Como ensinar ciências para turmas heterogêneas?

Sou professora de ciências e trabalho com turmas de 7º, 8º e 9º anos do ensino fundamental, totalmente heterogêneas. Mas o problema não é serem heterogêneas. Quanto ao convívio não tenho problemas. Mas tenho, por exemplo um aluno com deficiência auditiva que não fala. Como ensinar ciências se eu não sei me comunicar com ele? Outros tem distúrbios quanto à leitura e escrita, não conseguem ler e escrever. Como trabalhar com esses alunos em meio a tanta diversidade com relação aos “ditos normais”?

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Por Raquel Paganelli Antun em 26/07/2017

Olá, Margareth!
Seja muito bem-vinda! 🙂

Não há “receitas prontas”, mas, sim, dicas importantes de como trabalhar com turmas heterogêneas, tais como: flexibilizar o currículo e diversificar estratégias. E, para fazer isso, o ponto de partida é o próprio aluno. É preciso, antes de qualquer coisa, buscar conhecê-lo bem.

Partir do repertório e dos eixos de interesse dos estudantes torna o processo de ensino-aprendizagem muito mais espontâneo, prazeroso e significativo para todos. Uma dica é sempre se perguntar: O que cada um deles sabe sobre o conceito que desejo ensinar? Como seus interesses podem ser explorados como estratégia para o ensino de ciências?

E o esforço no sentido de conhecer, reconhecer e valorizar as singularidades dos alunos não precisa – nem deve – ser solitário. Outra dica importante é envolver “todo mundo” – outros professores e profissionais da escola, a família, os próprios estudantes, etc. – nesse processo investigativo. Por exemplo, no caso do menino surdo mencionado por você, é necessário contar com o apoio das pessoas que convivem com ele em outros espaços e ambientes para identificar de que forma(s) se comunica.

E isto não diz respeito somente aos alunos com deficiência. A educação inclusiva parte do pressuposto de que qualquer turma, de qualquer escola, é totalmente heterogênea. Ainda que nela não haja estudantes com deficiência. Isto porque a diferença é uma característica humana. Somos todos diferentes. E o processo de aprendizagem de cada pessoa é único, singular. Muitas vezes, a presença de um aluno com deficiência ajuda o professor a se dar conta disso. Mas, para que isso aconteça, a deficiência precisa ser compreendida a partir do modelo social. Caso contrário, os outros, os “sem deficiência”, continuarão sendo vistos como “iguais” e privados do direito à diferença . O modelo social prevê que a origem das dificuldades que os estudantes enfrentam na escola não está nas características ligadas ao diagnóstico, mas, sim, nas barreiras que enfrentam dentro e fora de sala de aula. E as principais barreiras que encontramos na escola são decorrentes da expectativa de homogeneidade.

Vale ressaltar a potencial importância do profissional do AEE neste processo. Principalmente na identificação destas barreiras e na diversificação de estratégias. Professores criativos ou que já tenham experiência com inclusão de estudantes com deficiência também podem ser bons parceiros. Liliane Garcez, especialista em educação inclusiva, enfatiza a importância de coletivizar “(…) o fazer pedagógico no sentido de aproximar o discurso de que cada aluno é da escola e não só do professor às ações cotidianamente desenvolvidas, buscando meios de modos de trabalho colaborativo entre nós e dentro de nossas salas de aula”.

Para ensinar ciências ou conteúdos de qualquer outra área de maneira inclusiva, é preciso reconhecer e considerar todas as diferenças – de credo, raça, gênero, condição econômica, social, cultural, física, mental, intelectual, sensorial ou linguística – presentes em sala de aula. Ciente de que não os “tais alunos normais” não existem. E sabendo, de antemão, que sempre haverá alunos cuja chegada representará novos desafios e agregará novos aprendizados a você, como educadora [artigo sobre o mito do preparo prévio].

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