Como atrair a atenção de uma criança com comportamento agitado em sala de aula?

Olá, faço faculdade na área de educação especial e estou trabalhando com uma criança de oito anos que está na 2ª série. Por enquanto sou auxiliar da sala e durante a aula sou eu quem realiza ou tenta realizar as atividades proposta a ela. O laudo diz que ela tem autismo severo, deficiência intelectual. Eu acredito também que ela tem déficit de atenção, porém o laudo não diz. Ela é carinhosa, fala somente papai e mamãe, não tem autonomia nenhuma, quando se estressa ou não está satisfeita grita muito. É uma criança com comportamento agitado e tenho muita dificuldade de trabalhar. Ela se mostra irritada quando tentamos prender sua atenção e pedagogicamente ela não corresponde em nada. As vogais, números de 1 a 5, longe perto, claro e escuro e outros. Só que eu não concordo em ensinar as vogais e os números agora, pois nem no lápis ela consegue segurar. Fico perdida em o que ensinar e como ensinar por ela não parar quieta um segundo. Gostaria de ajuda em planejamento pedagógico prático e compatível com o caso dela e caso exista alguma técnica de ensino, como posso aplicá-la?

3 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 09/05/2017

Olá, Ana Beatriz!

Seja muitíssimo bem-vinda à comunidade Diversa. 🙂

Ficamos felizes em receber sua pergunta. Há vários aspectos importantes nela que vale à pena explorarmos.

– O primeiro é relativo ao fato de você, como auxiliar, ser a principal responsável pelo atendimento pedagógico a essa criança em sala de aula. Este artigo, publicado recentemente no DIVERSA, indica que a perspectiva inclusiva prevê o direito de acessar o mesmo currículo e, com base nisso, defende que o planejamento seja um só, para todo o grupo. A partir dessa lógica, o responsável por todos os alunos, com e sem deficiência, deveria ser, também, o mesmo: o professor regente. Há alguns princípios básicos que fundamentam essa afirmativa. Para começar, a educação inclusiva é um processo que diz respeito a todos os alunos, não somente aos com deficiência ou autismo. Ela pressupõe a transformação de um modelo de educação baseado na expectativa de homogeneidade para um modelo pautado na diversidade. Além disso, segundo a legislação brasileira vigente, o direito à inclusão no contexto da educação implica plena participação em todas as atividades da escola em igualdade de oportunidades. Ou seja, atender um único aluno de maneira diferente em sala de aula em detrimento de um planejamento padrão para os demais pode configurar como situação de segregação do ponto de vista desse aluno e como situação de exclusão do ponto de vista dos demais – já que estão sendo privados do direito a uma abordagem pedagógica flexível, em que suas características, interesses e necessidades individuais sejam consideradas. Este estudo de caso problematiza essa questão ao relatar que, há mais de 10 anos, quando as escolas da rede municipal de ensino de Florianópolis começaram a receber estudantes que necessitavam de auxílio na alimentação, locomoção e cuidados pessoais, a secretaria de educação contratou profissionais de apoio visando atender essa demanda. No entanto, como tais profissionais tinham formação na área de educação, a medida gerou situações em que os estudantes com deficiência e autismo eram pedagogicamente atendidos de forma individualizada, separados dos demais, perdendo, assim, o sentido da inclusão. Uma estratégia cujo objetivo era facilitar o processo de inclusão daqueles alunos acabou se constituindo como uma barreira nesse sentido. Para não correr esse risco, é importante reavaliar a sua atuação enquanto auxiliar de sala, a partir da premissa de que a inclusão diz respeito a todos os alunos que compõe o grupo, preconizando sempre a promoção da autonomia e da independência da criança em questão.

