Como facilitar a comunicação entre escolas e equipe de saúde?

Compartilho com vocês uma situação de experiência pedagógica e social que poderá servir como um alerta e também como uma indagação. Desde fevereiro de 2017, primeiro dia do ano letivo, conheci uma aluna com deficiência múltipla, 16 anos, 6º ano do ensino fundamental. Mas, quais deficiências? Na lista de chamada na frente do nome da aluna apresenta: múltipla. Aproximei-me da aluna, a primeira impressão foi que a mesma havia sofrido queimaduras em todo corpo, principalmente no rosto e no olho. Então escutei: “professora eu morri”.

Diante dessa situação exercendo a profissão pedagógica e também como agente social que precisamos ser enquanto professores, fui buscar mais informações sobre seu caso. Na Prodesp (Programa de Modernização Tecnológica e Informatização da Secretaria de Estado da Educação – SEE/Cadastro de alunos) constava: mental, epilepsia e síndrome. Mas qual síndrome? Então fui buscar mais informações em seu prontuário na secretaria da escola. Nada constava sobre o código internacional da doença (CID), ou outro parecer médico sobre seu caso. Então sabendo que a mesma havia frequentado a APAE anos anteriores, fui buscar informações lá, e com a família, muito humilde. Conheci uma especialista da equipe de saúde que havia tratado dela, e explicou-me suas deficiências. Descobri que a aluna teve Síndrome de Steven Johnson, provocada por uma reação alérgica de medicamento, aos sete anos. Afetou sua visão, danificou seu globo ocular provocando baixa visão, possui olho seco que, à luz do dia, prejudica totalmente a pouca visão que tem. Seu envolvimento e integração pedagógica dentro da escola estavam nulos, há anos.

Atualmente consegui encaminhamentos nas Universidades de minha cidade para atendimento psicológico e dentário, estou tentando marcar consulta para o neurologista e oftalmologista, para que a mesma possa melhorar sua visão e ter um acompanhamento médico periódico de uma equipe de saúde para auxiliar sua qualidade de vida. Mobilizei outros pares, atualmente ela participa constantemente das minhas aulas, recebeu material pedagógico ampliado. Pois é uma aluna que tem conhecimento de mundo, sabe ler e escrever, porém com um grau acentuado de baixa autoestima.

Mas, recentemente deparei-me com uma situação de imprudência médica, incluindo todos os outros protocolos e burocracias do Sistema Público de Saúde que estou enfrentando. Acompanhei a aluna em uma consulta com um médico clinico para que o mesmo realizasse os encaminhamentos para os especialistas das áreas: neuro e oftalmo. Simplesmente o médico que atendeu a aluna, dificultou e retardou os encaminhamentos para os especialistas, pois o mesmo colocou nos pedidos de encaminhamentos o CID de autismo, justificou que o CID da síndrome da aluna não estava relacionado com as doenças do sistema público de saúde da plataforma, e que esse serviria.

Diante desses fatos, como podemos realizar um atendimento pedagógico digno inclusivo dentro das escolas para esses alunos, se não existe uma conexão, uma integração entre os órgãos públicos estaduais e municipais, equipe de saúde e pedagogos sobre a real situação e acompanhamento desses alunos? Apenas são identificados no cadastro de alunos com códigos? Se o professor escreve os nomes dos alunos na caderneta de chamada, ignorando o código, ninguém sabe que esse aluno precisa de um atendimento diferenciado. Relato outro fato que aconteceu, um professor faltou, entrou um professor eventual na sala, ele não sabia que o aluno era de inclusão, destratou o mesmo com indiferença, rotulando-o de preguiçoso e indisciplinado, exemplo real. Tenho uma outra aluna que apresenta quatro números de CID no cadastro da SEE está como (DI) deficiência intelectual. O que podemos fazer para melhorar essa situação?

Intersetorialidade

1 resposta

Por Raquel Paganelli Antun em 07/08/2017

Olá Maria de Lourdes!

Sugerimos, a partir de experiências exitosas – na busca pela “união de esforços” entre a educação e a saúde em prol da educação inclusiva – que temos observado, duas estratégias nesse sentido:

• Constituir espaços de diálogo entre a equipe de gestão e de operacionalização dessas duas grandes áreas em cada contexto de rede (municipal ou estadual) com o objetivo específico de estabelecer uma relação de parceria para o fortalecimento da política de educação inclusiva.

