Como encontrar possibilidades de ensino para estudantes com deficiência intelectual?

Além de atuar como técnica da Secretaria Estadual de Educação, atuando na equipe de Serviço de Apoio à Inclusão, também exerço a função de professora da educação de jovens e adultos (EJA), 2º segmento, na rede municipal de educação de Mariana (MG).

Tanto no âmbito estadual quanto no municipal, a maior dificuldade que encontramos está relacionada às práticas pedagógicas mais adequadas aos alunos com deficiência intelectual. Há muitas dúvidas entre os professores e gestores escolares quando o assunto é o que fazer para ensinar um aluno que apresenta “retardo mental” de forma a garantir que esse aluno aprenda, e, mais que isso, como saber o que esse aluno dá conta de aprender.

Além disso, nem sempre escolas e professores têm em mãos um laudo médico que defina e oriente sobre a deficiência do aluno. Como proceder nesse sentido? Onde podemos encontrar possibilidades de ensino para esses alunos? Como avaliar a aprendizagem deles?

Deficiência intelectual

7 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 22/08/2017

Olá Elizete!

Há várias questões importantes em sua pergunta sobre as quais vale a pena ponderarmos…

Comecemos por “como saber se alunos com deficiência intelectual dão conta de aprender?”. A educação inclusiva parte do pressuposto de que toda pessoa aprende, sejam quais forem as particularidades intelectuais, sensoriais e físicas. Mas, então, por que alguns estudantes continuam não aprendendo? No caso daqueles com hipótese ou diagnóstico de deficiência intelectual, a tendência continua sendo alegar que o “fracasso escolar” é decorrente da própria deficiência. Historicamente, as políticas e práticas pautadas nos paradigmas da segregação e da integração legitimavam a exclusão de crianças e adolescentes com deficiência intelectual com base no diagnóstico. A deficiência era, então, compreendida sob a perspectiva médica, centrada em características individuais. Acontece que, na educação inclusiva, a deficiência passa a ser entendida como uma variável contextual. O assim chamado modelo social de deficiência, difundido principalmente a partir da publicação da Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, em 2006, passou a considerar, além dos aspectos clínicos representados por impedimentos na pessoa, fatores que são externos a ela: as barreiras presentes no ambiente. Assim, se partimos do pressuposto de que toda pessoa aprende e compreendemos a deficiência a partir do modelo social, havemos de reconhecer que, na verdade, não são os alunos que não aprendem. A escola é que, muitas vezes não está preparada para lidar com a diferença e, assim, não oferece estratégias pedagógicas que favoreçam a aprendizagem.

O que remete a outras duas questões: “quais as práticas pedagógicas mais adequadas aos alunos com deficiência intelectual e como garantir que esses estudantes aprendam?”. Durante muito tempo, acreditava-se que era possível generalizar pessoas e, assim, padronizar estratégias terapêuticas e pedagógicas a partir de um mesmo quadro diagnóstico. Atualmente, já sabemos, por experiência, que essa noção é no mínimo simplista. Ainda que apresentem pareceres diagnósticos absolutamente iguais, duas pessoas podem reagir às mesmas intervenções de maneiras (bem) diferentes. Isso porque o processo de aprendizagem de cada pessoa é singular. Ou seja, a escola não tem como saber, antecipadamente, como proceder com uma criança ou adolescente com base em seu diagnóstico. Não há “receitas prontas” nesse sentido. E, portanto, não há como responder objetivamente tais questionamentos.

Mas há, isto sim, algumas dicas importantes. A resposta a esta outra pergunta do fórum sobre o processo de inclusão educacional de alunos com deficiência intelectual aponta duas delas: a importância de conhecer os alunos individualmente a fim de buscar identificar meios de garantir a participação e a aprendizagem e de isso acontecer de modo colaborativo – com a participação direta de os envolvidos, inclusive a família. Estes dois artigos pormenorizam duas outras dicas, também fundamentais: flexibilizar o currículo e diversificar as estratégias pedagógicas. E vale mencionar que a participação do(a) profissional do atendimento educacional especializado (AEE) nesse processo pode ser determinante, considerando a função deste serviço, que, segundo a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva é justamente identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade para a eliminação das barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas.

