Como dialogar com escola particular que não faz planejamento para aluno com deficiência intelectual?

Como dialogar com coordenação e professor de uma escola particular que não faz planejamento para aluno com deficiência intelectual e não aceita atividades adaptadas elaboradas por terapeutas? Já mudei o aluno de escola por falta desses planejamentos. Ficar de pula-pula de escola não faz bem a ele. O estudante está silábico-alfabético, com 12 anos no 5º ano. Não sei mais como dialogar para valorizar o que o aluno já sabe e desafiá-lo a novas conquistas. Acredito que a Comunidade DIVERSA tenha vários relatos e estudos de casos de fatos semelhantes. A minha expectativa é não demorar tanto para que a coordenação planeje atividades pedagógicas, evitando que ele se canse da escola. Grata.

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3 respostas

Por Nana Corrêa Navarro em 24/03/2017

Olá Angelis!
O trabalho de inclusão escolar vem muitas vezes acompanhado de diferentes compreensões, experimentações e tensões. Faz parte deste desafio para nós – que buscamos uma educação para todos – auxiliar a escola para flexibilizar-se e remodelar-se diante de crianças que problematizam o aprendizado e a socialização.

Minha sugestão seria a construção coletiva de um projeto de inclusão para o adolescente, com a equipe clínica e a equipe escolar articuladas e alinhadas trabalhando com o compromisso mútuo de reverter as dificuldades apresentadas neste momento. Um projeto que busque sustentar o caráter peculiar do adolescente em seu processo de aprendizagem e mobilizar recursos e potências de sua família, da escola e dele próprio. Acredito que a partir das expectativas de aprendizagens levantadas para o aluno será possível criar situações diversificadas de aprendizagem. É fundamental que as propostas pedagógicas sejam coerentes com a linha metodológica e didática da escola, por isso a importância da participação dos atores da escola nesta construção coletiva.

Planejar e acompanhar a formulação deste projeto , compartilhar decisões, “fazer junto” pode ser um caminho para que você em conjunto com a escola avancem nas propostas de ensino.

Caso a escola ofereça abertura pode ser interessante sugerir um espaço de reflexão e circulação da palavra que coloque em discussões fantasias, mitos e preconceitos que podem estar sustentando possíveis resistências em relação aos processos de inclusão. Um espaço que também esteja aberto para acolher e compartilhar as experiências vivenciadas pelos professores no trabalho de inclusão. Quem sabe não aparecem boas iniciativas de práticas inclusivas já acontecendo nesta escola?!
Espero ter ajudado.

Um abraço,

Nana Navarro – Psicanalista e Assessora de Práticas Inclusivas

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Por Raquel Paganelli Antun em 09/05/2017

Olá Ângelis!

Susan e William Stainback, conhecidos por seus muitos livros sobre educação inclusiva, defendem que a experiência da inclusão se baseia em um tripé: estruturação de um senso coeso de comunidade, aceitação das diferenças e resposta às necessidades individuais.

O primeiro ponto, senso coeso de comunidade, remete a dois aspectos importantes relacionados à sua pergunta. O primeiro tem a ver com a noção de pertencimento. A compreensão da inclusão como experiência subjetiva exige que busquemos analisá-la a partir da perspectiva da criança, do jovem ou do adulto em questão. Sendo assim, para que a inclusão efetivamente aconteça, o estudante precisa, primordialmente, sentir-se incluído. E para isso, precisa se sentir pertencente à comunidade escolar. O sentimento de pertencimento implica que o aluno reconheça que tem valor naquele contexto, que seja sujeito do próprio processo de escolarização e aprendizagem, entre outros pressupostos. Mas é importante considerar que isso não acontece de uma hora para outra. É preciso tempo. Ou seja, você está certíssima! Ficar “pulando” de escola em escola pode ser bastante prejudicial para o processo de inclusão educacional. O segundo aspecto tem a ver com o que a própria expressão comunidade sugere: um grupo de pessoas unidas em torno de um interesse ou propósito comum. É fundamental que todos – diretor, coordenador, professores, profissionais não docentes, família, terapeutas e o próprio estudante – sejam envolvidos num processo colaborativo consistente, caracterizado pela diferença, onde todos têm a ensinar e aprender, fundamentado num mesmo objetivo: a plena inclusão do aluno. Em resposta a outra pergunta do fórum, a assessora em educação inclusiva Marília Costa Dias aponta o trabalho colaborativo como um dos princípios fundamentais da educação inclusiva. Segundo ela, é preciso garantir espaços de troca, de estudo, de reflexão sobre a prática, onde todos os envolvidos possam conversar sobre as estratégias que utilizam, sobre os erros e acertos, a fim de aprender uns com os outros e se apoiar mutuamente.

