O lugar social das pessoas com surdez na escola

Desde a época do meu ensino fundamental tive experiências com pessoas com surdez. Nossa comunicação nunca foi uma barreira, pois sempre houve boa vontade e interesse das partes em se expressarem. Aprendi Língua brasileira de sinais (Libras) como idioma alternativo de forma leve e amistosa, a partir do contato com a língua. Já a criança com surdez era incentivada, nessa época, a procurar espaços em que pudesse se relacionar com seus pares linguísticos, criando uma cultura surda, porém segregando o sujeito e negando-lhe o mundo de sons em que vive.

A partir dessa experiência, percebo como o processo de inclusão dos estudantes surdos poderia ser mais eficaz se, além da formação adequada do professor e da presença do intérprete de Libras em sala de aula, eles fossem valorizados enquanto sujeitos leitores por um currículo que contemplasse suas diversidades. Conforme destaca Nilma Lino Gomes, em “Indagações sobre currículo“, não basta apenas a inclusão física desses alunos. “Há também a necessidade de uma mudança de lógica, da postura pedagógica, da organização da escola (seus tempos e espaços) e do currículo escolar para que a educação inclusiva cumpra o seu objetivo educativo.”

Atualmente, fomenta-se a inclusão da criança surda desde os primeiros anos de sua infância com uma proposta bilíngue, na qual o português escrito e a língua de sinais não se opõem, mas coexistem. Mas vemos a Libras ainda inacessível a muitos educadores e espaços escolares. Essa falta de comunicação se agrava em casos em que a pessoa com surdez, oriunda de família ouvinte, desconhece uma maneira eficaz de interagir e trocar não só na escola, mas em casa e na sociedade.

 

O potencial comunicativo do aluno surdo

Se uma variante linguística está diretamente relacionada à relação de prestígio ou desprestígio social dos sujeitos que a falam, como é construída a identidade daqueles que não falam? Se o falar, o como falar, e o de onde falar determinam essa posição, qual é o lugar da língua de sinais e das pessoas com surdez? Na minha vivência, percebo que o lugar atribuído a quem não fala beira à inexistência em certos ambientes.

Embora a comunicação caseira e familiar seja oral e gestual, não é fomentado o crescimento linguístico do estudante surdo, seja pela vertente oralista, seja incentivando gestos informais ou outros códigos. O que vemos é apenas uma mímica que se limita a entender sins e nãos, gostar e não gostar, querer e não querer. Por não explorar todo o potencial comunicativo do aluno, esse jogo não o incentiva a expressar em sua plenitude pensamentos, informações, instruções, sentimentos e nuances da mente.

 

O lugar social da pessoa com surdez

Certa vez a mãe de uma criança com surdez se dirigiu a mim, professor de seu filho, dizendo:
– Preciso de uma escola para pessoas como ele? Que não vão aprender nunca?
Mesmo explicando que ele tinha plenas condições de aprender, ela foi incisiva:
– Ele não vai falar, não sabe falar. Como eu sei se ele pensa?

Esse discurso nega a condição humana às pessoas com surdez. A linguagem constitui o pensamento, não apenas o expressa. Se essa mãe considera que seu filho não é capaz de aprender e pensar porque não fala, em seu entendimento, vale mais quem se expressa de maneira entendível.

Cabem à família e à escola se apropriarem também da Libras e, enquanto o aluno não se comunica por ela, valorizar a comunicação e a expressão por diversos canais: imagético, oral, facial, teatralizado, sinalizado, alternativo e ampliado. Um livro sem palavras conta menos que um livro escrito? Um filme da época do cinema mudo deixou de comunicar o que pretendia? O currículo e ambiente escolares devem criar pontes para as pessoas com surdez, valorizando suas maneiras e formas de se comunicar, suas formas de ler e contar.

Não vamos negar o mundo de sons aos estudantes surdos. Mesmo que eles não o ouçam, ele também conta com cores, formas, tamanhos, expressões, sensações, gostos e prazeres que não cabem na letra do texto.

 

Doug Alvoroçado é professor do município do Rio de Janeiro com experiência em inclusão por meio do uso de tecnologias na aprendizagem. É graduado em pedagogia, especializado em atendimento educacional especializado (AEE) e mestrando em educação.

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