Também indicamos este outro artigo que aborda aspectos diretamente relacionados à sua pergunta, entre eles, o que há por traz da expressão “retardo mental”.

Já a questão sobre “como proceder quando não se tem em mãos um laudo médico que defina e oriente sobre a deficiência do aluno?” nos leva a pensar sobre o papel do diagnóstico no processo de inclusão educacional desses estudantes. Se a educação inclusiva pressupõe não somente o reconhecimento, mas a valorização das diferenças na escola e em sala de aula – e, portanto, que cada um tem o direito de ser como é –, aspectos relativos ao diagnóstico dos alunos, assim como qualquer outra de suas características, não devem ser neutralizados ou negados no contexto educacional. Além disso, conhecê-los pode facilitar a identificação da necessidade de apoios. Mas, por outro lado, o diagnóstico pode representar uma barreira ao processo de inclusão desses estudantes. É bastante comum que professores ou outros profissionais da escola justifiquem o próprio “não fazer”, usando-o como pretexto. Ou que limitem as oportunidades de aprendizagem dos alunos, interpretando-o como atestado de incapacidade, ao invés de apostar em suas possibilidades. É preciso tomar muito cuidado nesse sentido. E considerar que o desconhecimento do diagnóstico não inviabiliza a inclusão de nenhuma criança, qualquer que seja sua deficiência ou características.

Por fim, sobre “como avaliar a aprendizagem destes alunos?”, vale a dica mencionada acima: diversificar estratégias. A avaliação na perspectiva inclusiva é um processo contínuo e contextualizado cuja referência deve ser a trajetória individual do estudante – sem classificações ou comparações. Assim como cada pessoa tem um modo diferente/singular de acessar e produzir conhecimento, tem, também, de expressá-lo. Por isso, é necessário diversificar estratégias de avaliação para todos, considerando suas especificidades – necessidades, interesses, conhecimentos prévios, estilos de aprendizagem, formas de expressar o conhecimento, etc.

Esperamos que essas referências (veja os links embutidos no texto) possam subsidiar discussões relevantes com professores e gestores de unidades escolares de Mariana e fomentar o trabalho colaborativo na busca pelo pleno desenvolvimento das potencialidades dos alunos com deficiência intelectual bem como dos demais. Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

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Por Sandra Paula Batistão em 22/08/2017

Oi Elizete.

Quando estamos diante da sala de aula, devemos considerar que há diferentes modos de aprender e, consequentemente, diferentes modos de ensinar. Na perspectiva da mediação crítica e criadora, é preciso considerar que ao apresentar um conteúdo, podemos antecipar os temas solicitando que os alunos realizem a leitura do mesmo em duplas ou trios. Também podemos problematizar os conteúdos apresentando elementos que fazem referência ao mesmo. Por exemplo, nas aulas de geografia explorar recursos visuais. Outra adequação pedagógica que possibilita a participação proativa é considerar que após a problematização de um tema, podemos propor que os alunos analisem e decidam realizar uma das diferentes atividades propostas, sendo elas: ir às questões do livro, ou selecionar palavras-chaves do texto, ou podem optar por construir frases indicando os saberes sobre o tema, assim como podem construir um pequeno texto e/ou ainda podem apresentar seus saberes a partir da narrativa do desenho. O que pretendo aqui é afirmar que ao propor uma discussão coletiva e a partir dela adequar as atividades, podemos favorecer a todos os envolvidos no processo educativo. Não só o aluno com deficiência é considerado capaz, mas todos. Afinal, a escola que queremos é aquela que considera a capacidade de todos indistintamente, incluindo nessa proposição, nós, os profissionais da educação.