Essa questão remete a um aspecto específico de sua pergunta que chama a atenção: a expectativa de que a escola “aceite” e adote atividades adaptadas elaboradas por terapeutas externos. Este artigo, além de discutir o conceito de adaptação, argumenta que a perspectiva inclusiva indica o direito de acessar o mesmo currículo e, com base nisso, defende que o planejamento seja um só para todo o grupo. Sendo assim, o responsável pela elaboração do planejamento é o professor de sala. Afinal, é ele quem conhece os alunos que compõe o grupo. No entanto, não podemos esquecer dos outros dois aspectos primordiais evidenciados por Susan e William Stainback: aceitação das diferenças e resposta às necessidades individuais. Neste outro artigo vemos que o planejamento na perspectiva inclusiva prevê, necessariamente, estratégias pedagógicas diferentes baseadas nas características e necessidades individuais de todos os alunos, particularmente daqueles que correm risco de exclusão em termos de aprendizagem e participação. Sendo assim, o apoio dos terapeutas no sentido de sugerir atividades pode, sim, potencializar o processo de inclusão educacional desde que isso se dê numa perspectiva de colaboração, considerando que tais atividades precisam estar contextualizadas no planejamento. Este estudo de caso, que aborda aspectos da inclusão de uma estudante com deficiência intelectual, ressalta a importância da participação de todos, evidenciando o papel do atendimento educacional especializado (AEE) nesse processo. Há, no DIVERSA, vários outros estudos de caso e relatos de experiência que, como este, atestam a relevância do AEE no trabalho colaborativo.

A propósito, o AEE representa um parceiro potencialmente importante também no seu caso. Tanto no sentido de garantir o planejamento de atividades específicas considerando os interesses, habilidades e necessidades do estudante quanto na articulação entre os terapeutas e a escola, buscando consolidar um grupo de trabalho comprometido e engajado com a plena inclusão, na escola e fora dela. É importante lembrar que, segundo a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o AEE é direito garantido aos alunos com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. E sua função principal é identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade para a eliminação das barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas. Se a escola do aluno não oferece esse serviço, sugerimos que você procure a respectiva secretaria de educação.

Conforme registramos nesta outra resposta, a “melhor escola” é, a princípio, a mais próxima da residência do aluno ou, no caso da rede privada, aquela que os responsáveis escolheram. E ela só poderá se tornar, de fato, “a melhor”, para ele todos os demais, se a aprendizagem for perseguida de forma ampla, para muito além do diagnóstico, e colaborativa, incorporando diferentes perspectivas.

Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui.

Raquel Paganelli Antun – Equipe DIVERSA

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Por Equipe DIVERSA em 23/03/2017

Olá, Ângelis! Seja bem-vinda à nossa comunidade! Nós da equipe do DIVERSA agradecemos pela confiança em dividir suas dúvidas. Acreditamos que encaminhamentos para desafios como o que você expôs possam ser construídos coletivamente. Para isso, dividiremos sua questão com outros membros de nossa comunidade e pesquisaremos em nosso acervo de conteúdos referências que possam te inspirar na busca por possibilidades inclusivas. Enquanto isso, te convidamos a explorar e comentar os estudos de caso, os relatos de experiência e os artigos de nossa biblioteca. Continue nos contando suas descobertas sobre o tema da educação para todos. Sinta-se à vontade para trocar experiências!

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