Ensino médio inclusivo: boas práticas são agulha no palheiro?

“Pensar em inclusão no ensino fundamental é uma coisa. Agora, quando chega o ensino médio, a coisa complica bastante”. Lembro-me dessa frase quando entrevistei uma diretora que relatava as experiências de educação inclusiva vivenciadas em sua escola. Muito tem se discutido sobre o anacronismo do modelo adotado por esse nível de ensino no Brasil. O excessivo número de disciplinas, a falta de contextualização dos conteúdos curriculares em relação à vida dos estudantes e o sufocante foco nas provas que propiciam o ingresso ao ensino superior são alguns dos elementos comumente criticados e relacionados aos altos índices de evasão que temos constatado.

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Quando consideramos a participação dos estudantes com deficiência, o tema torna-se ainda mais complexo, tendo em vista a grande quantidade de barreiras já naturalizadas pelo modus operandi das escolas. A padronização das estratégias pedagógicas, dos materiais didáticos e das expectativas de resultados são exemplos claros de obstáculos que prejudicam toda pessoa que se distancia de um tipo idealizado de aluno. Ou seja, atrapalham a maioria. Será justificável nos entregarmos ao discurso da inviabilidade da inclusão no ensino médio?

Ensino médio inclusivo

Desde 2016, tenho participado de perto da concepção e da implementação de um curso de formação continuada para profissionais de redes estaduais de ensino, promovido pelo Instituto Unibanco e pelo Instituto Rodrigo Mendes. A iniciativa começou em Minas Gerais e Pernambuco e, em sua segunda edição, foi realizada em São Paulo. O objetivo era prover conhecimento e referências práticas sobre o atendimento de adolescentes com deficiência em salas de aula comuns das escolas que compõem tais redes.

Durante o curso, os participantes assumiam o compromisso de elaborar um diagnóstico sobre as escolas em que atuavam, identificando barreiras e facilitadores para o acolhimento das diferenças humanas. Com base nesse retrato, os cursistas elaboravam um projeto de intervenção, envolvendo os demais integrantes das respectivas equipes pedagógicas. Como resultado, em um horizonte de dois anos, foram realizados 135 projetos nessas escolas. Apresentarei a seguir uma síntese de alguns desses projetos em São Paulo.

Escola Estadual Eunice Marques

A diversidade dos estudantes era um dos predicados que caracterizavam a escola Eunice Marques, localizada na zona leste da cidade de São Paulo. Dentre seus 1.303 alunos, havia imigrantes, refugiados, mães adolescentes, pessoas LGBT, pessoas com deficiência (física, visual, auditiva e intelectual) e transtorno do espectro autista (TEA). A comunidade do entorno era formada por famílias de classe média-baixa, com renda média de dois salários mínimos.

Adolescentes de pé e em roda conversam dentro de sala de aula
Alunos da Eunice Marques fazem roda de conversa sobre diversidade. Foto: arquivo pessoal.
O projeto de intervenção implementado nessa escola tinha como objetivos reconhecer o direito à inclusão, incentivar a criatividade dos alunos e valorizar as habilidades e competências por eles demonstradas. Almejava-se, também, melhorar sua autoestima. Nesse sentido, a primeira atividade foi um encontro com 150 estudantes das turmas de 2º e 3º ano do ensino médio. Após entenderem a proposta, os jovens assistiram a alguns vídeos que abordavam a temática da discriminação sob diferentes vertentes, como o racismo, a homofobia, a xenofobia e o bullying. O grupo foi bastante impactado e compartilhou casos verídicos por eles vividos.

Nas aulas posteriores, foi realizado um exercício em que cada aluno deveria escrever sobre suas próprias atitudes de discriminação ou sobre circunstâncias em que se sentiram agredidos por algum tipo de preconceito. Os textos traziam situações permeadas de sofrimento, o que gerou preocupação nos educadores. Um deles, o professor Gilmário, decidiu registrar em vídeo os relatos de violência, valendo-se da linguagem teatral para gravar os depoimentos. Esse foi um momento muito emblemático, na medida em que, ao assistirem ao vídeo, os estudantes mostravam-se indignados com seus próprios atos de discriminação. Isso gerou uma sensação de mal-estar em todo o grupo.

