Filmes, séries e animações para falar sobre autismo com os alunos

Por Alexandre Moreira

No dia 2 de abril, comemoramos o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. Para contribuir com o debate e a visibilidade dessa questão, o DIVERSA preparou uma lista de filmes, séries e animações que podem fomentar discussões sobre transtorno do espectro autista (TEA) e diversidade em sua escola. Confira!

 

Antes do play

Obras audiovisuais que retratam pessoas com deficiência, Síndrome de Down ou com autismo estão cada vez mais presentes na mídia, em propagandas e em campanhas publicitárias. Retratar essa diversidade é fundamental para que todos sejam aceitos e incluídos com cada vez mais naturalidade. Além disso, dar visibilidade e principalmente voz às narrativas dessas pessoas é imprescindível para o rompimento do ciclo da invisibilidade. Ao serem vistas e reconhecidas como parte da sociedade, elas são convidadas e estimuladas à participação ativa, manifestando suas pautas e necessidades.

Embora as produções indicadas retratem personagens que estão dentro do chamado espectro autista, é importante ressaltar que as pessoas com essa particularidade apresentam uma infinidade de perfis e características específicas. Afinal, não há um ser humano igual ao outro. Sendo assim, não podemos esquecer da diversidade dentro da própria deficiência ou, no caso, dentro do mesmo transtorno.

É evidente que algumas características são presentes de forma predominante em pessoas com autismo. Muitos dos filmes e séries selecionados partem desses aspectos para construir seus personagens. Mas é fundamental termos em mente que nem todos indivíduos com TEA se comportam da mesma maneira. Do mesmo modo, nem todo surdo sabe Língua brasileira de sinais (Libras) e nem todo cego faz uso do sistema braille.

Combinados? Então vamos à lista!

 

Produções audiovisuais sobre autismo 

Temple Grandin (2010)

Além de trazer à tona muitos temas relativos à educação inclusiva, o filme aborda de forma muito marcante questões de gênero e machismo evidenciados pela protagonista. Temple Grandin é uma pesquisadora da área de zootecnia nos EUA. Em sua busca por entendimento da sua condição como autista, ela impacta a vida de muitas pessoas à sua volta, incluindo familiares, amigos e professores.

Na trama, além de evidenciar, já nas décadas de 1970, os desafios da educação em elaborar estratégias que contemplem diferentes formas e ritmos de aprender, vemos como o preconceito e as barreiras – principalmente atitudinais – são pano de fundo para contar a história da mulher que revolucionou o tratamento racional de animais nas fazendas e abatedouros.

O filme-biográfico carrega ainda uma importância adicional por retratar de forma muito fidedigna – segundo a própria Temple em uma palestra do TED Talks – uma história real de uma pessoa com autismo que derrubou muitas barreiras impostas para atingir seu objetivo de aprender e contribuir com a sociedade.

Life, animated (2006)

É comum que pessoas com autismo tenham grande dificuldade na comunicação oral e no traquejo social. É comum também que elas desenvolvam um gosto muito específico e aprofundado em determinado tema. No caso de Owen Suskind, sua fixação é pelas animações da Disney.

O que pode parecer reducionista e particularmente estranho foi, na verdade, um caminho promissor encontrado pela família para estabelecer uma troca muito rica e fundamental no desenvolvimento de Owen. Ao fazer o diagnóstico, o médico não hesitou ao expor as baixas expectativas quanto ao aprimoramento da fala do menino de apenas três anos. Esse cenário foi desconstruído pelo próprio garoto anos depois ao decorar todas as falas das animações do seu estúdio favorito. Tomando conhecimento do fato, não demorou para que a família desenvolvesse, a partir disso, uma comunicação direta e muito eficaz com o filho.

Foi a partir de um vestígio dado pelo próprio menino que os pais puderam traçar uma estratégia que se adequasse à forma que ele aprende e vê o mundo. Com essa pequena janela outras portas foram abertas para que ele pudesse estudar, namorar e ter autonomia. Disponível atualmente na Netflix, o filme foi baseado no livro escrito pelo pai de Owen e pode ser uma boa forma de introduzir o tema em discussões com jovens e crianças.

Mary e Max: uma amizade diferente (2009)

Embora seja uma animação, trata-se de um filme adulto e que fomenta questões para além do autismo ou deficiência. Mary é uma menina que vive na Austrália com sua família. Já Max é um senhor que mora sozinho em Nova Iorque. Completamente ao acaso, Mary envia uma carta para Max e a partir dessa troca de correspondências nasce uma amizade.

Max, que tem a Síndrome de Asperger, apresenta dificuldade em estabelecer laços afetivos com as pessoas. Ele encontra nas cartas de Mary um canal menos invasivo para falar de si e para compartilhar seus gostos, preferências e, principalmente, sua visão de mundo. Ao falar de si através das cartas, Max procura entender a si mesmo a partir do modo de ver o mundo de Mary e de outros ao seu redor em uma delicada e envolvente história.

A sensibilidade da narrativa e a fotografia melancólica não diminuem a riqueza por trás da trama. Pautas como obesidade, padrões de beleza, depressão, solidão e até mesmo suicídio são abordados ao longo da história. Nesse sentido, a empatia e a busca por compreender o outro trata-se, no fim, numa jornada de autoconhecimento.

O filme levanta ainda uma questão importante quando falamos sobre autismo: a perspectiva de cura. Por não ser considerado uma deficiência, o transtorno do espectro autista foi tratado por muitos anos como um assunto estritamente médico e clínico. Por consequência, foi tido como tratável. Esse paradigma é evidenciado em uma passagem onde Mary publica um livro expondo sua relação com Max e a condição na qual ele vive.

Nesse sentido, temos outro momento chave da história: o direito à voz. Max questiona a perspectiva da amiga e recusa qualquer tipo de tratamento ou medicalização. Afinal, ele não é doente: apenas vive de uma forma diferente da usual e enxerga o mundo e as pessoas de outro jeito. A empatia e o respeito à diversidade, mas, principalmente o respeito ao espaço do outro, são lições fundamentais que podemos tirar do filme.

Atypical (2017)

A série original da Netflix foi alvo de polêmica e muita discussão. Aclamada por uns e refutada por outros, a história de Sam foi acusada de romantizar a visão do autismo. Como já comentamos, é preciso sempre considerar a diversidade de pessoas que vivem dentro do espectro e entender que certos traços são mais marcantes em uns do que em outros. No caso de Sam, a interação social é um desafio muito maior do que a comunicação. O que não o impediu de fazer um melhor amigo e ter um cachorro de estimação.

A representação da família de Sam também merece elogios. Mostrar apoio e compreensão em detrimento à negação e refutação do diagnóstico é importante para compor um cenário mais leve em relação às pessoas com autismo, rompendo com o ideal pejorativo de pessoas agressivas e isoladas em um mundo particular.

Trata-se de uma produção inovadora considerando o público-alvo infanto-juvenil e, como todo processo de aprendizado, erros e acertos fazem parte do caminho. No entanto, não podemos desqualificar a leveza da série em abordar o tema e principalmente em mostrar que viver com TEA não define a pessoa.

Ter autismo, na história de Sam, é parte fundamental do roteiro e do desencadeamento narrativo, mas o seriado não é limitado a isso: Sam tem preocupações e prioridades que todos os adolescentes de 18 anos têm: namorar, ter liberdade com relação aos pais, conseguir um emprego etc. O fato de ter autismo não impede que ele fale apenas sobre isso ou viva em prol de um diagnóstico. É justamente essa a mudança de perspectiva que precisamos fazer.

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