• Constituir espaços de diálogo entre a equipe pedagógica da escola e profissionais de saúde (os que atendem os estudantes já matriculados bem como outros, da comunidade, que configurem como potenciais parceiros principalmente do(a) professor do AEE) com o objetivo específico de estabelecer uma rede de apoio para potencializar o processo de inclusão educacional dos alunos com deficiência ali presentes.

Nos dois casos, é importante que os encontros sejam sistemáticos e, no caso da escola, que tal estratégia seja prevista no projeto político-pedagógico, a fim de garantir a consistência e a continuidade do trabalho. E, principalmente, que as discussões estejam sempre centradas na identificação e na superação das barreiras para a plena inclusão desses estudantes, e não em seus impedimentos.

Neste estudo de caso, a gestora da área de educação inclusiva da rede municipal de ensino de Florianópolis reconhece a importância da intersetorialidade para a educação inclusiva e a dificuldade generalizada de viabilizá-la na prática. O estudo traz ainda o exemplo de uma ação local: as “reuniões da rede intersetorial”. Este artigo também trata da importância da articulação intersetorial nesse sentido, focando especificamente a parceria entre a educação e a saúde.

Este é o primeiro de quatro aspectos importantes, presentes em sua pergunta, que gostaríamos de destacar: a importância do estabelecimento e da consolidação de redes de apoio para a efetivação da educação inclusiva. É válido esclarecer que tal proposta não abrange somente os profissionais da área da saúde, mas também representantes de outras áreas da comunidade, os próprios alunos e seus familiares.

O segundo aspecto tem a ver com o papel do diagnóstico no processo de inclusão educacional dos estudantes com deficiência. Se a educação inclusiva pressupõe não somente o reconhecimento, mas a valorização das diferenças na escola e em sala de aula – e, portanto, que cada um tem o direito de ser como é –, aspectos relativos ao diagnóstico dos alunos, assim como qualquer outra de suas características, não devem ser neutralizados ou negados no contexto educacional. Além disso, conhecê-los pode facilitar a identificação da necessidade de apoios. Mas, por outro lado, o diagnóstico pode representar uma barreira ao processo de inclusão desses estudantes. É bastante comum que professores ou outros profissionais da escola justifiquem o próprio “não fazer”, usando-o como pretexto. Ou que limitem as oportunidades de aprendizagem dos alunos, interpretando-o como atestado de incapacidade, ao invés de apostar em suas possibilidades. É preciso tomar muito cuidado nesse sentido. E considerar que o desconhecimento do diagnóstico não inviabiliza a inclusão de nenhuma criança, qualquer que seja sua deficiência ou características.

O terceiro aspecto é sobre o cadastro dos alunos com deficiência. Sugerimos que, quando o CID não estiver contemplado entre as opções do sistema, a escola envie uma carta à Secretaria de Educação, pedindo que o mesmo seja incluído. Inserir um CID genérico que nada tem a ver com o real diagnóstico do estudante, somente para “cumprir protocolo”, pode gerar consequências bastante negativas. Entre elas, a aquisição equivocada de apoios e tecnologia assistiva.

O quarto e último aspecto diz respeito a quem é e a quem não é “aluno de inclusão”. Para começar, a partir do reconhecimento de que uma pessoa com deficiência é, antes de qualquer coisa, simplesmente uma pessoa, e sua condição sensorial, intelectual ou física é mais uma entre outras tantas características, o termo recomendado é pessoa com deficiência. Essa tem sido a terminologia usada mundialmente nos últimos anos, em todos os idiomas. Quando usamos a expressão “alunos de inclusão” ao nos referirmos a alguns estudantes apenas, sugerimos que os demais não sejam “de inclusão”. E a educação inclusiva diz respeito a todos, não somente aos alunos público-alvo da educação especial. Ou seja, o professor eventual citado por você não deveria “destratar” nenhum aluno “com indiferença, rotulando-o de preguiçoso e indisciplinado”. Este artigo do especialista português em educação inclusiva David Rodrigues aborda esse assunto de modo bastante peculiar e interessante.

Dizemos com frequência que a educação inclusiva é um processo. E dizer isso sugere que ela muda à medida que avança, encontra dificuldades e pode dar passos para trás até descobrir outros caminhos. Nesse percurso, observamos que a comunicação entre a educação e a saúde representa um grande desafio na maioria dos contextos. Não dizemos isso para desanimá-la. Ao contrário, para que saiba que não se trata de exceção e para que continue firme dada a importância desse esforço.

Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você tem sido super participativa no fórum. E é uma alegria tê-la conosco por aqui! 🙂

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