagógico e de um sistema educacional de fato inclusivo.

Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vindo aqui. 🙂

Raquel Paganelli Antun – Equipe DIVERSA

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