E você, já foi tolerado?

 
As sociedades ocidentais construíram visões em relação às diferenças (raça, cultura, pessoas com deficiência, identidades) com que foram sobre elas atuando.

As perspectivas sobre o Outro podem ser identificadas sob três olhares: o etnocêntrico, o tolerante e o generoso.

No primeiro, fundado na boa consciência civilizacional da Europa e das suas formas de humanidade, a alteridade é julgada a partir dos cânones estabelecidos como normais, tornando essa normalidade normativa: as formas hegemónicas de pensar, de ser pessoa e de organizar a vida das sociedades ocidentais são postulados como superiores. O olhar sobre o Outro é um processo de juízo e de acção a partir do ponto fixo: o BEMCHUC (Branco, organizado socialmente pelo Estado, Masculino, Cristão, Heterossexual e Urbano e Cosmopolita).

O olhar da tolerância foi construído a partir da identificação do Outro no nosso seio. A tolerância surge como a acção de quem tolera sobre quem é tolerado, portanto, objeto da ação moral e política que o coloca entre Nós. A inspiração cristã e humanista não chega para esconder a arrogância ética, epistemológica e política daquele que tolera.

O olhar da generosidade assume a culpa pela vida ‘desolada’ do Outro. A culpa, pela autocrítica que lhe subjaz, torna-se em programa político: cuidar do Outro. O problema do Outro é problema nosso. Supõe-se que a sua emancipação é a nossa emancipação. São os sem voz a quem urge dar voz.

Nas nossas vidas pessoais, e mesmo na pesquisa e intervenção na inclusão social, mobilizamos estes olhares de uma forma mais ou menos crítica. Todavia, o Outro crescentemente toma a enunciação da sua própria diferença, desafiando os olhares, mesmo os mais generosos, que sobre eles foram sendo construídos.

O olhar da tolerância, e mesmo o da generosidade, podem empolgar discursos de aparente emancipação, mas não escapam à pergunta: quem coloca alguém na posição de ser tolerado de ser objeto da generosidade?

Nós e Eles somos partes de uma relação e não há um Nós que tenha a legitimidade universal de determinar quem são os Eles e do que necessitam.

A diferença também somos nós: é a nossa alteridade que se expõe na relação com o diferente. Nesse ponto, para os que fazem da alteridade o foco do seu trabalho de investigação e intervenção, coloca-se a recusa da ação unilateral sobre ela, cuidada e agida como seus objetos.

Já experimentou ser tolerado, ou ser objeto de generosidade? Podíamos começar por aí.

 

António M. Magalhães é professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e investigador em políticas sociais e educativas.

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