Para ser inclusiva, a educação física precisa ser ressignificada

No Brasil, pelo menos 30 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência. Essa parcela da população envolve crianças e adolescentes que enfrentam enormes barreiras para exercer a cidadania e construir sua autonomia com dignidade. O esporte, assim como a educação física, pode atuar como uma ferramenta extraordinária para a mudança desse contexto, desde que pensado a partir de uma perspectiva inclusiva, que garanta a participação de todos. Para isso, precisa romper com o paradigma do alto desempenho, da competição e da formação de atletas.

A educação física, em geral, parte do princípio olímpico que valoriza o mais forte, o mais ágil e o mais rápido. Essa concepção tem, sistematicamente, gerado a exclusão de muita gente, em especial da pessoa com deficiência. Esse era o caso de Felipe, estudante da rede pública do bairro de Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Por ter uma deficiência física, ele foi sempre privado do direito de participar das aulas de educação física.

Essa realidade de exclusão passou a mudar quando o professor Luiz Gustavo, participante de um curso de formação promovido pelo Unicef, pela Fundação Barcelona e pelo Instituto Rodrigo Mendes, decidiu buscar formas de garantir o direito do adolescente. Em conjunto com a equipe da escola, começou a desconstruir as regras dos esportes praticados pelos alunos. No primeiro momento, foram explorados o basquete adaptado e algumas atividades circenses, que permitiam ao estudante participar, porém de forma tímida, ainda frustrante. Foi então que o professor decidiu criar um novo esporte, pensado a partir das particularidades do jovem e dos demais colegas. Surgiu o Felipebol.

O Felipebol é um jogo inclusivo em que os participantes ficam na mesma posição com a qual Felipe tem maior possibilidade de locomoção: apoiados em quatro membros. As regras são simples: ele deve ser jogado com as mãos e somente o goleiro pode ficar em pé. O novo esporte conquistou a todos, superando até o futebol em termos de preferência da turma. A declaração do próprio estudante expressa sua alegria por poder participar: “antes eu jogava futebol parado na cadeira. Mas agora, que eu participo de verdade, eu jogo muito mais: viro cambalhotas, faço muitos gols e comemoro com meus amigos”.

Visitei, há alguns meses, outra experiência exitosa em Natal. Lá, pude conversar com educadores e alunos que vivenciaram uma enorme transformação das aulas de educação física. Com o propósito de garantir a participação de todos, os professores elegeram o Badminton como um esporte a ser repensado para contemplar a diversidade. Após apresentar a evolução histórica e os fundamentos desse esporte, a equipe mediou a criação de adaptações nas regras do jogo, propostas pelos próprios estudantes. Com isso, as necessidades particulares de cada um foram ouvidas e consideradas na definição das novas regras.

Dentre as principais adaptações realizadas, pude observar a diminuição do espaço físico para as crianças e adolescentes com limitações motoras, a assessoria da professora de apoio para os alunos em cadeiras de rodas, a substituição do apito por uma bandeirinha e o auxílio do intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) para os surdos. Foi também proposta a diminuição na pontuação dos sets para que os estudantes com autismo não perdessem a concentração e o interesse pelo jogo.

A coordenadora pedagógica, Edna Lúcia Rodrigues de Miranda, comenta o processo de mudança gerado na escola: “antes da realização desse projeto poucos alunos participavam das aulas de educação física, ficando apenas a observar os demais; não eram estimulados o suficiente”.

Katyuscia Maria da Silva, professora do atendimento educacional especializado (AEE), relatou a história de Maria Eloisa, que apresentava uma severa dificuldade de comunicação, resultante de problemas psicológicos. Desde que chegara na escola, Maria nunca havia falado ou interagido com alguém. Ao participar do jogo de Badminton, para surpresa de todos, pela primeira vez falou com seus colegas, dizendo que estava adorando a aula. Desde esse episódio, a estudante tem demonstrado evidências de um maior desenvolvimento de suas habilidades de comunicação.

A importância de sinergias resultantes da interação entre os vários atores da equipe pedagógica pode ser notada pelo depoimento de Katyuscia:

o projeto permitiu também a construção de parcerias entre as professoras de educação física, a professora da sala de recursos multifuncionais, a coordenadora pedagógica e os gestores. Percebemos que o esporte, numa perspectiva inclusiva, passou a ser mais considerado pela própria direção da escola, a qual disponibilizou novos recursos para a aquisição de materiais.

Essas experiências demonstram que o investimento em planejamento, o trabalho interdisciplinar, o apoio da liderança da escola e a escuta constante dos alunos são elementos essenciais para a garantia da prática do esporte inclusivo e seguro. Conforme sintetiza Gary Stahl, representante do Unicef no Brasil: “Quando todos jogam juntos, todos aprendem juntos”.

 

Rodrigo Hübner Mendes é fundador do Instituto Rodrigo Mendes, organização que desenvolve programas de educação inclusiva. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka.

Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 05/07/2015 e disponível em bit.ly/educacao-fisica-ressignificada.

©Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: Você deve creditar a obra como de autoria de Rodrigo Hübner Mendes e licenciada pelo Instituto Rodrigo MendesDIVERSA.

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