Como família e gestão podem trabalhar juntos em caso de bullying na escola?

Sou mãe de uma adolescente de 14 anos que atualmente está fazendo o 8° ano do ensino fundamental e é uma menina muito inteligente e esforçada. Ela tem síndrome de Moebius, apresenta paralisia facial, tem o pé direito torto e distúrbios no comportamento. Ela sofre muito bullying na escola devido os traços no rosto. Vou sempre à escola conversar com a direção, mas vejo que o diretor não tem nenhuma experiência com esse tipo de problema, ele não sabe como resolver a situação. Eu também fico preocupada com o desenvolvimento dela e gostaria muito que a escola tivesse um trabalho voltado para esse tipo de assunto. O que eu faço?

Bullying

3 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 07/08/2017

O bullying surge da não aceitação da diferença, enquanto a educação inclusiva pressupõe o reconhecimento da diferença como um valor intrinsecamente humano e o direito de cada um ser como é. A Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, que no Brasil tem equivalência de emenda constitucional, garante não somente a presença, mas também exige que a escola se organize de modo a garantir o pleno desenvolvimento do potencial de sua filha, o que inclui “o respeito à sua dignidade” (texto da Convenção). Ou seja, o bem estar de sua filha na escola é um direito garantido em lei.

E isto não tem a ver somente com a sua filha. O bullying sofrido por ela nada mais é que um sintoma de um problema ainda maior. O que você relata denota que a escola ainda vive sob a ótica da normalização, o que também prejudica os alunos que não apresentam deficiências, mas que têm diferenças óbvias entre si. Em outras palavras, há uma cultura de estranhamento e exclusão ao que é diferente. Ou seja, não se trata de uma questão marginal, mas sim, de uma mudança cultural urgente e necessária a ser assumida como meta prioritária pela gestão escolar. Quando dizemos que a educação inclusiva implica a transformação da escola estamos falando exatamente disso. É preciso incluir tal objetivo no projeto político-pedagógico da escola e direcionar todas as ações no sentido de alcançá-lo. Este relato de experiência indica que esta questão precisa ser incorporada até mesmo no currículo.

Ainda que o diretor não tenha “experiência com este tipo de problema” ou não saiba “como resolver a situação”, ele não precisa e nem deve fazer isso sozinho. Este estudo de caso aponta a gestão democrática como condição para o combate ao bullying. Com uma gestão democrática, a escola cria um ambiente de aceitação que fomenta o estabelecimento de uma “cultura da diferença”. Ou seja, a resposta já está contida em sua pergunta: é fundamental que a escola e as famílias unam esforços, estabelecendo uma relação de parceria cooperativa e de apoio mútuo com vistas ao estabelecimento de uma cultura de fato inclusiva.

Há várias maneiras de configurar espaços de diálogo entre a escola e a família. Independentemente do formato, é fundamental que viabilizem a participação ativa de todos, em um ambiente caracterizado pela diferença, para a transformação da escola e a inclusão efetiva de sua filha. Com dignidade.

Esperamos tê-la ajudado. Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui.  🙂

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Por Maria Ligia de Castro e Carrijo Monteiro em 07/11/2017

Um projeto desenvolvido com toda escola sobre diversidade (os alunos dão nome ao projeto), sessão de cinema com a presença de debatedores, após ouvirem os alunos; reunião de pais para estudarem o motivo de alunos praticarem bullying

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Por Grupo de Estudos Composição em 19/06/2018

Olá!

Somos um grupo que se reúne periodicamente para discutir assuntos relacionados à educação inclusiva. Em nosso último encontro, lemos sua pergunta, dialogamos sobre a situação descrita por você e achamos válido registrar aqui algumas de nossas ponderações. Esperamos que possam ajudá-la de alguma forma.

Há um aspecto importante nessa pergunta que precisa ser esclarecido. O bullying é uma prática cujo conceito tem sido amplamente confundido. Trata-se de um conjunto de atitudes específicas, intencionais e repetitivas, claramente envolvendo opressão. Aparentemente, a situação relatada por você descreve outro fenômeno: a discriminação. Entender a diferença entre os dois é fundamental não somente para identificar o que está realmente acontecendo, mas principalmente porque as estratégias de intervenção são também bastante distintas. Considerando suas características e possíveis consequências, o bullying demanda medidas de intervenção mais drásticas. E a discriminação, ações de natureza formativa. Como dito pela Raquel na outra resposta, é preciso transformar a cultura vigente não só na escola de sua filha mas em nossa sociedade – de uma cultura que estranha e exclui a diferença para uma que a reconhece como valor. E ainda que caiba à gestão escolar assumir esse objetivo, alcançá-lo implica a participação de todos. É preciso envolver todos os educadores, profissionais não docentes e voluntários que atuam na escola, familiares (de estudantes com e sem deficiência), representantes da comunidade, parceiros e, claro, os próprios alunos. Para que todos, não somente a sua filha, possam usufruir do direito de ser como são, independentemente de suas características étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais, de gênero, etc. Isso é inclusão.

Grupo de Estudos Composição

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