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Por Equipe DIVERSA em 08/08/2017

Olá Elizete, seja bem-vinda! Nós da equipe do DIVERSA agradecemos pela confiança em dividir suas dúvidas.

Acreditamos que encaminhamentos para desafios como o que você expôs possam ser construídos coletivamente. Por isso, gostaríamos de te indicar a pergunta “Como fazer adaptações curriculares para alunos com deficiência intelectual?”, já publicada em nosso fórum. Consideramos que as respostas enviadas pela Comunidade DIVERSA à discussão sugerida contemplam, também, a sua dúvida.

Continue nos contando suas descobertas sobre o tema da educação para todos e sinta-se à vontade para trocar experiências!

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Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 22/08/2017

Olá. É importante ressaltar que o termo “deficiência intelectual” veio para substituir os termos “deficiência mental e retardo mental”. “Deficiência intelectual” é um termo mais preciso para denominar a condição das pessoas que apresentam baixo desempenho nos testes psicológicos, nas dificuldades de aprendizagem escolar, nas atitudes imaturas aos estímulos acompanhado de limitações significativas. Enquanto educadores, não podemos medir ou padronizar esses alunos de forma qualitativa porque apresentam características diferenciadas. Precisamos observar, analisar e propor situações de aprendizagem para que os resultados das mesmas possam nos orientar por meio das identificações das dificuldades e potencialidades de cada um. É preciso, também, criar vinculo com os pais; agirmos com maior afetividade e motivação. Não podemos jamais “supor” que esse aluno aprenda pelos métodos convencionais. Em relação ao laudo médico do aluno, se existir, o diagnóstico deve ser conhecido também, apenas para auxiliar na identificação das potencialidades e dificuldades para nortear a proposta de aprendizagem. Não deve ser utilizado para rotular, caracterizar. Identifico que, agindo dessa forma, as possibilidades de ensino surgirão. Recentemente, ouvi uma frase que me chamou muito a atenção e que ajuda a fortalecer nossa prática docente: “Quando sabemos onde estamos, conseguimos saber para onde vamos”. Abraços.

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Por Luciane Frazão em 13/09/2017

Não é nenhum “bicho de sete cabeças”. Se o aluno possui um plano de trabalho educacional, as estratégias e o currículo estarão relacionados e sua avaliação ocorrerá de acordo com o seu próprio desenvolvimento acordado com o plano.

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Por Marisa Marzocchi Tomazzeto em 20/09/2017

Olá Elizabete, dando continuidade às respostas, gostaria de indicar o livro “De docente para docente” (Windys Ferreira) para compreender o manejo de sala de aula como espaço inclusivo. Tenho usado bastante esse livro pois vem com indicações práticas que dão certo. Usei aqui em Jundiaí (SP), em escola pública.

Quanto ao laudo médico, ele é importante apenas para colocar o aluno no apoio pedagógico especializado. Ele não pode ser mais um instrumento de segregação ou de estigma, não é?

Tem bastante material no site do Ministério da Educação (MEC) para subsidiar o trabalho e a aprendizagem dos professores:

Atendimento educacional especializado (AEE) – Deficiência mental
Educação inclusiva: atendimento educacional especializado para a deficiência mental

Espero ter contribuído… Abraços!

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Por Rita Figueira em 22/09/2017

Tenho um filho com Síndrome de Down e conheço outras tantas mães com filhos sd que frequentam escolas regulares. É tão animador quando vemos profissionais acima e indicações de como adaptar e ensinar para alunos com deficiência… Mas acredito que a maioria das escolas não apoiam seus professores a buscar conhecimento para adaptar materiais para os diferentes tipos de aluno… Agora ainda mais com essa coisa da apostila em todos os anos, onde os professores ficam presos a ela. A diretriz da escola deve ser clara quanto à inclusão, os professores sozinhos não conseguem fazer muito, sem o apoio da escola para direcionar esse novo paradigma: que é o de ensinar alunos com alguma deficiência.

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