+ Leia o relato de experiência dos educadores da escola Eunice Marques sobre o projeto

A estratégia seguinte foi pedir aos alunos que escolhessem poemas de escritores brasileiros, a partir de uma lista pré-definida, sobre os quais eles gostariam de produzir um trabalho em grupo. Após a leitura, foram criados espaços para a interpretação e a reflexão sobre os textos. Visando favorecer tais atividades, os professores ampliaram as linguagens utilizadas, explorando também dança, sons e jogos de expressão corporal. Além disso, foi promovido um passeio de observação nos espaços da própria escola, o que propiciou a percepção de que havia muitas barreiras, até então invisíveis diante do olhar desatento, que prejudicavam a participação plena de alguns colegas no cotidiano escolar. Um estudante cadeirante, por exemplo, não conseguiu acessar alguns locais, o que causou constrangimento em todos. Por outro lado, uma jovem com baixa visão, pela primeira vez, teve a experiência de amassar folhas de árvores e sentir sua textura por meio do toque.

Como atividade final, os alunos foram orientados a criar poemas, tendo como base os textos anteriormente lidos, a experiência com os vídeos e a visita contemplativa aos espaços da escola. A leitura e a interpretação foram gravadas e posteriormente exibidas para todos os participantes do projeto. De acordo com Vânia, coordenadora pedagógica, “repensei muitas atitudes e, assim como os alunos, tenho certeza que não tive uma mudança. Obtivemos, todos juntos, uma transformação”.

Escola Estadual Maria José

Localizada na região central de São Paulo (SP), a escola Maria José atendia a mais de 1.000 estudantes dos ensinos fundamental, médio e da educação de jovens e adultos (EJA). De acordo com seus professores, a instituição carecia de ações para a inclusão de adolescentes com deficiência. Havia um entendimento de que era preciso sensibilizar toda a comunidade para essa questão. O projeto elaborado para a escola partia do pressuposto de que valeria a pena criar um canal de escuta dos jovens e apostar na sua capacidade de expressão. A estratégia elegida foi a produção de curtas-metragens que tratassem do acolhimento das diferenças.

O projeto foi batizado de “Luz, câmera e inclusão” e teve como participantes os alunos da turma do 1º ano do ensino médio. Primeiro, os professores convocaram o grupo a refletir e opinar sobre o que era inclusão e exclusão, buscando fugir do senso comum. Foi exibido um trecho do filme “Esparta”, trazendo a brutalidade com que as pessoas com deficiência eram tratadas e estabelecendo comparações com os dias de hoje. Posteriormente, foi colocado em discussão o tema do mercado de trabalho e o papel das empresas para a redução da desigualdade. Além disso, os estudantes pensaram sobre as barreiras impostas pela sociedade às pessoas com deficiência por meio de perguntas como “O que é necessário para garantir acesso à escola, ao trabalho e aos meios culturais?”. Muitos declararam que nunca tinham matutado sobre essas questões.

Na sequência, todos aprenderam noções básicas sobre recursos de acessibilidade para produtos audiovisuais, como audiodescrição, legendas e a janela de Língua brasileira de sinais (Libras). Por fim, eles foram convidados a criar os roteiros de seus curtas-metragens, assumindo como objeto de suas narrativas o cotidiano das pessoas com deficiência. A fase de produção dos vídeos contou com o uso de massinhas, papéis cartão e garrafas PET. As filmagens foram realizadas por meio de telefones celulares. Para que os alunos tivessem apoio de profissionais experientes, dois animadores voluntários foram trazidos por uma das professoras com o objetivo de oferecer instruções sobre captação de imagens, edição e sonorização.

O resultado final foi celebrado por todos e os curtas foram postados na página do Facebook da escola. De acordo com um agente de organização escolar, devemos conhecer e perceber o aluno como ser humano e que cada um tem suas dificuldades e habilidades. “Nossa tarefa é estimular essas habilidades para que ele possa se desenvolver o melhor que puder. Ainda há muito a ser feito, mas já se consegue perceber a mudança, um novo olhar em relação a esses estudantes, uma visão positiva de que se pode auxiliá-los, tornando-os ativos e participantes da sociedade.”

Escola Estadual Joaquim Adolfo

Situada em Santo Amaro, bairro da zona sul da cidade de São Paulo (SP), a escola Joaquim Adolfo atendia a 938 estudantes do ensino fundamental e médio. De acordo com os educadores dessa instituição, a falta de conhecimento sobre a temática da educação inclusiva era o principal obstáculo para o atendimento dos alunos com deficiência. Diante desse contexto, surgiu a proposta de se oferecer formação durante as aulas de trabalho pedagógico coletivo. Um dos focos elegidos para esse processo foi a diversificação de estratégias pedagógicas.

