Eixos de interesse: pontes para o aprendizado e desenvolvimento de todos os alunos

Será que você consegue se lembrar das coisas que mais gostava de fazer quando era criança? Daquilo que mais lhe interessava? Já reparou que durante seu tempo de escola você apreciava mais alguns domínios do conhecimento do que outros? Os eixos de interesse costumam estar presentes em nossa vida desde a mais tenra idade e, muitas vezes, são quase determinantes na escolha de um curso técnico ou graduação. Pessoas que desde a infância apresentam gosto por números tendem a buscar uma profissão que, de alguma forma, tenha como domínio a área de exatas. O mesmo habitualmente acontece com quem aprecia escrever redações, histórias, contos ou poesias: possivelmente buscará uma ocupação que tenha a linguagem como sua área principal de atuação.
Artistas como Stephen Wiltshire e Gilles Tréhin têm muito mais do que o transtorno do espectro do autismo (TEA) como algo em comum. Desde pequenos, tinham interesse em desenhar. Eles eram capazes de não somente pensar em imagens, mas de transferir para o papel representações fantasticamente fiéis à realidade. O eixo de interesse deles é o desenho com característica foto-realística. E eles, cada um em seu país, em seu contexto, trabalha fazendo uso disso em suas atividades ocupacionais.

Já Daniel Tammet, Jerry Newport e Jacob Barnett, que também têm TEA, compartilham o prazer em lidar com números. Podem não ter tanta habilidade na área da linguagem ou das artes, mas têm nos algarismos seu ponto ótimo, ou hiperfoco, como nomeiam alguns especialistas.

 

Que tipo de conhecimento a escola valoriza?

A escola se inclina a valorizar alguns conhecimentos mais do que outros e a exigir que todos deem conta dos diversos conteúdos abordados pelo professor. Desde cedo, aprendemos que temos que saber tudo o que nos é ensinado em sala de aula. E assim seguimos durante os muitos anos de formação, seja na educação básica ou no ensino superior.

Mesmo assim, muitos de nós apagamos da memória conteúdos estudados com perseverança para provas escolares. De que nos serviram? Que falta nos fizeram? Muitos foram decorados apenas para estarem presentes em uma avaliação como condição para a aprovação anual.

Ocorre que ninguém é bom em tudo! Mas todos têm algo que gostam de fazer.

E se a escola valorizasse mais os eixos de interesse onde comumente se encontram os potenciais de aprendizado dos estudantes? E se por meio dos eixos de interesse todas as áreas do conhecimento pudessem ser trabalhadas de modo que a aprendizagem se tornasse algo muito mais prazeroso? Uma vez que os domínios dos mais diversos saberes estão totalmente interconectados, os eixos de interesse identificados podem ser a ponte para o aprendizado e desenvolvimento de todos e de toda a turma.

 

Os diferentes eixos de interesse na escola

Se o eixo de interesse for a pintura, quanto mais o aluno é incentivado a desenhar e a pintar, mais ele desenvolverá conhecimentos sobre essa arte. No contexto da educação inclusiva, sabemos que muitas crianças com alguma singularidade distinta utilizam seus desenhos como modo de se comunicar com as pessoas. As ilustrações são sua linguagem simbólica.

Já os eixos de interesse ligados à literatura permitem a expansão das possibilidades de expressão, inclusive para pessoas com dificuldades de comunicação. Por meio de poemas, elas são capazes de se manifestar e compartilhar pensamentos e sentimentos. Além da possibilidade de produzir e abordar temas complexos das mais diversas áreas do conhecimento. Poesias podem ser exploradas pelos professores nos espaços de aprendizagem com o propósito de produzirem sentido e significado às muitas coisas que necessitam ser ditas, mas que nem sempre são por conta de dificuldades na comunicação e na interação social.

Focar nos eixos de interesse pode ser o caminho para novas descobertas e possibilidades para toda turma em razão da produção de informações construídas a partir do conhecimento em comum em pequenos grupos, da amizade, do envolvimento, do prazer, das conexões sociais estabelecidas.

Ora, por que não valorizamos mais aquilo que cada um sabe fazer tão bem? Por que exigimos padrões de super-humanos dos estudantes? Por que o que é mais difícil costuma ser mais valorizado pela escola, pela sociedade? Por que não ensinar tudo a todos, mas potencializar e dar mais valor aos eixos de interesse de cada um? Há alunos que podem ter dificuldades consideráveis com a escrita, como uma pessoa com dislexia. No entanto, ele pode ser excelente em química. Por que exigir dele o mesmo desempenho nas áreas em que ele não é tão bom e não tirar maior proveito daquilo em que ele se destaca?

 

Ampliando possibilidades de aprendizagem

A partir de habilidades presentes no eixo de interesse muitos aprendizes serão capazes de direcionar melhor suas vidas. Eles se relacionam melhor com as pessoas que se interessam pelo que fazem e, dessa maneira, acabam até por encontrarem a melhor forma para seu sustento. A descoberta dos eixos de interesse eleva os estudantes a outros patamares!

Portas se abrem para crianças historicamente fadadas ao fracasso escolar por não corresponderem às expectativas baseadas em um “aluno padrão” quando seus professores desvendam o que elas gostam de fazer. Por meio desse interesse central, elas vivem momentos de satisfação e prazer e, assim, descobrem canais de comunicação que lhes possibilitam aprender e se expressar com o universo exterior.

Não se trata de restringir ou privar, mas, ao contrário, de expandir possibilidades ao garantir o direito à diferença. Enquanto a busca pela homogeneização limita, a diferença surpreende, amplia e enriquece. A partir dos eixos de interesse, todos os domínios de conhecimento são trabalhados, mas de modo muito mais espontâneo, prazeroso e significativo. É muito provável que essa criança tenha maior êxito em seu processo de aprendizagem, de modo a descobrir maneiras de tirar proveito daquilo que gosta de fazer e a partir disso também aprender a melhor se relacionar com as demais pessoas e a constituir-se na sociedade da qual faz parte.

 

Sílvia Ester Orrú é coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Aprendizagem e Inclusão (LEPAI). É professora da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal de Alfenas (Unifal). É autora de livros, capítulos e artigos em periódicos nacionais e internacionais.

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