Como incluir aluno com paralisia cerebral em escola sem AEE?

Olá!

Trabalho em uma escola estadual de ensino fundamental II e ensino médio e não temos atendimento educacional especializado (AEE). Temos alguns estudantes com deficiência intelectual e não sei como trabalhar com eles. Leciono para um aluno com paralisia cerebral e que é praticamente tetraplégico também. Ele tem muita dificuldade na fala. A Secretaria Estadual da Educação providenciou uma “cuidadora”, funcionária de uma empresa terceirizada, que na realidade não tem formação compatível para cuidar de ninguém. Há também a van que realiza seu transporte da escola para sua casa.

A Diretoria de Ensino não nos dá nenhuma assistência especializada e apenas exige que o aluno participe e seja participante, porém, o que ocorre na verdade é somente a socialização do mesmo. A mãe desse estudante é professora de ensino fundamental I e o ajuda a estudar. Apesar de todas as limitações, ele demonstra ser muito inteligente e ativo, ele já tem 18 anos e está no 9º ano, porém todos os professores que lecionam para ele não conseguem desenvolver sua aprendizagem.

Por favor, se puderem, me ajude, pois estamos “num mato sem cachorro”.

Atendimento educacional especializado (AEE)

2 respostas

Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 22/08/2017

Olá, infelizmente seu relato deve ser mais um que soma a tantos outros que existem na rede estadual, mas que vivem no anonimato. Vivencio essa situação de descaso e falta de seriedade e competência por parte das equipes de suporte pedagógico que poderiam auxiliar a amenizar essa situação. Não consigo entender a estrutura administrativa pedagógica estadual, é muito fragmentada, o suporte de apoio vive perto, porém muito longe da realidade das salas de aulas, sem as devidas formações. É muita burocracia, por meio das legislações e suas interpretações, mas compromisso integrado para fazer de fato acontecer e promover o direito à educação não existe. Segundo pesquisadores, o AEE ou o APE, como existem nas escolas estaduais de SP, deveriam garantir o “direito à educação, direito humano”, direitos fundamentais para o desenvolvimento social do aluno com necessidades especiais. São direitos assegurados na Constituição Federal de 1988, o direito à educação (escolarização) realizada em classes comuns e ao atendimento educacional especializado, complementar ou suplementar a escolarização, realizado preferencialmente em salas de recursos na própria escola, onde estejam matriculados, ou em outra escola, ou centros de atendimento educacional especializado.

Identifico que o processo para haver mudanças significativas está muito lento. Atualmente, a rede pública estadual está passando por reformulações em suas propostas educacionais. Tivemos alterações recentes nas legislações no que diz respeito à qualificação necessária dos docentes para ministrarem aulas na educação especial, com a Resolução SE 5 de 20/01/2017, que dispõe sobre a educação especial nas unidades escolares da rede estadual de ensino, que ainda mantém apenas uma carga horária mínima de 180 (cento e oitenta) horas para os professores atuarem nessa área, e não determinam nenhuma formação especifica ou carga horária para os demais cargos pedagógicos ou para outras funções de apoio que atuam dentro das escolas. Mudanças que precisam ter relevância e serem efetivadas também na estrutura do currículo das escolas, no projeto político-pedagógico (PPP), em conformidade com os setores pedagógicos (educação especial) das Diretorias de Ensino. Precisa haver um mapeamento, estudos de casos e orientações especificas para promover articulação pedagógica dentro das escolas.

Não se desesperem, mesmo esse aluno apresentando suas particularidades referentes a sua deficiência, as estratégias de ações pedagógicas interdisciplinares precisam ser revistas e adequadas. As práticas convencionais não funcionam. Utilizem o currículo funcional. “O currículo funcional, muitas vezes chamado de currículo funcional ecológico, pode ser definido como um meio que favorece a cada aluno o desenvolvimento de oportunidades para uma vida independente, com dignidade e baseado no ambiente natural do aluno”. Ele visa identificar e desenvolver habilidades que auxiliam aumentar as possibilidades da pessoa para participar na vida cotidiana seja na escola, no trabalho, nas atividades recreativas e na sociedade como um todo. Devemos levar em conta também que a aprendizagem acontece em um processo de ativação das estruturas cerebrais, ações que precisam de estímulos, motivações. Como metodologia principal precisa haver um vínculo emocional, para que haja uma relação reciproca, um querer das pessoas envolvidas no processo pedagógico para ter significado para esse aluno. Ações que não envolvam a “dó”, o “medo”, a “ignorância”, mas a vontade de ajudar, de auxiliar por meio de estratégias teorico-metodológicas que lhes permitam o desenvolvimento cognitivo e a apropriação ativa do saber, respeitando suas limitações. Levar em conta, também, que o (laudo) diagnóstico médico do aluno deve ser conhecido apenas para identificar as suas dificuldades e potencialidades, servindo para nortear as propostas pedagógicas, jamais para rotular, caracterizar, padronizar. Nesse sentido, enquanto professores, precisamos assumir posturas de agentes sociais, pesquisadores, para sairmos do comodismo do conformismo e assumirmos de fato uma profissão de honra por competências. Abraços

