Educação de surdos: os desafios da proposta bilíngue

 

Merecidamente, após décadas de luta, os surdos veem reconhecida a sua língua e o direito ao seu uso, através do decreto 5626/05. A língua de sinais, a partir de então, tem sido ensinada em profusão nas escolas e universidades, bem como em instituições particulares.

Fascinante em sua estrutura gramatical é inquestionável a beleza da língua bem como a sua importância para a inclusão social dos surdos brasileiros, como também nas práticas pedagógicas e, é preciso que se reconheça que todo o indivíduo com perda auditiva será beneficiado com o seu uso.

Porém, para a elaboração de currículos na educação, devemos ter em mente o aluno surdo, nativo brasileiro que utiliza material pedagógico escrito na língua oficial de seu país e tem direito a uma educação de qualidade como qualquer indivíduo, para que possa escolher a profissão que mais lhe agrada sem ficar preso àquelas em que pode ser mais produtivo.

É preciso tornar evidente que existem diferenças nesta “diferença” que envolve a surdez, visto que a maioria dos surdos são filhos de pais ouvintes que não se comunicam em sinais e, adquirirem a língua na escola, em contato com outros surdos. Outros nascem ouvintes e perdem a audição após a aquisição da língua oral. Crises de identidade são notadas entre estes indivíduos que transitam em “dois mundos” sem que se identifiquem com nenhum deles. Não pode haver divisão de mundos entre pessoas que habitam um mesmo espaço, e muitas vezes, convivem sob o mesmo teto, e todas estas questões devem ser consideradas em processos educacionais.

Modelos pedagógicos para a educação dos surdos são apresentados por maiorias que os representa. O fato é que poucos são solicitados para apresentação de seus argumentos, alguns por absoluta falta de comunicação, outros por não compartilhar de ideologias praticadas por lideranças que ditam as regras do jogo, ocasionando em ambos os casos, a exclusão de muitos de um processo que deveria incluí-los. Muitas coisas são ditas por eles e sobre eles, e pouco se sabe de suas vidas; seus sonhos e aspirações.

É preciso que, além de aprender e ensinar Libras, as escolas também se preocupem com todos estes fatores e, que medidas urgentes possam ser tomadas para o cumprimento integral do decreto 5626/05 que também exige o ensino da língua portuguesa para os surdos brasileiros, visto que uma verdadeira educação bilíngue lhes proporcionará maior aproximação com as pessoas do mundo em que vivem, interage e constrói sua identidade.

 

Sonia Oliveira é professora de Libras na Fundação Getúlio Vargas. Atua na Associação de Professores Surdos do Estado de São Paulo em processos de inclusão social de surdos.

©Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: Você deve creditar a obra como de autoria de Sonia Oliveira e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes e DIVERSA (www.diversa.org.br).

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