Como despertar interesse de aluno com autismo na educação física?

Olá, me chamo Lidiane. A escola em que meu filho estuda é privada. Ele tem 7 anos, transtorno do espectro autista (TEA) e está no 2º ano. Entrou na escola aos 3 anos de idade, fez maternal, educação infantil I e II e depois o 1º ano. Percebo que seu professor de educação física tem dificuldades em trazê-lo para participar das atividades propostas. Como ele não é motivado, quando vai fazer, ele desregula, corre, tumultua as aulas. Gostaria de sugestões de atividades para despertar o interesse dele.

Educação física inclusiva

3 respostas

Por Itair Pedro Santos de Medeiros em 17/03/2017

Olá dona Lidiane (desculpe a demora), sou de Belém do Pará, meu nome é Itair Medeiros e trabalho com educação física em uma escola pública municipal. Vou falar do que nós temos feito, espero poder contribuir com algo neste meu texto.

Quero começar dizendo que todo caso é único e nós temos uma grande novidade que é a educação física inclusiva. Nela é preciso primeiro acolher, pois todo ser humano é único e seu filho tem características muito especiais. Portanto, recebê-lo como parte do grupo escolar (inclusive dos alunos de classe e entre eles mesmos) é de fundamental importância. É necessário não apenas o professor, mas toda a escola dar as mãos para que o processo de inclusão se dê em todo o ambiente escolar, inclusive nas aulas de educação física. A pesquisa sobre as características próprias do aluno deve ser de conhecimento da família, do professor, e de todo o grupo escolar. Nenhuma disciplina deve assumir sozinha o desafio da inclusão e nem o profissional, pois educação inclusiva se faz com todos. Isso auxiliará decisivamente o trabalho feito pelo professor. Muitos profissionais caem em depressão por se julgarem incompetentes ou incapazes de lidarem com situações de inclusão, vejo as notícias de meus colegas de profissão todos os dias.

No trato com educação inclusiva não há receita, há indicadores que nos orientam a elaborar as atividade com alunos autistas. Desenvolvi dois projetos um chamado miniatletismo inclusivo, o qual participaram alunos com autismo leve. Eles realizaram todas as atividades normalmente como todas as outras crianças e essa produção faz parte da Coletâneas de práticas inclusivas do curso Portas Abertas para Inclusão. A diversidade de materiais, o colorido, as crianças envolvidas na confecção, em conjunto com os professores, deram mais segurança a todos nós para tratar na escola o desafio da inclusão.

Ano passado desenvolvi o mini tênis inclusivo e este ano está matriculado na escola um aluno do 1º ano com autismo severo, mas que conseguimos acolhê-lo e estamos vivenciando os brinquedos cantados e jogos de pega-pega historizados. Uma educação física musicalizada também é muito bem-vinda. Ele participa interagindo com as crianças do jeito dele, pois ele corre, pula, se agacha, pega, sobe, desce, abraça, mas não de uma forma linear, direcionada, dentro de regras pré-estabelecidas, ele da forma dele interage com o que se está propondo. Para minha alegria, ele interagiu com as atividades do mini tênis inclusivo e seu acompanhante me falou: “professor, ele está cansado de tanto se movimentar”. Não nos esqueçamos que as turmas variam entre 25 e 35 alunos e todos têm que participar ao mesmo tempo das atividades, fiquei feliz, ele se identificou com os movimentos das raquetes, com a alegria das crianças, com as cores e tamanhos das bolas do tênis inclusivo, não fui eu que pedi permissão, foi ele que me deu a oportunidade de interagir com ele. Mas para isso tive que utilizar muitas estratégias. Uma coisa que fiquei impressionado foi quando ele me abraçou, foi como se ele tivesse me dito: “Você está aqui, eu estou sabendo que você está aqui, você faz parte daquilo que percebo”. Fiquei muito feliz.

Espero que ele possa realizar as atividades inclusivas e assim participar e crescer em vivências motoras, afetivas e cognitivas estando incluído. A diversidade de estratégias operacionais e de atividades poderá chamar atenção do seu filho, não se pode compará-lo a ninguém, ele é único e as ações pedagógicas e inclusivas também são únicas, tudo é novo e tudo se renova a cada dia. Não se pode pensar em atender um aluno autista com uma educação física com regras pré-estabelecidas e de resultados, é preciso criar outras opções. A educação física inclusiva deve pensar no movimento possível de cada aluno, haver um trabalho colaborativo entre os setores e professores da escola para que haja um diálogo sobre as características do aluno e ações pedagógicas propostas, mas não apenas para as aulas, mas também para que o ambiente seja local de conhecimento e aprendizagem de forma interligados, beneficiando todo o grupo escolar.

Obrigado pela iniciativa de perguntar, fico feliz pelo seu desejo de colaborar com esse processo e consequentemente enriquecer a formação educacional de seu filho. Um abraço daqui da cidade das mangueiras.

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Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 13/03/2017

Olá, Lidiane. Enquanto professora de educação física e especialista em transtorno do espectro autista (TEA), relato a você que minha experiência ministrando aulas de educação física no ensino regular público do Estado de São Paulo para alunos autistas só me faz acreditar que essa disciplina pode e deve colaborar muito com o desenvolvimento escolar e inclusivo desses alunos. Pois, deve ser trabalhada com a afetividade, efeito da emoção no processo de aprendizagem para favorecer adaptações, possibilitar ações  favoráveis às dificuldades de cada aluno. Identifico que o primeiro passo é a formação e capacitação continuada do professor sobre este distúrbio neurológico (TEA), depois o mesmo deverá realizar um estudo de caso de seu aluno junto com a família, e após elaborar uma rotina de aula baseada nos gostos e interesses do aluno e na preparação da turma de classe. E também, estabelecer uma rotina de trabalho pedagógico onde possa adequar, depois rever e favorecer a ampliação destas relações (propor mudanças). Enfim é um movimento de constantes reflexões, estudos e adaptações. Estabelecendo essa construção será mais fácil o professor descobrir possibilidades para criar atividades.

Abraços

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Por Raquel Paganelli Antun em 12/04/2017

Olá Lidiane!

Sabemos, por experiência, que a educação física inclusiva tem um grande potencial no sentido de facilitar e promover o processo de inclusão do seu filho na escola (e até mesmo fora dela). Mas reafirmamos o que o Itair já declarou: o referido professor não é o único responsável por isso. Em todas as áreas do conhecimento, a aprendizagem deve ser perseguida de forma ampla, envolvendo os próprios alunos, a família, os educadores e demais atores da comunidade escolar.

Há, no DIVERSA, vários artigos, estudos de caso e relatos de experiência que podem subsidiar discussões relevantes e fomentar o trabalho colaborativo no desenvolvimento de estratégias pedagógicas voltadas para o grupo de alunos como um todo pautadas nas características, necessidades, interesses e estilos de aprendizagem de cada um, inclusive de seu filho.

Escolhemos algumas referências específicas para você:

• O Caso de educação física inclusiva
• Estratégias pedagógicas para a educação física inclusiva
• Para ser inclusiva, a educação física precisa ser ressignificada
• Educação física e AEE se unem para incluir aluno com autismo em circuito motor
• Brincadeiras estimulam prática de atletismo e esportes coletivos
• Alunos recriam esportes tradicionais para serem praticados por todos
• Estudantes confeccionam brinquedos do passado

Conte-nos sobre os avanços no diálogo com a escola e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

Raquel Paganelli Antun – Equipe DIVERSA

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