Garantindo um acesso igualitário ao conhecimento na universidade

Assim que me pediram para escrever um estudo de caso sobre práticas inclusivas de educação na Escola de Graduação em Educação de Harvard (HGSE) – onde eu sou tanto ex-aluna (terminei meu mestrado em 2010) quanto estudante, atualmente no doutorado – eu fiquei hesitante. Eu tinha elaborado estudos de caso antes, mas, mesmo a equidade educacional estando no cerne de meus trabalhos, eu nunca havia refletido muito sobre educandos com deficiência.

Praticamente toda a minha própria vida escolar, para o bem ou para o mal, tinha ocorrido em instituições bastante seletivas – da escola internacional privada, onde estudei no ensino fundamental, à escola preparatória para a faculdade, na qual fiz o ensino médio, e à universidade onde cursei meu bacharelado. Apesar de saber que havia alunos com deficiência em cada uma dessas escolas, nem eles eram muito visíveis, nem havia ênfase na inclusão. Em vez disso, essas escolas – como tantas instituições com admissões muito competitivas – exaltavam sua seletividade e a excepcionalidade de seus alunos. Eu não quero dar a estas escolas maravilhosas uma coloração negativa, mas simplesmente salientar que nos foi dito repetidas vezes que éramos especiais, inteligentes, e que tínhamos sorte de estar lá.

Esse tipo de discurso não é incomum na HGSE, também. No entanto, foi somente ao pesquisar para escrever esse estudo de caso que eu vim a entender que uma das coisas que qualquer instituição pode fazer bem – mesmo escolas seletivas como os que eu frequentei – é garantir que as experiências educacionais dos estudantes com deficiência sejam as mais suaves e típicas possíveis – tornar a vivência do aluno com deficiência praticamente sem diferenças daquela do sem deficiência.

Em minha pesquisa, fiquei espantada ao saber que, a cada ano, entre 10 e 15% dos educandos que entram HGSE têm deficiência e que este valor reflete as médias nacionais (12,4% da população dos Estados Unidos têm uma deficiência). Isto é especialmente surpreendente, pois enquanto há uma estimativa de mais de 49 milhões de pessoas com deficiência nos Estados Unidos, menos de 12% obtêm um diploma técnico, e menos ainda recebem diplomas de graduação. Na verdade, de acordo com a Associação Nacional de Educação, cerca de 15% dos estudantes com deficiência não chegam a se formar no ensino médio.

Além disso, não apenas como aluna, mas também como um membro da equipe de ensino – que presumivelmente sabe mais do que o típico estudante sobre as necessidades discentes – eu não tinha ideia de que havia tantos alunos com deficiência diagnosticada no campus. Claro, há estudantes com deficiências visíveis, mas eles não passam de poucos a cada ano. Com isso, eu aprendi que uma das coisas mais importantes que qualquer instituição – seletiva ou não – pode fazer é não só tornar possível a aprendizagem para todos os tipos de alunos, mas que a igualdade de acesso às oportunidades de aprendizagem seja comum, estabelecida e mesmo imperceptível.

Mesmo que HGSE ainda não seja perfeita, ela visa proporcionar acomodações adequadas, privacidade e apoio individualizado, de tal forma que é possível para os alunos com deficiência no campus terem uma efetiva igualdade de acesso – a tal ponto que suas experiências realmente não sejam substancialmente diferentes das de outros estudantes. Em vez disso, eles são apenas educandos que se enquadram em algum lugar no espectro da variação humana, assim como aqueles que não têm uma deficiência diagnosticada.

Este foi o segundo grande aprendizado a partir deste processo: a de que todos nós temos “necessidades específicas” de uma forma ou de outra, mas que algumas “necessidades” já foram antecipadas em nossos ambientes. Por exemplo, eu uso óculos e por isso – na gama da visão humana – eu me encontro no final do espectro “míope”. Minha “necessidade” não me causa nenhum problema, já que eu tenho uma adaptação (meus óculos). E se nós tratássemos todas as deficiências dessa maneira: não como um binário (com ou sem deficiência), mas simplesmente certificando-se de se adequar a toda variação humana, conforme necessário?

Essa mentalidade é especialmente importante em um campo como a educação, onde os praticantes precisam ser sensíveis às necessidades de todos os diferentes tipos de alunos. As instituições de ensino superior – incluindo aquelas como a HGSE, que formam educadores – necessitam atuar junto aos responsáveis políticos para fazer um trabalho melhor e garantir a igualdade de acesso às oportunidades e vantagens proporcionadas por um diploma universitário. Com menos de 35% de todos os americanos com deficiência empregados (em comparação com 76% de todos os americanos em geral), e os americanos com deficiência ganhando, em média, 85 centavos para cada dólar ganho por um adulto sem deficiência, temos que nos esforçar mais para fornecer aos cidadãos com deficiência maior acesso à empregabilidade e aos ganhos proporcionados pelo ensino superior.

 

Saiba mais sobre a experiência educacional inclusiva da Escola de Graduação em Educação de Harvard e seu projeto de acessibilidade que tem a intenção de reduzir barreiras arquitetônicas, de comunicação e de conteúdo:

Esse vídeo também está disponível em versão com recursos de acessibilidade como Libras, audiodescrição, voice-over e legendas (ativadas na barra do player).

 

Eleanor O’Donnell é doutoranda na Escola de Graduação em Educação de Harvard. Seus interesses de pesquisa abrangem equidade educacional, programas de educação infantil doméstica e focada nos pais, alfabetização e numeracia emergentes, e pesquisa sobre relevância cultural.

©Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: Você deve creditar a obra como de autoria de E. B. O´Donell e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes e DIVERSA.

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