Como o AEE pode desenvolver autonomia de um aluno desestimulado pela família?

Sou professora do atendimento educacional especializado (AEE) e atendo um aluno com Síndrome de Asperger que não aceita nenhum material didático e parece não ter sido estimulado. Em sua sala regular do 7º ano, ele só fica debruçado na carteira, não tem nenhuma participação nas aulas, não se comunica. Segundo a escola, o estudante sempre foi assim e os pais deixam e ainda o tratam como um bebê. Mas quero e sinto a necessidade de fazer algo diferente e mostrar aos pais que o aluno é capaz de muito mais. O difícil é ele aceitar a registrar algo. Ele não pega no lápis e quando é para escrever no computador ele não faz: emburra e fica assim até a hora de ir embora. Ele gosta de pesquisa, mas não aceita registrar o que pesquisou, pois não é alfabetizado. Faz um mês que o incentivo a pintar um quadro para a mamãe, mas não adianta, ele não aceita. Será que ainda não sei trabalhar com alunos que a própria família não dá a assistência necessária? O que faço? Sou psicóloga há muito tempo, mas em sala de aula o trabalho precisa ser outro e não como paciente.

Atendimento educacional especializado (AEE)

2 respostas

Por Raquel Paganelli Antun em 04/12/2017

Olá Ana Maria!

Há muitas questões importantes em sua pergunta. A principal diz respeito ao seu papel como professora do atendimento educacional especializado (AEE). Sem dúvida, considerando seu relato e a função do AEE, o serviço representa um apoio potencialmente importante no caso desse estudante especificamente. Principalmente na identificação das barreiras a sua participação e na diversificação de estratégias pedagógicas para seu engajamento e aprendizagem. Para começar, como você mesma disse, o foco de sua atuação deve ser pedagógico e não clínico. Muito resumidamente, sua função é identificar e indicar caminhos e possibilidades para potencializar o fazer pedagógico em sala de aula. Mas você pode “aproveitar” seus conhecimentos e habilidades como psicóloga. Por exemplo, ajudando a escola a estabelecer outro tipo de relação com essa família, para desenvolver uma parceria efetiva, baseada em cooperação e apoio mútuo, sem julgamentos nem hierarquia, unindo esforços, lado a lado, para o alcance de objetivos comuns. Investir esforços nesse sentido é fundamental, até mesmo porque os objetivos do AEE demandam, necessariamente, que, você, antes de qualquer coisa, busque conhecer bem o aluno. E fazê-lo implica a participação da família.

A propósito, sugerimos que ao invés de se preocupar tanto em convencê-lo “a registrar algo”, você busque descobrir o que desperta sua atenção, quais são suas preferências, o que já sabe fazer sozinho, que interesses há em comum com outros estudantes da classe e de que modo ele se comunica. Entre outras coisas, isso a ajudará a identificar e recorrer a outras formas de expressão. Além da família, sugerimos que você busque engajar todos os demais envolvidos – os colegas, a equipe da escola (também os profissionais não docentes que se relacionam com ele) e outros atores da comunidade escolar – nesse esforço investigativo. Aliás, considerando o caráter interativo e interdisciplinar de sua atuação em relação à sala de aula na qual cada um dos seus alunos está matriculado, trabalhar cooperativamente é condição fundamental para que os objetivos do AEE sejam efetivamente alcançados.

Além disso, sugerimos que busque promover a autoestima do aluno e o convívio com os colegas. Há três relatos que abordam essa questão de formas diferentes:

• Ressignificar saberes para valorizar eficiências no processo de alfabetização
• Educação física e AEE se unem para incluir aluno com autismo em circuito motor
• Inclusão escolar: responsabilidade de todas e todos

O segundo apresenta atividades de educação física como uma estratégia potente em situações como a descrita por você. Aliás, conhecemos inúmeras situações em que parecerias entre o professor de educação física e o professor de AEE surtiram efeitos surpreendentemente positivos para o processo de inclusão de estudantes com deficiência e TEA. No último, o estudante não tinha diagnóstico de TEA, mas se isolava com frequência e era bastante resistente à realização das atividades. A saída foi bastante simples: envolver os colegas para que ele se sentisse realmente pertencente ao grupo.

Não desanime. Em sua pergunta, você se questiona se “ainda não sabe trabalhar” com alunos como esse. Acontece que o desafio do AEE é justamente este: descobrir como fazê-lo. E isso só será possível a partir da vivência e da interação cotidiana com ele.

Por fim, sugerimos, ainda, que leia os textos contidos neste link: Inclusão de alunos com autismo na escola: dicas e exemplos para a prática. Alguns, inclusive, indicam possibilidades de atuação do AEE no processo de inclusão educacional de alunos com TEA.

Esperamos tê-la ajudado. Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. 🙂

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Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 31/01/2018

Olá Ana Maria,

Tenho certeza que tudo que foi dito pela Raquel Paganelli (Equipe Diversa) ajudará muito na sua jornada. Enquanto professora de educação física de sala comum, também já tive a experiência de trabalhar com aluno com TEA (Asperger), tenho relato publicado na plataforma Diversa com o nome “Brincadeiras estimulam prática de atletismo e esportes coletivos” que efetiva a participação desse aluno. Para mim foi uma experiência riquíssima, reafirmo que o auxilio da prática da disciplina de educação física em relação aos conteúdo dos jogos e brincadeiras auxiliam muito como contribuição do processo de educação e reeducação, pois atua diretamente na organização das sensações, das percepções e cognições. As ações e práticas da área da psicomotricidade seriam fundamentais também para estimular a fortalecer esse desenvolvimento.

A escola não precisa se preocupar apenas em ensinar habilidades de escrita e leitura para que o aluno saiba executá-las bem, o importante é facilitar e motivar a aprendizagem de forma lúdica, prazerosa direcionando para uma formação integral. O importante nesse momento é o aluno conseguir sentir que ele “pode fazer parte e realizar algo, que é capaz “, sensação de pertencimento e fortalecimento. Sentir seguro, ter confiança no ambiente que frequenta e nas pessoas que o rodeiam. E a realização de uma proposta para acolher a família nesse momento é fundamental.

Relato a você que enquanto docente realizei uma formação em Cuba no ano de 2017, na área de educação especial, fiquei maravilhada com o sistema educacional relacionado à educação especial de lá, consideram a família como “o centro das atenções”, as escolas têm uma ligação direta com a família, existem os centros comunitários onde os pais são assistidos por uma equipe multidisciplinar integrada à escola e às áreas ambulatoriais e hospitalares, com objetivos de mapear e avançar na conquista de uma evolução satisfatória e adaptativa para cada criança, para que as mesmas possam ter autonomias e progressão independente de seus comprometimentos e dificuldades.

Bem, no seu relato, não sei como foi trabalhado a questão familiar e mesmo a proposta pedagógica anteriormente com esse aluno. Mas esqueça o passado e comece a partir de agora, tente uma maior proximidade com seu aluno, sem protocolos, de forma natural e espontânea, faça uma entrevista com a família, promova com a equipe escolar uma proposta pedagógica que possa adaptar as suas novas descobertas sobre o perfil do aluno, trabalhe de forma transdisciplinar e boa sorte.

Abraços!

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