Após um primeiro momento de ampliação de repertório, os professores foram provocados a criar jogos que viabilizassem a participação e a aprendizagem de todo corpo discente. Como pressupostos, os jogos deveriam dialogar com o conteúdo curricular das diversas áreas do conhecimento e os estudantes precisariam ser responsáveis pela confecção dos materiais envolvidos. Para surpresa de todos, o grupo elaborou um conjunto bastante criativo e diversificado de jogos, tais como: Família das funções (jogo de cartas que favorece o entendimento das funções matemáticas de forma lúdica e descontraída), Jogo das expressões matemáticas (iniciativa voltada à criação de equações), E se eu fosse você? (dinâmicas em grupo que ofereciam aos alunos a oportunidade de se colocar no lugar do outro) e Luz e sombra no teatro (projeto que instruía os participantes a criar peças teatrais, estimulando a criatividade e a capacidade de planejamento e implementação).

Altas expectativas para todos

Não há dúvida de que o ensino médio nos impõe um conjunto de desafios urgentes, que pedem soluções capazes de dialogar com as demandas dos adolescentes do século XXI. É bom lembrar que as impreteríveis mudanças dizem respeito a todos os estudantes. O atendimento de pessoas com deficiência só explicita tal urgência. Nesse sentido, as experiências apresentadas anteriormente, pautadas pela garantia do direito à educação, trazem evidências de que é possível sair da inércia e prover oportunidades de aprendizagem para todos.

Mesmo partindo de temas bastante específicos (como preconceito e discriminação), os projetos concebidos e implementados pelos participantes do curso de formação tiveram a capacidade de estimular um amplo conjunto de competências, tanto cognitivas como socioemocionais. Suas estratégias transitaram por leitura, elaboração de textos, produção de materiais audiovisuais, cálculo matemático, autocrítica, autoconhecimento, empatia e outras. Ao mesmo tempo, souberam tirar proveito de um ambiente de heterogeneidade humana, valendo-se desse elemento como fonte para o processo criativo dos educadores no seu fazer pedagógico (mais detalhes em rm.org.br/ensino-medio-inclusivo).

Tenho trabalhado a partir da visão de que uma escola inclusiva acolhe todos e persegue altas expectativas para cada um. Para que isso ocorra, algumas premissas precisam ser levadas em conta. A começar pela consciência de que as expectativas devem conversar com as singularidades de cada estudante e, portanto, precisam ser personalizadas e constantemente revistas. Do contrário, seguiremos excluindo talentos, seja porque a barra é muito alta ou muito baixa. Outra premissa é a convicção de que não há como educar para a diversidade sem que haja planejamento pedagógico contínuo e diversificação do formato dos conteúdos, da mediação da aprendizagem e do engajamento dos alunos. As experiências mencionadas ilustram a viabilidade dessa concepção educacional, que beneficia todo aluno.

Equidade e valorização das diferenças

Estamos vivendo um momento decisivo para o futuro do ensino médio no Brasil. Em 2017, o Governo federal impôs um novo modelo a ser implementado nos próximos anos. Há alguns dias, o Ministério da Educação (MEC) encaminhou para o Conselho nacional de educação (CNE) uma proposta da Base nacional comum curricular (BNCC) para essa etapa de ensino. Ou seja, estamos passando por decisões relevantes, que trarão grande impacto. Mais do que nunca, se faz necessário garantir que a discussão sobre equidade e valorização das diferenças ocupe a agenda do debate, de forma contundente e democrática.

Meu envolvimento com o tema me permite afirmar que experiências exitosas de inclusão escolar no ensino médio não são mais agulhas no palheiro. Já acontecem em muitas escolas e podem ser significativamente ampliadas, desde que apostemos no protagonismo dos gestores, dos educadores e, acima de tudo, no protagonismo estudantil.

 

Rodrigo Hübner Mendes é fundador do Instituto Rodrigo Mendes, organização que desenvolve programas de educação inclusiva. É mestre em administração pela Fundação Getulio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka.

A versão resumida deste artigo foi publicada no blog “De olho na educação” em 18/05/2018, disponível em bit.ly/ensino-medio-inclusivo.

© Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: você deve creditar a obra como de autoria de Rodrigo Hübner Mendes e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes e DIVERSA.

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