Como lidar com o comportamento agressivo de uma criança com Síndrome de Down?

Sou professora de AEE e trabalho com uma aluna que tem Síndrome de Down na rede municipal, ela tem oito anos de idade, mas sua idade mental é de quatro anos, às vezes tem comportamento agressivo. Gostaria de saber como trabalhar com essa aluna e fazer com que ela aprenda. Ela gosta de fazer o que já sabe, quando introduzimos algo diferente ela rejeita e joga o que tiver perto no chão.

3 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 30/06/2017

Olá Professora!

Para começar, é importante esclarecer que a agressividade não está necessariamente relacionada à Síndrome de Down. Muitas pessoas com o mesmo diagnóstico apresentam características bem diferentes e até mesmo contrárias a essa. Há, inclusive, professores que se queixam da indiferença, ou ausência de reação, de alunos com Síndrome de Down em relação ao que lhes acontece. A verdade é que somos todos diferentes. E o mesmo vale para as pessoas com deficiência. Por isso, antes de “olhar” para a aluna a partir do diagnóstico, é importante conhecê-la bem como pessoa, como criança, que é. Este relato de experiência sobre o processo de inclusão educacional de uma menina que apresentava comportamentos agressivos que interferiam na dinâmica cotidiana de sala de aula ressalta a importância de buscar conhecer bem cada aluno e de fazer isso de modo colaborativo. Numa das respostas a essa outra pergunta do fórum, a assessora em educação inclusiva Marília Costa Dias aponta o trabalho colaborativo como um dos princípios fundamentais da educação inclusiva. A outra resposta a esta mesma pergunta apresenta o modelo social de deficiência, sobre o qual também vale a pena refletirmos. O modelo social esclarece que não basta olhar para o aluno. É preciso ir além, buscando também identificar as barreiras presentes na escola para, então, superá-las. Este relato de experiência descreve uma situação em que os agentes diretamente envolvidos com o aluno no cotidiano escolar precisaram mudar a forma de se relacionar com ele para que fosse possível conquistar avanços também em relação a comportamentos agressivos.

A agressividade quase nunca é uma manifestação isolada. Na maioria das vezes, trata-se de uma forma de expressão. É muito comum, por exemplo, que crianças que não falam manifestem comportamentos agressivos, em maior ou menor escala. Não somente as com deficiência. Nós, que convivemos cotidianamente com crianças na escola, havemos de reconhecer que muitas manifestam agressividade, de diversas formas, batendo umas nas outras, atribuindo apelidos, etc. Mas se um indivíduo com deficiência o faz, passa a “carregar” este estigma associado ao diagnóstico.

Sugerimos que você busque engajar todos os envolvidos – a própria aluna, os colegas, a família, a equipe da escola (também os profissionais não docentes que se relacionam com ela) e outros atores da comunidade escolar – num esforço investigativo cujo objetivo é identificar o que ela está tentando comunicar e que possíveis barreiras à sua inclusão, na escola ou fora dela, podem estar fomentando tais comportamentos.

A mesma lógica e orientação vale para “como trabalhar com ela e fazer com que aprenda”. Sabemos que durante muito tempo, acreditava-se que era possível padronizar estratégias terapêuticas e pedagógicas a partir de um mesmo quadro diagnóstico. Atualmente, a partir da perspectiva inclusiva (e por experiência), sabemos que isso não é possível. Ainda que apresentem pareceres diagnósticos absolutamente iguais, duas pessoas podem reagir às mesmas intervenções de maneiras (bem) diferentes. Não há, portanto, “receitas prontas” ou métodos infalíveis de como trabalhar com uma aluna com determinada síndrome. Como já dito anteriormente, somos todos diferentes. Assim, o processo de inclusão de cada aluno é único também. Por isso, torna-se fundamental avaliar cada situação especificamente a fim de encontrar meios de garantir a inclusão efetiva de qualquer criança, jovem ou adulto, independentemente do laudo que o acompanha. A resposta a esta outra pergunta do fórum, também referente a uma criança com Síndrome de Down, fala um pouco sobre isso.

Vale ressaltar a potencial relevância da participação do(a) profissional do atendimento educacional especializado (AEE) nesse processo. Segundo a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, a função do AEE é justamente identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade para a eliminação das barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas. O AEE é direito garantido aos alunos com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Se a sua escola não oferece esse serviço, sugerimos que você ou a família procurem a respectiva secretaria de educação. 😉

Há, ainda um aspecto importante presente em sua pergunta sobre o qual é importante refletir: a noção de idade mental. Sugerimos que você leia este artigo que fala sobre isso: O desenvolvimento de alunos com deficiência intelectual e o mito da idade mental.

Além dos já mencionados, há vários outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência que podem subsidiar e fomentar o trabalho colaborativo na busca por estratégias que de fato contribuam para a plena inclusão dessa e de outras crianças.

Conte-nos sobre isso e continue participando de nossa comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

Raquel Paganelli Antun – Equipe Diversa

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Por Marta Avancini em 22/08/2017

Olá, a primeira coisa, a meu ver, é tentar distinguir a agressividade da Síndrome de Down. Pessoas, independentemente de sua condição genética, podem ser agressivas (ou amorosas, alegres, pacientes etc.). Sou mãe de dois filhos, um garoto de 11 anos e uma garota de 10 anos. A menina tem Down, mas posso te garantir que cotidianamente convivo com as mudanças de humores e de comportamento dos dois.

No caso de qualquer criança, antes de tudo, a gente precisa olhar para a criança.

Nesse caso, a criança pode estar sendo agressiva por vários motivos, que precisam ser analisados. E, nesse sentido, a agressividade pode ser um modo de a criança expressar algo que ela não está conseguindo transmitir de outra maneira. A agressividade é uma linguagem.

Observe a criança e procure se relacionar com ela, percebendo-a como ser humano, como uma pessoa que, como qualquer um, tem “seus bons e maus momentos”. Como ela se relaciona com as atividades propostas? Qual é o seu tempo de concentração? Que tipo de atividade é mais estimulante para ela? Como ela se relaciona com as demais crianças? Como ela se comporta na sala de aula? Ela fica isolada durante o recreio?

Outra dica importante: valorize muito seus avanços e potencialidades. Identifique o ela tem de bom e diga isso a ela. Tudo isso pode ajudar você a estabelecer uma conexão com essa criança, colaborando para que a relação se dê de outra maneira.

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Por Rosana Bignami em 30/08/2017

Olá, professora. É um erro associar Síndrome de Down à agressividade, pois uma situação não tem relação com a outra. Também é um erro afirmar que há “idade mental”. A pessoa com Síndrome de Down se expressa conforme o meio, da mesma forma que as demais pessoas. Se a criança está expressando agressividade é porque o meio é agressivo com ela, ou não facilita a comunicação.

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