– Durante muito tempo, acreditava-se que era possível generalizar pessoas e, assim, padronizar estratégias terapêuticas e pedagógicas a partir de um mesmo quadro diagnóstico. Atualmente, a partir da perspectiva inclusiva – e por experiência –, sabemos que isso não é possível. Ainda que apresentem pareceres diagnósticos absolutamente iguais, duas pessoas podem reagir às mesmas intervenções de maneiras (bem) diferentes. Não há, portanto, “receitas prontas”, ou métodos infalíveis de como trabalhar com qualquer aluno com um determinado diagnóstico. E isso não se aplica somente a pessoas com alguma deficiência ou autismo, já que a diferença é própria da condição humana. Inclusão não combina com generalização. Ela parte do pressuposto de que somos todos diferentes, singulares, únicos. Sendo assim, o processo de inclusão de cada estudante é único também. Por isso, torna-se fundamental avaliar cada situação especificamente a fim de encontrar meios de garantir a inclusão efetiva de qualquer criança, jovem ou adulto, independentemente do laudo que o acompanha. E é importante considerar que nesse esforço investigativo todos devem ser envolvidos: os próprios alunos, a família, os educadores e demais atores da comunidade escolar. Vale ressaltar a potencial relevância da participação do(a) profissional do atendimento educacional especializado (AEE) nesse processo.

– A propósito, você conhece o AEE? Esse serviço representa um parceiro potencialmente importante na busca por respostas às suas perguntas. Segundo a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, sua função é justamente esta: identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade para a eliminação das barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas. O AEE é direito garantido aos alunos com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Se a sua escola não oferece esse serviço, sugerimos que você oriente a família a procurar a respectiva secretaria de educação. O referido atendimento complementa e/ou suplementa o processo de escolarização dos alunos público-alvo da educação especial, com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela, não devendo ser substitutivo. Realizado, portanto, idealmente, no período inverso ao da sala de aula frequentada pelo aluno, preferencialmente na mesma escola e em sala de recursos multifuncionais.

Além dos já mencionados, há vários outros artigos, estudos de caso e relatos de experiência que podem subsidiar e fomentar o trabalho colaborativo na busca por estratégias que de fato contribuam para a plena inclusão dessa e de outras crianças.

Esperamos que as sugestões acima sejam úteis. Conte-nos sobre isso e continue participando da comunidade. 😉

Raquel Paganelli – Equipe Diversa

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Por Equipe DIVERSA em 09/05/2017

Este relato de experiência, sobre o processo de alfabetização de um estudante com hipótese diagnóstica de transtorno do espectro autista (TEA), ressalta a importância de conhecer os alunos de forma individual, perceber como cada um deles aprende e valorizar suas singularidades, evidenciando a importância de fazer isso de modo colaborativo, incorporando diferentes perspectivas. O relato aponta especificamente o estudo de caso como uma estratégia potente nesse sentido e indica a identificação dos interesses e potencialidades do aluno como possível ponto de partida. Este outro, também sobre a inclusão educacional de um estudante com autismo no ensino fundamental, destaca a importância da observação nesse processo investigativo. Mas não basta olhar para o aluno. É preciso ir além e buscar identificar e superar as barreiras presentes na escola. Uma das respostas a esta outra pergunta do fórum trata dessa questão ao apresentar o modelo social de deficiência, sobre o qual vale à pena refletir. A outra resposta à mesma pergunta, também aborda outro conceito bastante importante considerando a dinâmica na sala de aula na qual você atua: o desenho universal. ;)

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Por maria de lourdes de moraes pezzuol em 11/04/2017

Olá, identifico que é uma situação que requer muita paciência, dedicação, tolerância, afeto e estudo. Identifico, também, que essa situação poderá ser amenizada se a escola trabalhar em parceria junto com a família e com a equipe de especialistas da área da saúde. Ações que poderão auxiliar o professor a identificar comportamentos, atitudes e reações, pois sabemos que o transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio que merece toda a atenção, é necessário um trabalho diferenciado, norteado por rotinas, pois não existe nenhum perfil de autismo igual ao outro. Não é possível delimitarmos uma forma padrão de autismo. Nesse sentido, os autistas apresentam dificuldades no que podemos denominar de tríade comportamental que envolve déficit na comunicação, interesses restritos e prejuízos na interação social. Segundo pesquisadores, quanto maior o comprometimento, maior a dificuldade apresentada. É recomendado que familiares, amigos e profissionais estimulem o indivíduo, principalmente na interação social de forma gradativa, sem que haja desgaste, com acompanhamento e orientações, necessitando ser observado todo o desconforto que possa prejudicar seu comportamento, como barulho, ambientes abertos e outros.

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