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Por Raquel Paganelli Antun em 31/01/2018

Olá João Inácio!

Seja muito bem-vindo à nossa comunidade.

Sua pergunta evidencia (pelo menos) dois problemas bastante comuns no Brasil e em muitos outros países cujas leis garantem acesso à educação, participação em todas as atividades da escola e aprendizagem de todas as pessoas, independentemente de suas características, sem exceção.

O primeiro é a omissão por parte da gestão pública e da gestão escolar em relação à educação inclusiva e às providências que ela acarreta. Uma delas é justamente o atendimento educacional especializado, mencionado por você. Trata-se de um direito garantido aos estudantes público-alvo da educação especial. Assim, quando a própria escola não dispõe desse serviço, é preciso procurar a Secretaria de Educação para que esse passe a ser oferecido lá mesmo, através da instalação de uma sala de recursos multifuncionais (SRM), ou para identificar outro espaço (escola próxima, centro de atendimento, etc.) onde o estudante possa ser atendido no contraturno escolar. Considerando a situação descrita por você, outra medida importante é garantir espaços coletivos de formação no contexto da própria escola, nos quais, além de toda a equipe pedagógica e gestora, a maioria dos envolvidos possa estar presente. A resposta a esta outra pergunta do fórum ressalta a necessidade e a importância de espaços internos de discussão e aprendizado mútuo sobre educação inclusiva na escola e aponta possíveis estratégias de apoio nesse sentido.

Essa segunda medida remete ao segundo problema: a sensação generalizada de despreparo de grande parte dos professores em relação a como trabalhar com alunos que diferem da maioria. O artigo “Qual é o preparo necessário para incluir um estudante com deficiência?” trata justamente dessa questão e pode ser um bom ponto de partida para o debate sobre “o que fazer” com esse e outros estudantes em sua escola.

Também selecionamos algumas histórias em que, diante de situações parecidas com a descrita por você, a escola se mobilizou e encontrou soluções simples e possíveis para promover ou potencializar a participação e a aprendizagem de alunos com deficiência. Talvez sirvam de inspiração para o desenvolvimento de novas práticas:

Escola usa ginástica rítmica para incluir crianças de área de vulnerabilidade
Bocha inclusiva incentiva protagonismo de aluno com deficiência física
Estudantes se mobilizam para promover aulas de Libras para todos
Estudantes do ensino médio criam kit para ensinar física a colega cego
Jovem surdo vira músico em espetáculo após aprender ritmo com pulsar do coração
Grupo de teatro produz “O pequeno príncipe” protagonizado por jovem com Síndrome de Down
Aluna universitária e cega sensibiliza crianças sobre inclusão e formas de ser diferente

É importante esclarecer, no entanto, que os encaminhamentos sugeridos acima, apesar de muito importantes, não são suficientes. Olhar somente para esses alunos não resolverá as muitas questões levantadas por você no longo prazo. É preciso envolver a gestão da escola, a equipe (docentes e não docentes), os estudantes, os familiares, voluntários, parceiros, enfim, todo mundo em uma empreitada bastante ousada, porém absolutamente possível e necessária: transformar a escola toda de modo a torná-la de fato inclusiva. Para facilitar, o portal DIVERSA criou esta seção “Como transformar a escola e as redes de ensino?“, que apresenta conceitos fundamentais e orientações com o objetivo de subsidiar esse complexo processo de mudanças que desafia a cultura da homogeneização e da meritocracia que resulta em exclusão a partir do reconhecimento do direito de todos à educação.

Esperamos que essas referências (veja também os links embutidos no texto) possam subsidiar discussões relevantes em sua escola e fomentar o trabalho colaborativo na busca pelo pleno desenvolvimento das potencialidades deste e de todos os outros estudantes.

Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vindo aqui. 🙂

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